A DIFÍCIL ARTE DE ENVELHECER

(PSEUDÔNIMO: NECO)

1950. Uma multinacional do ramo de cigarros instalou-se no país com projeto de expandir-se por toda a América do Sul, apesar de muitos contratempos e indignação por parte da sociedade uma grande campanha promocional atraiu muitos jovens para fazer parte de sua equipe de profissionais que rapidamente conseguiu contratar todos os funcionários necessários para os serviços mais rotineiros, durante alguns meses selecionou alguns jovens que durante esse período tiveram que passar por diversos programas de treinamento, onde apenas um deles faria parte de um dos maiores e mais cobiçados cargos da empresa, Representante Comercial e de Marketing do Brasil e da América do Sul. Álvaro dotado de uma inteligência invejável e de família rica teve a oportunidade de estudar na melhor universidade dos EUA, falava várias línguas, era ambicioso, e não havia nada que o prendesse a só um lugar, requisito básico para todos os candidatos. A disputa fora acirrada, apesar de sua qualificação chegaram empatados em todos os itens dois candidatos. Após a entrevista com o diretor de Marketing, Álvaro foi o escolhido. Meses mais tarde veio, a saber, que se sobressaiu por seu porte atlético de l.90m de altura, olhos azuis e bonito, o que o levou a galgar o cargo. A empresa em evolução e a disseminação da marca de cigarros angariaram adeptos rapidamente. Os filmes de Holliwood apresentavam os artistas sempre fumando, atraindo assim uma nova camada da sociedade para o vício. Era status ter entre os dedos um cigarro aceso. Álvaro aos seus 21 anos de idade, começou a conhecer os itens fundamentais da concorrência. Visitava a todos os postos de venda, analisava os pontos fracos, promovia campanhas, participava de jogos e eventos esportivos, festas e inaugurações. Nos primeiros 10 anos de trabalho e dedicação teve a oportunidade de visitar todos os municípios do Brasil, viajou de avião, de ônibus, automóvel, e trem. Fazia tudo o que era possível para estar sempre presente onde a companhia necessitasse. Em meados de 1966, a empresa já estava consolidada no país. Álvaro um executivo de sucesso já não tinha moradia fixa, pois era um homem que ganhava fortunas para viajar. Iniciava-se a etapa do planejamento da empresa, que nos 10 anos seguintes investiriam na Argentina, Paraguai, Peru, Bolívia, Chile. Álvaro tornara-se o Diretor Representante da América Latina. Ficou muito rico e cada vez mais envolvido com o crescimento da empresa. Nesta época já era um fumante inveterado, pois tinha que falar e discursar para grandes platéias, e sempre que podia tinha entre seus dedos um cigarro da companhia. Com o projeto de crescimento na década de 80, a empresa incorporou outras filiais, exigindo que seu principal executivo estivesse atento a cada momento, obrigando-o a dispor de todo o seu tempo livre para acompanhar a concretização, a evolução, e a fixação das novas marcas em cada mercado que atuava. Na década de 90, o poderio econômico da empresa levou a liderança em toda a América Latina. Álvaro sempre forte detinha o comando de uma das maiores empresas do ramo de cigarro. Habituado em trabalhar e viajar tinha consciência que a empresa chegou ao auge somente porque ele esteve presente, fiscalizando, orientando, e a administrando. Centralizador, não permitia mais distribuir o seu poder e já não tinha mais tempo para ele. Estava trabalhando num grande projeto nos EUA, quando soube do falecimento de seus pais, que mesmo tendo ocorrido em meses diferentes não tivera tempo para acompanhar os funerais. Vivia de hotéis em hotéis, sua alimentação era bastante variada, uma vez que em cada lugar por onde passava experimentava as comidas típicas,e por conseqüência tinha grandes problemas de digestão, que complicou sua saúde.
