A CONQUISTA
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Chegou mais um fim de ano. 1962. Morávamos em um loteamento na zona leste, com mais de cem famílias, sem muitas opções de diversão. Este loteamento fora vendido por uma construtora de reputação duvidosa. Entre os moradores não havia entrosamento e união, fato que geravam diversos problemas. Havia casos na justiça que se arrastavam por mais de vinte anos. O clima na região era tenso, e sempre que os moradores se reuniam acabavam brigando. Era comum a presença da polícia para acalmar os ânimos. Os jovens já envolvidos neste clima, também discutiam e arrumavam confusões na escola, nas ruas e nas poucas praças do bairro. A prefeitura tinha um projeto de fazer uma grande avenida que atravessaria todo o bairro, este era outro motivo de discórdia, pois beneficiaria a maioria com a valorização de seus lotes, e penalizaria outros moradores que perderiam suas casas. O pânico era total. Para agravar a situação, havia um rio que passava em alguns pontos e transbordava, em virtude da canalização feita pela prefeitura na parte de cima de outro loteamento, já regularizado, e de alto padrão, deixando a nossa parte estreita e estrangulando a vazão do leito do rio. Andar pelo nosso bairro era desfrutar de um cenário desolador. Ruas sem asfalto, sem esgoto e água encanada. Éramos obrigados a conviver com poços e as famosas fossas assépticas, que levaram muitos moradores a contraírem doenças graves devido a contaminação. No entanto, os lotes eram bem definidos, ruas largas, arborizadas e casas de alvenaria. O projeto fora preparado para que o condomínio fosse de bom padrão, mas infelizmente, as coisas tiveram outro rumo. Não havia perspectiva de um futuro melhor para o bairro. A única escola ficava á quilômetros de distância, e não era servida por linhas de ônibus. Desta forma, muitos não estudavam e outros andavam horas a pé, expostos a todos os perigos.
Um dos primeiros a adquirir um lote, foi o senhor Manoel. Um velho português, que construiu um armazém bem abastecido, a fim de atender toda a comunidade. Seu comércio amenizava o sofrimento de muitos moradores, pois tinha de tudo um pouco, desde pães, frutos, carnes, verduras, legumes entre outros produtos. Levantava-se cedo, ia até o entreposto da prefeitura, somente para atender esta população. Preocupado com a situação financeira de seus clientes, vendia fiado, com anotações em caderneta, deixando que os moradores pudessem pagar em longo prazo. Senhor Manoel, também se preocupava com o bem estar dos moradores, e todo mês trazia um médico para consultar os mais necessitados, já que não havia hospitais nas redondezas e nem posto de saúde no bairro. Os mais velhos tinham muita dificuldade de andar até o local onde o médico os atendia, as filas eram imensas, pois todos queriam aproveitar para se consultarem gratuitamente. Um dentista, também vinha esporadicamente para tratar de casos mais urgentes.
Seu Manoel era o único que tinha automóvel. Viu nascer muitas crianças, quando levava as mães para a maternidade mais próxima. Estava sempre presente nos casamentos, quando gentilmente levava os noivos até a igreja. Socorria os doentes a qualquer hora do dia ou da noite.Jamais se negou a atender os óbitos, e levá-los para sua última morada. Senhor Manoel era o guardião da nossa comunidade, e era o único que conseguia reunir todos os moradores ao seu redor.
Tinha sempre uma palavra amiga e de esperança, pois seu sonho era ver um bom relacionamento entre os moradores. Mas, parecia impossível esta união. Sempre falava de um sobrinho que estudava em Ribeirão Preto. Filho de seu irmão, vítima de um acidente de automóvel. Era seu único herdeiro. Tinha orgulho dele, pois estudava justamente o que ele sempre sonhou.
