A NADADORA
(PSEUDÔNIMO: NECO)
A economia do Brasil estava difícil. A pouca produtividade era conseqüência dos baixos salários oferecidos aos trabalhadores, além da grande carga de trabalho. Por outro lado os empresários contornavam crises diariamente, administravam problemas aqui e em outros países do mundo. Todas estas crises abalavam o faturamento. Os impostos eram implacáveis, porém os empresários tinham como missão superar tudo e a todos.
Para isso necessitavam criar e inovar para motivarem-se. Neste cenário encontrava-se a Planet, uma empresa de pólo industrial de São Paulo que passava por dificuldades. Desenvolveu um programa que tinha como objetivo a participação dos funcionários, com idéias e sugestões para baixar os custos e aumentar a produtividade. Foram acolhidas centenas de sugestões, porém uma delas se destacou e após uma grande análise foi prontamente adotada. A criação de uma área de lazer e esportes dentro da empresa onde todos os funcionários teriam acesso e condições de participarem de exercícios físicos antes de iniciarem o expediente, e treinamento em diversas modalidades para elaboração de equipes que futuramente participariam de campeonatos.
Logo se observou que o grau de produtividade dos funcionários atingiu a melhor marca de toda a história da empresa. Os acidentes de trabalho por muitos meses atingiram o índice zero e a concentração dos funcionários era tão evidente, que passaram a ter participação nos lucros. Com orientação de profissionais da área, o projeto foi sendo aprimorado e equipes internas com várias modalidades foram sendo montadas. E para a surpresa de todos, vários atletas amadores surgiram.
Devido ao sucesso deste programa, a Planet foi premiada e apresentou este projeto para a FIESP. Outras empresas daquele centro empresarial interessaram-se no assunto e implantaram a idéia. Foram elaboradas outras equipes e a disputa de campeonatos entre as empresas passou a ser uma realidade. Por ter sido a pioneira, a Planet, administrada por Sérgio, sempre preocupado com o bem estar de seus funcionários e com o bom desempenho de cada um, passou a investir cada vez mais em suas equipes.
O futebol de salão ganhou o campeonato nos últimos três anos. O vôlei masculino também com ótimos resultados, entre outros destaques em outras modalidades. Porém o que mais encantava Sérgio era a equipe de natação feminina, a qual tinha como destaque Carol. Uma bela jovem, corpo atlético, federada, e que tinha arrematado todos os prêmios de natação em piscina olímpica em várias modalidades por alguns anos, participando mensalmente pela empresa, trimestralmente com outras empresas estaduais, e semestralmente pelo campeonato promovido pela federação brasileira da indústria com a participação de funcionários de todo país. Carol era imbatível e invicta nos campeonatos.
Neste período destacou-se como atleta e por conseqüência enalteceu o nome da empresa, tornando-a conhecida e bem conceituada. Sua família era humilde e de bons princípios. Havia certa preocupação por parte de sua mãe, que sempre a orientava, alertando-a sobre o assédio por homens aproveitadores, pois Carol era bonita e atraente. Percebia que após cada conquista em campeonatos, Carol era convidada por Sérgio para almoços e jantares em comemoração, além de viagens para novas competições em lugares paradisíacos.
Tais encontros ocasionaram uma paixão entre ambos, que mantiveram este romance por alguns anos. Porém, Sérgio além de casado, possuía outros romances e somente a valorizava como atleta.
A crise financeira da Planet era em virtude da falência de seus principais clientes. Para redirecioná-la Sérgio teve que efetuar algumas demissões. Entre os dispensados estava Carol, apesar de ser reconhecida como campeã e por seu posto, tornou-se prudente sua saída da empresa para evitar um escândalo futuro, uma vez que o envolvimento de ambos já era de conhecimento público, além de que, novas atletas já estavam se destacando em sua modalidade.
A principio não era intenção de Sérgio terminar o romance, mas obviamente este ato abalou o relacionamento. As outras empresas que participavam dos campeonatos, assim que souberam de sua demissão, apressaram-se em contratá-la, pois sempre perdiam os campeonatos para a Planet na natação. Carol escolheu uma delas e fechou contrato com exclusividade para participar dos campeonatos. Inclusive estava sendo observada pela equipe olímpica brasileira para testes de seleção. Para surpresa de todos e principalmente dela, logo após os primeiros meses de trabalho na nova empresa soube que estava grávida.
O relacionamento com Sérgio já estava completamente frio. Carol decidiu assumir sozinha esta gravidez e nem mesmo o informou sobre seu estado. A gravidez fora complicada. Tinha constantemente fortes dores nas pernas, chegou até a ser internada. Apesar desta condição arrematou os três campeonatos mensais e um estadual, após sua contratação. Orientada por médicos deixou de participar das competições e aguardou o nascimento da criança. O diagnóstico apresentado pelos médicos mostrava um quadro complicado, uma doença perigosa desencadeou um distúrbio no sistema nervoso. Carol teria que ser acompanhada por médicos e a viver a base de medicamentos por tempo indeterminado.