Consolidada em todo o continente Americano, a empresa partiu para a Europa, num verdadeiro trabalho de composição, compra e incorporação das filiais que passou a dominar toda a Europa. Sabia ainda que muitas dessas operações foram feitas na calada da madrugada com a estratégia de manter as marcas locais. Muitos governantes até hoje não sabem que o grupo nacional detem 40% do mercado de tabagismo. Álvaro participante ativo de toda a evolução da empresa desde 1950. Homem aclamado ganhador por três vezes consecutivas como o “Homem de Negócios do Ano”. Foi responsável pela criação de milhares de empregos, ascensão nas campanhas de marketing que patrocinou corridas de automóveis, principalmente os da fórmula 1, e envolvidos com centenas de negócios pertinentes ao ramo do tabagismo.
Via o tempo passar. O computador lhe trazia informações dos diagramas, e da valorização das ações na bolsa. Da janela do hotel, enquanto admirava Nova York e fumava um cigarro, batia no peito e conseguia elogiar-se. Sabia ser o responsável por um dos maiores impérios do mundo. Não teve casa, nem amigos, não teve tempo para constituir uma família, mas teve a oportunidade de conhecer muitos lugares, paises, festas e emoções. Sabia que logo teria que se aposentar, seria necessário preparar-se para aproveitar a vida. Estava com 66 anos, até o final daquele ano receberia a carta de afastamento. Mudaria para o Brasil em algum lugar tranqüilo e aproveitaria um pouco da sua fortuna. Às vezes pensava se não estaria muito velho para isso, mas também acreditava que com sua experiência teria capacidade para recomeçar.
Em 1991, Álvaro aposentado chegou ao Brasil após as semanas de festas, prêmios, e honras ao mérito. Recebeu uma grande quantia em dólares como reconhecimento por seu trabalho que transformou um sonho num grande império. Adquiriu um apartamento luxuoso nos jardins em São Paulo, mobiliou-o com requinte e qualidade, passou a freqüentar a sociedade local, porém sentia-se deslocado, uma vez que aquela comunidade já estava formada e envolvida por amizade, coisas que seu cargo não o permitiu desfrutar. Sentia-se rejeitado e passou a ficar mais recluso em seu apartamento. Em pouco tempo tornara-se um homem amargurado. Após alguns meses de aposentadoria recebera a notícia do falecimento de seus principais colaboradores, uns até mais novos que ele. Percebia que sua vida estava sem sentido, sentia-se deprimido, então começou a fazer uma reflexão de sua vida. Cada vez que o sino da igreja batia, ele pensava em Deus, era o único com quem conversava. Em alguns momentos até desesperadamente suplicava pedindo ajuda, pois levantou um império, mas acreditava que já não tinha tempo para recomeçar. Seus pais faleceram e ele nem pôde estar presente. Tivera vários romances em outros paises, mas a ânsia do sucesso não o permitiu amar. Aos 67 anos estava só, e cada dia que passava era um dia a menos de vida.
O porteiro do edifício era o único que freqüentava sua casa, e sempre levava uma palavra de conforto, insistia para que Álvaro freqüentasse a igreja do bairro onde tinha uma comunidade atuante, um grupo da terceira idade e muita amizade entre eles. Considerava que este convívio facilitaria um envolvimento de amizade com os moradores do bairro. Álvaro que só freqüentava a igreja em ocasiões especiais, resistia a esse chamado.