Certa ocasião, reuniu todos os jovens do bairro para comunicar a chegada de Felipe, o seu sobrinho, que passaria as férias com ele. Felipe pediu a seu tio que reunissem todos os jovens da região, pois tinha interesse em conhecê-los. No primeiro domingo de dezembro de 1962, o mercadinho do Senhor Manoel recebeu aproximadamente cem pessoas, que desfrutaram dos comes e bebes, oferecidos por ele. Era estranho observar tantas pessoas juntas, porém tão distantes umas das outras. Em torno do meio-dia um lindo carro preto parou em frente ao estabelecimento. Lentamente a porta do veículo foi se abrindo, e deste saiu um jovem, alto, loiro, de olhos azuis. As moças não acreditaram ao ver um homem tão bonito. Os rapazes, a princípio cobertos de inveja, logo foram conquistados pela simpatia e educação de Felipe, que fez um breve discurso onde impressionou a todos. Nunca tínhamos ouvido alguém falar em público de forma tão eloqüente e motivadora. Felipe falava da beleza do nosso bairro, das árvores que viu ao chegar. Dos pássaros que ouviu cantar. Das pessoas bonitas nos portões, das crianças que brincavam nas calçadas, e percebeu que aquele lugar era abençoado por Deus. As pessoas se entreolhavam e questionavam:
“De que lugar é esse que ele está falando?” O dia continuou com muita festa, e pela primeira vez ouvi o nome de alguns vizinhos, e sobre o que eles faziam. Notei que os seus problemas eram os mesmos de minha família. Felipe tinha o poder de aglomerar as pessoas. Foi tirando de cada um informações que não relatávamos nem a nossos pais. A sua imagem era carismática, mostrava saúde, inteligência e muita humildade. Conheceu a situação do bairro e das pessoas já no primeiro dia, pois não perderam a oportunidade de informá-lo sobre todos os nossos problemas, mas em nenhum momento mostrou-se preocupado, e comentava que os problemas apontados não eram tão graves, e que precisavam ser solucionados. Dizia que estava se especializando nos estudos dos direitos do cidadão. Não entendíamos nada do que ele falava, mas gostávamos de ouvi-lo.
Os dias se passaram. As reuniões eram diárias. Felipe promovia a cada dia um modo novo de reunir os jovens, sempre na casa de alguém. Tinha o apoio de seu tio que levava alimentos e guloseimas para atrair as crianças, os jovens e até os mais velhos.
Jogávamos bola, brincávamos de perguntas e respostas, sempre direcionadas aos direitos das pessoas. As moças apresentariam no sábado seguinte uma peça que falasse dos direitos da mulher. Os rapazes montaram um time de futebol, pois Felipe nos deu uma bola de presente. Sugeriu uma caminhada no bairro, para unir nossos pais e vizinhos, numa cruzada pelo reconhecimento dos lotes adquiridos no passado, bem como iniciarmos uma luta pelo desenvolvimento e regularização do saneamento básico. Em pouco tempo Felipe envolveu a todos no bairro. Comovia-me ver os jovens unidos, freqüentando outras casas, embora sempre acompanhados de nosso anfitrião. Realizavam bailes, e de uma maneira saudável, envolvia, não só os jovens como nossos pais. No preparo do evento, uns se preocupavam com a vitrola, outros com a segurança, outros com os aperitivos, mas antes e no final de cada festa, Felipe fazia comentários sobre a importância da união para alcançarmos o nosso objetivo.
Passamos o Natal e as festas de fim de ano, em confraternização, como nunca tínhamos visto. Participamos da missa campal, fizemos encenação do nascimento de Jesus, cantamos, jogamos bola, fizemos teatro. Felipe determinou obrigações a cada um, de maneira que todos participaram da organização durante os festejos, que encerraram em 31 de dezembro com uma passeata, onde todos os moradores de mãos dadas, reivindicavam das autoridades seus direitos, bem como cobravam deles uma postura quanto à realização de obras de infra-estrutura para a melhoria do bairro.
A organização chegou a perfeição. Logo atraiu jornalistas que perceberam uma oportunidade de sensacionalismo, pois o país passava por turbulências políticas gravíssimas, e que ali começava a surgir uma pequena revolução, que, se bem explorada pela imprensa poderia ter repercussões interessantes. As manchetes noticiavam a passeata em destaque, que chamou atenção das autoridades. Acreditavam que se não fosse contida a tempo, poderia causar problemas políticos nacionais.