Nasceu a pequena Flávia. Apesar das dificuldades Carol terminou seus estudos e tornou-se uma das melhores executivas da empresa. Priorizou o envolvimento dos funcionários com o esporte e lazer. Teve a iniciativa de criar uma área reservada para os filhos de funcionários estudarem e praticarem esportes. Flávia com cinco anos já participava de pequenos campeonatos mirins de natação da empresa.
Certa ocasião, a professora de Flávia, juntamente com sua equipe, visitou a sala de exposições do pólo industrial onde havia os troféus e medalhas de todos os funcionários das empresas que participaram dos campeonatos dos últimos 10 anos.
Flávia notou que no centro da sala havia um lugar reservado para a natação, com exposição de várias fotos e um busto de bronze com o nome de sua mãe, e também aproximadamente 50 troféus pelas conquistas de várias competições, onde homenageavam uma das maiores campeãs amadoras de natação. Emocionada, sem conter suas lágrimas chamou a professora e suas amiguinhas e pulando de alegria dizia:
- É minha mãe. Esta campeã é minha mãe.
E, a partir deste instante, não deu mais sossego á Carol. Flávia não conhecia o passado glorioso de sua mãe. Não entendia porque ela tinha deixado de competir, já que era a melhor atleta que já tiveram.
Carol tentou explicar os motivos e suas dificuldades para a pequena Flávia. Mas, para a menina, o que ficava claro é que sua mãe só pensava em trabalhar e não queria mais nadar. A cada campeonato mensal que terminava Flávia chorava e brigava com Carol por não ter participado. Pois sempre avisava a todos que sua mãe iria participar e decepcionada não tinha a oportunidade de vê-la competir. Para amenizar as coisas Carol passou a dizer que o seu chefe, presidente da empresa, não permitia que sua principal executiva voltasse á competir.
Flávia estava inconformada, tinha tanto orgulho de sua mãe, mas não conseguia com que ela participasse novamente. Na escolinha começou a aprender a escrever algumas linhas, com ajuda e orientação de sua professora iniciou uma série de cartinhas endereçadas ao “Querido chefe”, outras ao “ Chefinho”, sempre com mensagem para tocar seu coração, pedindo que deixasse sua mãe participar dos campeonatos. Colocava as cartinhas na caixa de correspondência do escritório central, que eram retiradas pelo porteiro que as entregava ao Sr.Roberto, o Chefe. Ele ficava muito emocionado ao ler as cartinhas, sabia do sofrimento de Carol e sofria também com este dilema, de forma que assumiu esta responsabilidade, pois não queria um desgaste ainda maior entre mãe e filha.
O final do ano se aproximava e sem êxito, a pequena Flávia inocentemente chantageou sua mãe. Queria de presente de Natal vê-la participando pelo menos da última competição do ano, marcada para o dia 24 de dezembro. Este pedido sensibilizou Carol, que comentando com seu chefe recebeu dele um apoio inesperado, mesmo sabendo que ela não tinha condições físicas para competir, dissera-lhe que também gostaria de ganhar este presente de Natal e que seria a grande oportunidade de reviverem os momentos de glória do passado.
Carol, não conseguindo negar este pedido de sua filha, iniciou alguns treinos, na verdade poucos por excesso de trabalho. Faria sua vontade, mas se preocupava com o resultado, sabia que não teria condições de ganhar e temia decepcioná-la.
Finalmente o tão esperado dia da competição chegou. As arquibancadas à volta da piscina estavam lotadas. Flávia não se continha de tanta alegria. As circulares internas entre as empresas noticiaram que Carol estaria participando desta vez. A notícia se espalhou, antigos fãs, aposentados e até funcionários inativos, não perderiam a oportunidade de ver Carol nadar novamente. Flávia durante semanas se encarregou de agitar a escolinha, chamando os coleginhas, vizinhos e amigos, para ver a maior campeã de natação dos últimos tempos, sua mãe.
Ao chegar no ginásio acompanhada de sua professora, Flávia viu Carol uniformizada com o agasalho da empresa. Carol pegou-a no colo abraçaram-se, Flávia beijou-a e logo perguntou:
-Onde está o chefe?
- Ele está ali.
- Onde?
- Lá em cima. Aquele de paletó e gravata listrada de preto e vermelho.
Novamente deu-lhe um beijo e pediu para descer do colo. Apesar das dificuldades subiu os imensos degraus até chegar aos pés daquele enorme homem, que envolvido pelos festejos e muito barulho, não percebeu que Flávia lhe chamava.
-Chefe, Oh! Chefe.
Ele só percebeu quando sentiu pequenos puxões na barra de sua calça. Ao olhar para ela, notou que alguém muito importante queria lhe falar, então a pegou no colo e ouviu o que Flávia tinha a dizer.
- Eu vim agradecer por você ter deixado minha mãe voltar a competir. Obrigado.