No dia de Natal de 1996, estava sozinho e podia ver do seu apartamento uma grande movimentação de pessoas que estavam dirigindo-se á igreja para a missa de Natal. Sozinho e depressivo resolveu vestir-se e assistir a missa. Dirigiu-se aos portões, andou pelo pátio, e ainda um pouco deslocado titubeou em entrar. Apesar de grande a igreja não estava lotada, podia ver de fora que os últimos bancos estavam vazios. Subiu as escadarias, parou na porta tentando localizar um lugar discreto para sentar-se, mas sua presença logo foi notada, pois quase todos ali da comunidade se conheciam. Aquele homem alto, cabelos cheios e grisalhos, terno bem cortado, parecia que tomava conta de toda porta da igreja, o padre ainda não havia chegado ao altar. No lado direito da igreja encontrava-se D. Durvalina, senhora responsável pela preparação da missa, preocupava-se em acomodar os fiéis, distribuía os panfletos, e tinha como norma em cada canto do altar colocar um ramalhete de rosas. Do lado esquerdo, tinha uma equipe de cantores, instrumentistas, conhecidos em outras paróquias por suas belas canções. No comando uma noviça, conhecida por sua voz deslumbrante que conseguia atrair fiéis de outras igrejas para participarem da cerimônia. Tanto D.Durvalina, quanto a Noviça Teresa observaram Álvaro sentado no último banco totalmente deslocado, parecia perdido. Teresa caminhou pelo corredor da igreja, e num ato gentil o convidou para sentar-se no banco mais à frente entregando-lhe um folheto. Neste momento, ela sentiu algo que nunca havia sentido antes, seu corpo gelou, seu coração batia descompassadamente, o perfume que Álvaro usava fora tão marcante que mesmo afastando-se dele não conseguia deixar de senti-lo. Chegando em frente ao altar, ajoelhou-se e rezou, não entendeu o que estava acontecendo, caminhou até sua equipe para iniciar os cânticos da cerimônia. Durvalina preocupada em organizar a lotação da igreja solicitava que todos se acomodassem para que os demais fiéis da igreja pudessem ter lugar. Nessa caminhada chegou próximo a Álvaro, onde fez questão de lhe entregar outro folheto, ele gentilmente recebeu e agradeceu, ficando com os dois folhetos na mão. Durvalina era viúva, e também se sentia solitária, com a presença de Álvaro estremeceu, algo tinha despertado em seu coração, pois nunca tinha visto um senhor tão elegante, bonito e sozinho, e assim uma pequena esperança surgiu e iria observá-lo melhor.
A missa teve início, e todo o envolvimento da cerimônia de Natal contagiou Álvaro. Lia o folheto, acompanhava as músicas, ouvia a palavra proferida pelo Padre Edmilson, comoveu seu coração, falava do nascimento, da família, de amigos. Rezou e cantou, cumprimentou a estranhos como se fossem seus amigos. D. Durvalina e a noviça Teresa fizeram questão de cumprimentarem todos os fiéis até que chegasse a Álvaro, desejando-lhe paz e convidando-o para freqüentar as missas com a comunidade. A noviça apontava o folheto para que ele observasse a próxima música que ela cantaria. Todos os fiéis sentados puderam ouvir os primeiros sons, e uma voz magnífica começou a cantar a música da família.
...“Abençoa Senhor as famílias, Amém, Abençoa Senhor a minha também”. Álvaro por um instante voltou ao seu passado, relembrou a casa de seus pais, de como eram unidos e todo o trabalho que tiveram para educá-lo. Era filho único, teve toda atenção para que se tornasse um grande homem.
Deus abençoou sua família, e quando estava pronto partiu para a sua independência e naquele momento agradecia a Deus e a seus pais, pois tinha alcançado todo sucesso que almejaram.