Durante as primeiras semanas de 1963, todos os jornais do Brasil, apresentaram manchetes do que estava acontecendo em nosso bairro. Recebemos visitas de correspondentes internacionais, que interessados em saber como nossa comunidade unida, tinha criado uma situação que incomodava o país que passava por uma instabilidade governamental. Nas forças armadas, ocorriam desavenças entre os três poderes militares. E a confusão iniciada em nosso bairro já era assunto discutido no Planalto Central, pois poderiam disseminar em todo o país, o interesse por reuniões semelhantes para cobrar do governo uma posição política, que os mesmos não tinham interesse em discutir naquele momento.
Fevereiro chegou. Felipe, empolgado, encaminhou uma carta á sua escola em Ribeirão Preto, pedindo licença para permanecer em São Paulo, já que ingressara numa campanha pela melhoria do nosso bairro. Recebemos a visita do primeiro comandante do exército, que marcou uma reunião que se prolongou por toda noite, com nosso líder, Sr.Manoel e mais alguns moradores que foram escolhidos, realizada no mercadinho. Nunca tínhamos visto tanta movimentação. A imprensa cobria o fato e por uma fresta podíamos escutar o comandante pedir para acabar com o movimento, pois se isso não acontecesse o exército iria ocupar o bairro, já que aquela atitude estava criando um sentimento de cobrança, e isso poderia desencadear numa situação desconfortável para o país. Apesar das ameaças, nosso líder Felipe, manteve-se calmo, falava pausadamente, porém com atitudes fortes, exigiu uma reunião com o prefeito, ou o governador, ou até mesmo com o presidente, pois queríamos, somente, a regularização dos lotes, o saneamento básico, e escolas para a nossa comunidade. O comandante fez algumas ligações via rádio, prometeu uma reunião com o governador de São Paulo a ser marcada oportunamente.
A imprensa percebeu que tinha em mãos uma ótima oportunidade de explorar a situação causada pelo exército, e noticiou com grandes estardalhaços que o governo teria cedido a pressão da comunidade, e marcou uma reunião para atendê-los a fim de terminar com o movimento.
A situação começou a se complicar, pois a maior revista de circulação da época, deu como reportagem de capa, a crise e as passeatas do nosso bairro, reivindicando direitos pela terra, por mais casas, melhores condições de vida. O assunto foi distorcido, pois como o país passava por uma crise econômica, instabilidade governamental, assassinatos de jornalistas no Rio de Janeiro, pequenos focos de resistência ao sistema, assim a nossa causa passou a ser vista como a principal articulação para a queda do regime, mas na verdade estávamos sendo usados como bodes expiatórios, pois a nossa reivindicação era somente por esgoto, água potável, eletricidade, asfalto, escola, e não um movimento que pudesse incomodar outras comunidades. Não queríamos ser cobrados no futuro, por termos iniciado uma revolução que confrontasse o estado de direito.