Emocionada e com os olhos lacrimejantes deu-lhe um beijo no rosto e pediu que a colocasse no chão, pois tinha que ajudar sua mãe a vencer. Todos observavam os gestos e a ansiedade de Flávia. A caminhada de volta ás margens da piscina fora algo inesquecível. Os torcedores foram abrindo passagem para Flávia que lutava para cumprir mais um dos seus objetivos. Enquanto se aproximava da piscina, todos já estavam em pé e viram quando Carol com seu maiô preto e vermelho em homenagem a sua empresa preparava-se para a arremetida final. Fora abraçada pelas concorrentes com idade entre 15 e 20 anos. As dores nas pernas não permitiam um bom equilíbrio, porém superou com auto-estima e olhava nos olhos de Flávia que já estava ao lado da piscina gritando:
- Mamãe, você vai ganhar.
Carol sentia suas pernas trêmulas. O som dos aplausos e gritos e todos chamando por seu nome a deixavam ainda mais nervosa. Carol tinha plena consciência que apesar de seus 25 anos de idade, competiria com atletas mais novas e melhores preparadas. O único fato que justificava sua presença ali era o pedido de Flávia e a realização de seu sonho.
A campainha tocou. Curvaram-se. Respiração forte e profunda. Ouviu-se o disparo do tiro de largada. Todas mergulharam. Doze nadadoras. A sua raia era 11º , próxima da margem da piscina onde Flávia iniciou uma corrida desesperada contra o tempo, acompanhava Carol que nadava com esforço e gritava:
- Mamãe você está ganhando. Ninguém está à sua frente, vamos mamãe, você é forte, você é campeã. Eu te amo mamãe. Vamos, você vai ganhar.
Em sua inocência, Flávia não conseguia enxergar as outras concorrentes, para ela era como se Carol nadasse sozinha, tinha certeza de sua vitória, afinal ela era a imbatível campeã.
Carol precisava completar os 100 metros. A cada braçada, quando colocava a cabeça para fora da água, ouvia os gritos de apoio. De repente, não conseguiu ouvir mais nada, apesar de olhar rapidamente para a arquibancada notava os aplausos e a torcida á seu favor, porém não conseguia ouvi-los. Suas pernas pesavam e não permitiam mais que continuasse. A dor era insuportável. Antes da virada dos 50 metros, pensava em desistir. Mas ao se aproximar viu a alegria, o sorriso, e os gritos de Flávia, motivando-a a superar.
-Vamos mamãe. Bata o pé. Vire você está ganhando. Você é a maior. Você é campeã.
Neste momento todas as outras já tinham chegado. A platéia em pé acompanhava os últimos 25 metros. Suas forças estavam se esgotando. Todos num verdadeiro coro gritavam e torciam por ela, motivados pela pequena Flávia, que incansável dizia:
-Vamos mamãe você vai vencer. Você será campeã outra vez. Não tem ninguém na sua frente mamãe.
As concorrentes correram ao lado de Flávia e juntas engrossaram o coro do ginásio, que aplaudiam e davam palavras de ordem:
-Vamos, vamos Carol, você vai vencer, faltam só 25 metros.
No entanto, apesar de tudo, suas pernas já não obedeciam, porém com muito empenho continuava a nadar. Faltavam poucos metros. Com olhos cheios de lágrimas, olhou para a pequena Flávia que corria de um lado para outro e conseguiu enxergar em seu olhar inocente o quanto era importante para a menina estar ali naquele momento participando daquele campeonato. Flávia chamava por Carol, sempre um pouco á sua frente.
-Vem mamãe estou te esperando, falta pouco. Vem mamãe você vai vencer.
Naquele momento suas forças se renovaram. Carol encheu os pulmões de ar e deu as últimas braçadas, faltavam apenas 50 metros, olhou para frente viu Flávia ajoelhada, seu corpinho debruçado na beira da piscina batendo suas mãozinhas na água chamando por ela.
- Mamãe, estou te esperando na linha de chegada! Estou aqui para recebê-la.
Só Deus poderia explicar. Neste momento seu corpo não sentia mais nenhuma dor, seus movimentos eram leves e suaves, nadava como nunca. Foram os 12 metros mais fascinantes que uma nadadora poderia percorrer. Sentia-se como se tivesse 18 anos, como se o mundo estivesse á seus pés. Recordou os momentos em que deixava suas concorrentes para trás e nadou como uma verdadeira campeã. Bateu sua mão completando os 100 metros. Puxou Flávia pelas mãos, abraçou-a, apertando em seu peito. As duas mergulharam e voltaram abraçadas, Flávia sorrindo disse:
- Mamãe eu sabia. Você é a maior campeã. E é minha mãe.
A platéia chorava de emoção e aplaudiam as duas, participavam da alegria de Carol, que mesmo chegando 2 minutos e 30 segundos depois da última colocada, recebeu todas as homenagens. Mas para Carol, a verdadeira vitória e o real troféu estavam ao seu lado e não largaria por nenhum instante. Sua amada filha, Flávia.
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