Os festejos de final de ano o mantiveram ainda em depressão. Ao iniciar 1997, passou a freqüentar as missas de domingo. A perspectiva da presença de Álvaro na igreja motivou D. Durvalina a decorar a igreja de forma diferente ao habitual, criou um local nos bancos da frente para freqüentadores que pudessem participar da liturgia, obviamente pensando nele. O Padre aprovou as mudanças e até achou que seria o ideal para agitar aquela comunidade. D.Durvalina colocou os folhetos em lugares específicos, e uma fita impedindo que pessoas que não fizessem parte do grupo pudessem sentar-se nos respectivos bancos. A noviça Teresa que estudava no colégio de freiras, pertencente à igreja, dedicou-se também de forma diferente, com novas músicas e ensaios. Não excluiu a música da família, pois percebeu que ao cantá-la, Álvaro se emocionou. Na primeira missa do ano a igreja estava lotada, várias músicas já haviam sido entoadas, as pessoas escolhidas para a liturgia já haviam ocupado seus lugares. Durvalina colocara o ramalhete de rosas, enquanto Teresa comandava a banda, e olhava freqüentemente até com certo nervosismo para a porta da igreja, como se esperasse por alguém, essa atitude chamou a atenção da banda que passaram a olhar para a porta também. O padre entrou e iniciou a missa, todos os rituais foram cumpridos. Durvalina ansiosa olhava para vários lugares ao mesmo tempo a procura de Álvaro. O padre Edmilson percebeu uma certa tensão na equipe, quando de repente, novamente a porta é tomada pela presença de Álvaro, que continuava acanhado e procurava um lugar para sentar-se.
Durante a missa o clima ficou tenso, Teresa tomada pela emoção quase não conseguiu cantar. Durvalina era a responsável pela comunhão e estava atenta ao que acontecia, mas não tirava os olhos de Álvaro, que se sentou a sua frente, num lugar por ela escolhido e mesmo ele não pertencendo ao grupo de liturgia tinha seu lugar cativo. Teresa refeita do susto começou a cantar como nunca, sua voz ecoava suave pelo grande salão da igreja. Álvaro encontrava na missa uma grande aproximação com Deus, e encontrava na voz da noviça a paz. Já estava integrado á comunidade e sentia-se em casa, mas constantemente quebrava o silêncio com tosses permanentes e às vezes até irritantes. Apesar de ser um homem forte e vaidoso, sua situação física estava se comprometendo. Durvalina rezava pela sua saúde, vários fiéis nos finais das missas procuravam Álvaro para indicar-lhe remédios caseiros. E Teresa tão envolvida com seus mais íntimos segredos não conseguia perceber que aquele homem procurava Deus para confortá-lo naquele momento de sua vida.
Durante a semana houve uma mudança brusca da temperatura, muita chuva e frio. Algumas enchentes em bairros vizinhos atrapalharam os fiéis para a missa de domingo, de forma que a igreja estava vazia. Para a entrada do padre, tudo já estava pronto. Durvalina cuidadosa como sempre havia preparado toda a cerimônia como se fosse uma grande ocasião. Teresa naquele dia vestiu elegantemente, tinha ensaiado cânticos novos e foi dado início a missa. O Padre Edmilson percebia que suas duas assistentes estavam presentes, porém distantes, e viajavam em seus pensamentos. Teresa cantava triste o cântico da família porque Álvaro não havia chegado, os fiéis perceberam a diferença no tom de voz, cabisbaixa Teresa olhou para a porta e viu a imagem de Álvaro envolto pela luz do sol, seus olhos encheram de lágrimas. Álvaro caminhava lentamente, enquanto Teresa tomada pela emoção soltou a voz, cantou como nunca, Álvaro sentou-se em seu lugar previamente reservado, Teresa cantava com os olhos fixos nele, sua voz ecoava pela igreja, estava feliz e seu coração palpitava. O som parou e Teresa não se deu conta e continuou cantando.
....“Abençoa Senhor as famílias, Amém, Abençoa Senhor a minha também....., e continuava cantando sem som, o Padre esperava que ela terminasse de cantar para prosseguir, os fiéis atônitos olhavam para Teresa que parecia estar em transe, cantava e olhava para Álvaro, de repente ela parou de cantar, fechou os olhos e esfregou-os, e ao abri-los não vê Álvaro, ele não estava ali, fora apenas sua imaginação. Olhou calmamente para o banco, ergueu sua cabeça e olhou toda a igreja, percebeu que todos olhavam para ela e com gesto sutil, desculpando-se ao celebrante voltou ao seu coral e a missa recomeçou. Teresa em seu íntimo pedia perdão a Deus, o que estava acontecendo com ela era algo tão forte que não tinha controle. A missa terminou. O Padre ao encerrar começou a ler os avisos para a semana, entre eles leu um telegrama de Álvaro, pedindo desculpas por não estar ali, e pedia que todos rezassem pela sua saúde, pois estava internado com diagnóstico de crise de enfisema pulmonar. Estava muito preocupado e somente com muita oração e fé ele se restabeleceria.