Para nossa surpresa, os estudantes de direito do largo São Francisco, iniciaram uma passeata que começou em frente ao mercadinho do Sr. Manoel, e aproveitando esse movimento, outros estudantes, líderes sindicais, desempregados, moradores dos bairros vizinhos, um verdadeiro mar de gente; foram se juntando, todos com faixas e cartazes solicitando que as autoridades olhassem para aquele povo. Com a palavra de ordem de nosso líder Felipe, caminhamos até o Palácio do Governo. Esta passeata durou em média 5 horas, pois nosso bairro era muito distante do centro do poder. Ao chegarmos, fomos recebidos com bombas lacrimogêneas, cassetete, jatos de água, pancadaria e muita confusão. A cobertura da imprensa, não intimidou as atitudes covardes e agressivas por parte da polícia. Centenas de prisões ocorreram. Felipe, um dos mais espancados, foi preso e passou por momentos muito difíceis. No mesmo dia, por intervenção de sua escola, foi retirado da prisão em estado grave, e levado para um hospital em Ribeirão Preto, para recuperação. No dia seguinte, após a confusão fomos surpreendidos com a tropa de choque plantada em nosso bairro. O mercadinho de Sr. Manoel estava lacrado. Ele também havia sido preso, acusado de ser o mentor e articulador de toda aquela confusão. A população do bairro nada podia fazer. Tínhamos esperança que Sr. Manoel fosse liberado o mais rápido possível. E foi o que aconteceu. Ele voltou frágil, assustado, machucado, porém não perdeu sua dignidade. A população após ter participado de todo esse movimento, mesmo sem a presença de nosso líder Felipe e de nosso protetor Sr. Manoel, em recuperação psicológica, não conseguia mais ficar passiva ao que estava acontecendo. Novas reuniões foram feitas na calada da noite.O movimento crescia e estávamos atentos aos acontecimentos de todo país. Manifestações eram reprimidas em vários lugares. Na verdade não entendíamos muito que estava acontecendo. Lutávamos somente pela regularização do que achávamos que era de direito. Recebíamos carta do poder central, dizendo que nos acalmássemos, pois tudo estava sendo visto, e logo teríamos notícias.
O movimento continuou. Sr.Manoel se recuperava, e todos os dias a comunidade procurava saber sobre o estado de saúde de Felipe, que já tinha voltado a estudar. Mandava abraços á todos e dizia que estava acompanhando a luta e os trabalhos que ele mesmo implantara na nossa comunidade.
O tempo passou, 1964 chegou. Um ano histórico. Passamos por muitas turbulências. Ocorreram fatos que a história até hoje não se cansa de relatar. 1965, ano difícil. 1966, 1967, 1968, quase não tivemos sossego, mas mesmo assim fomos recebendo de forma gradual tudo o que estávamos reivindicando. 1970. O Brasil passava por profundas mudanças na economia. A situação do indivíduo ainda era muito controlada. Tínhamos uma aparente liberdade. Comemorávamos ainda a chegada do homem a lua, ocorrida um ano antes.
O país todo em festa ganhava pela terceira vez a copa do mundo, mas nada era tão esperado como o dia 24 de dezembro deste ano. A comunidade toda reunida, os jovens, a imprensa desde cedo estava postada em frente ao supermercado mais famoso da zona leste, o do Sr.Manoel.
Já tínhamos algumas experiências com equipamentos eletrônicos e conseguimos identificá-los, colocados estrategicamente em frente as principais ruas do bairro. Eram lindas, lentes grandes, tripés no chão, e outra sobre um carro, eram câmaras de televisão, aguardando a chegada de um dos responsáveis por uma época que somente a união poderia ter dado a dignidade de uma população carente, que se tornou em pouco tempo, referência em todo país.
Um lindo carro preto estacionou em frente. Lentamente a porta se abriu. Um homem louro, faces rosada, olhos azuis, cabelos curtos, desceu. Um grande silêncio tomou conta do lugar. Podíamos ouvir os passarinhos cantar ao longe. Aquele homem, nosso líder, nosso amigo, vestia uma batina, tornara-se padre. Respeitado até no vaticano, que o tinha convocado para exercer sua vocação junto ao Papa em Roma. E sua despedida do nosso país, tinha que ser em nosso bairro. Estávamos emocionados com a presença de alguém tão ilustre. Num momento de alegria, levantamos os títulos de propriedades de nossos terrenos. E acenamos, para que ele pudesse avaliar a importância de sua passagem por nosso bairro, agora referência nacional. Com uma infra-estrutura de dar inveja a outras comunidades internacionais, graças a coragem de Sr. Manoel, que investiu e acreditou, que um homem como seu sobrinho, poderia realizar tantas coisas em tão pouco tempo, e com a cobertura da imprensa escrita, falada e televisionada, Felipe despediu-se de nossa comunidade e com um grande abraço em seu tio. Embarcou para a Itália, para exercer um cargo que num futuro breve, vamos ouvir falar, e provavelmente o chamaremos de Dom Felipe.
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