Neste momento pôde-se ouvir novamente um barulho, onde das mãos de Durvalina caiu o cálice e das mãos de Teresa caiu o microfone. Ambas surpresas com a notícia. O padre notou aquela estranha reação, os fiéis também ficaram surpresos, e entreolharam-se questionando a atitude das duas assistentes. Elas apressaram-se em obter maiores informações. O padre foi abordado na sacristia e percebeu o interesse. Leu novamente o telegrama, onde apontava que ele estava internado em um dos melhores hospitais de S. Paulo, com horário de visitas das 15:00 às 16:00 horas. Teresa saiu e pôs-se a rezar. Durvalina percebeu que Teresa havia dado muita atenção ao horário de visitas, com malícia procurou rapidamente mudar a agenda do Padre Edmilson, que além de seus afazeres na igreja, dava aulas de religião no convento durante as tardes. Durvalina alegou a necessidade da presença dele em outros compromissos, convencendo-o a mudar o horário das aulas para ás 15:00 horas, onde a presença das noviças era obrigatória. Com isso acreditava que tiraria a oportunidade de Teresa ter tempo livre para visitá-lo. Teresa ao saber da mudança de horário ficou triste, pois tinha que cumprir as determinações do curso. Durvalina aproveitou a situação e passou a visitá-lo e confortá-lo. Álvaro tinha um tratamento digno, porém com devido as complicações pulmonares permaneceu internado por mais tempo que o previsto. Durvalina tinha seu tempo livre, e passou a fazer companhia a ele e até resolver seus problemas particulares. Ele sempre perguntava como estava a comunidade, a Teresa, o Padre. Alguns dias passaram e a noviça estava desesperada, pois só tinha informações de Álvaro através de Durvalina, que fazia questão de demonstrar uma certa intimidade com ele, o que deixou Teresa indignada. Impedida de vê-lo no horário de visitas, decidiu vestir seu hábito, coisa que raramente fazia, pois ainda não estava ordenada, mas somente desta maneira teria livre acesso no hospital, uma vez que era prática comum as freiras do convento darem assistência voluntária no tratamento dos pacientes. Teresa andou pelos corredores, chegou a uma grande sala onde os pacientes praticavam uma terapia de convivência e integração. Álvaro que se sentia cansado deitou-se numa das camas que ficavam a disposição dos pacientes, Teresa adentrou a esse recinto e foi muito bem recebida por todos. Ele viu aquela jovem freira com seu rosto encoberto, apesar de uma aparência conhecida não a reconheceu, cumprimentou e percebeu que ela dava atenção a todos. Teresa teve medo que ele a olhasse de maneira diferente e não se identificou, estava com o coração apertado, mas contente e passeava entre os pacientes. Todos queriam voltar para a casa e para a sua família. Teresa olhou para a cama onde estava Álvaro, notou que o mesmo refletia, ele não tinha família para voltar, estava sozinho. De repente num ímpeto e sem controle chegou aos seus ouvidos o som de violões dando acordeons para música que mais gostava e sabia que Álvaro a reconheceria, então começou a cantar.
.... “Abençoa Senhor as famílias, Amém, Abençoa Senhor a minha também......... Um silêncio, todos os pacientes ficaram encantados com aquela bela voz, e Álvaro que ainda viajava em seus pensamentos, ouviu a música e a reconheceu, sentou-se, e percebeu que por baixo daquele hábito estava a noviça Teresa que veio o visitar. Ele sorriu e ela aproximou-se cantando, só então ele percebeu que ela estava se preparando para ser freira. Durante a visita os dois conversaram e ela se prontificou a visitá-lo mais vezes, apesar de que já sabia que na próxima semana ele teria alta da internação e logo o receberiam nas missas de domingo. Ao retornar foi abordada pelo Padre Edmilson, que a vendo vestida daquela forma se preocupou e praticamente a convocou para uma confissão. Num lugar sagrado, questionou a jovem noviça que estava um tanto confusa, porém o padre com sua experiência, alegria e força, que atraia jovens e idosos conseguiu deixá-la a vontade, e ajoelhada, dizia ao padre que não sabia o que estava acontecendo com ela, pois desde que nasceu tinha como objetivo servir a Deus, tinha vontade em ser freira. Até que um dia entrou pela porta da igreja um homem, que ela não sabe explicar porquê, mas seu corpo sentia calor e frio, seu coração batia descompassadamente, sabia que ele era muito mais velho do que ela, mas de certa forma ele a deixou confusa. O padre entendendo seu drama conseguiu mostrar que para conseguirmos nossos objetivos às vezes, Deus coloca em nossos caminhos alguns obstáculos, praticamente intransponíveis para ver se realmente temos condições de sobrepor a eles. Recomendou que fosse até o altar e nos pés do Cristo Crucificado rezasse e meditasse e que pedisse a ele que desse forças para que ela pudesse enfrentar esta situação. Teresa ajoelhada em frente ao Cristo, rezou pediu ajuda e olhando nos olhos tristes de Jesus Cristo, colocou em suas mãos o destino de sua vida, tinha certeza que com sua ajuda ela tomaria a decisão a que estava predestinada, com olhos cheios de lágrimas tirou uma rosa do vaso que enfeitava o altar e ofereceu a Jesus, encaixou entre seus dedos num ato de fé e de agradecimento e retirou-se. Durvalina que acabara de chegar na igreja para os retoques finais da noite, ajoelhou-se aos pés da imagem e relatou todo o seu drama, contou sua história e pediu ajuda a Deus, pois tinha encontrado um homem, que por alguma razão havia mexido tanto com ela. Pediu que o curasse, pois somente assim ele poderia descobrir que ela estava apaixonada e que poderia também ajudá-lo a se recuperar. Suplicou que ajudasse a tocar o coração de Álvaro, despertando-o para o amor, e que ele a visse como mulher. E num ato de fé e de compromisso, se tudo acontecesse como ela esperava propunha-se a ser uma companheira digna no amor em Cristo, retirou do vaso uma rosa, colocando entre os dedos da imagem ao lado de uma outra que já estava ali, e pediu para que Ele atendesse o seu pedido, assim como certamente teria feito a outro fiel que ali estivera pedindo sua ajuda.

Na manhã seguinte, o Padre Edmilson, que mal conseguira dormir preocupado com um provável envolvimento da noviça com um homem mais velho e doente, ajoelhou-se no altar e em suas preces matinais, pediu por sua intercessão, que guiasse o destino de suas assistentes Teresa e Durvalina, somente com a ajuda Dele não haveria sofrimento e desilusão, pois ambas eram devotas, caridosas, trabalhadeiras, preocupadas com a comunidade, e não mereciam sofrer. Pediu ajuda, que Deus iluminasse as suas palavras para que pudesse transmitir a elas em suas homilias dominicais o caminho a seguir, mas sabia que só poderia fazê-lo com a ajuda Dele. E num ato para simbolizar a sua esperança retirou uma rosa do vaso, e ofereceu a Jesus colocando entre seus dedos ao lado de outras duas para que atendesse o seu pedido como havia atendido com certeza, a aquelas duas pessoas que ali estiveram. Na missa de domingo o Padre Edmilson falou da família, comentou sobre os deveres e objetivos, dos compromissos com Deus, com a necessidade de se compartilhar a sua vida com o outro. Durante a missa, o lugar onde Álvaro sentava estava vazio. Nos cantos Teresa iniciou a música da família, e olhando para o fundo da igreja viu a imagem de Álvaro entrando, em seu consciente sabia que não era real, apesar de um pouco mais magro, demonstrava que sua doença não o tinha abalado tanto, cantava tranqüila, acreditava ser uma visão, viu quando ele se aproximou e sentou-se em seu lugar, cantava olhando para ele. Durvalina, o padre, a igreja, observaram aquele momento, e assim que terminou a música ela virou-se como se nada tivesse acontecido, pois tinha a certeza que Álvaro ainda estava internado. Ao virar-se novamente para o banco percebeu que ele estava sentado, e não era apenas uma miragem, ficou contente e emocionada, por ele ter melhorado. Ao final da cerimônia ele recebeu abraços e apoio de todos. O padre falou ao microfone da alegria em tê-lo ali novamente, Durvalina não saia do seu lado, e aproveitou a multidão que o rodeava e colocou-se a disposição para ajudá-lo. Conhecia receitas caseiras, chás, e alimentos para a recuperação de problemas pulmonares. Álvaro percebendo o carinho de todos e principalmente de Durvalina, aceitou e a acompanhou até a sua casa. Teresa estava nas escadarias da igreja e viu Durvalina apoiada nos braços de Álvaro, e desfilava pelas ruas do bairro em direção a sua casa. Passaram algumas semanas, e todos os domingos na missa, notava-se que Durvalina e Álvaro estavam cada vez mais próximos, com a mudança de temperatura, Álvaro fora internado por mais duas vezes, ainda não conseguira parar de fumar, apesar de sempre se comprometer em largar o vício. Durvalina insistente e cumprindo o que havia prometido, deu todo seu apoio para sua recuperação, participava de terapias e tratamentos e assim que Álvaro demonstrou certa melhora, a comunidade foi surpreendida com o anúncio do casamento deles. Álvaro homem eloqüente, pegou o microfone, agradeceu a Deus e aquela comunidade, relembrou sua vida, comentou sobre o sucesso profissional, e o fracasso pessoal, pois nunca se preocupou com sua saúde, com a família ou mesmo espiritualmente, e que em pouco tempo presente naquele lugar, teve o carinho que nunca tivera antes, mesmo sendo um desconhecido tivera apoio e a compreensão da comunidade.
Apaixonava-se pela primeira vez, e Deus colocara em seu caminho Durvalina, que seria sua esposa e juntos viajariam para a Europa para fazer um tratamento específico. Naquele momento Teresa percebeu a mão de Deus, ela tinha que seguir seu caminho no sacerdócio, e apesar de triste queria o bem estar de Álvaro, e com certeza D. Durvalina o faria feliz, e vendo-o feliz estaria bem. Depois de alguns anos, na missa realizada em dezembro de 2001 a igreja estava lotada, Teresa ordenada freira comandava o canto com seus alunos e noviças, tinha o comando da organização e da celebração, ajudava o Padre Edmilson a realizar a missa. Naquele dia puderam notar uma certa tristeza na voz do padre, porém não deixou que nada transparecesse. Ao final da missa pediu um instante de atenção, deu recados e avisos, a convidou a todos para os eventos de final de ano, e emocionado com lágrimas nos olhos comunicou que a missa realizada naquele dia, fora em intenção a alma de um fiel que em alguns anos atrás adentrou aquela porta e mexeu com aquela comunidade, roubando o coração de uma assistente tão valorosa, mas quis o destino que cobrando muito alto por um vício quase impossível de se largar, e levou prematuramente a morte. Álvaro que conheceu a família, a união, a confraternização e o verdadeiro amor a Deus por tão pouco tempo.

 

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