A ÚLTIMA ESTAÇÃO
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Osvaldo foi promovido devendo apresentar-se pela na manhã seguinte na principal filial da empresa em que trabalhava situada no interior do estado. Animado com sua ascensão, apressou sua esposa e seus dois filhos para seguirem viagem, pois conheceriam a cidade onde iriam morar.
Durante o trajeto todos ficaram tensos e apreensivos. Sua esposa constantemente o alertava sobre os perigos da estrada e as crianças pediam para que ele não corresse tanto. Osvaldo ignorando as manifestações dirigia em alta velocidade, ultrapassando e disputando espaço com outros automóveis. Não respeitava a sinalização. Chuviscava e a pista estava escorregadia. Viajaram durante horas. Osvaldo começou a sentir um pequeno mal estar e o carro também demonstrava alguma falha, pois saia fumaça pelo capô.
Uma placa indicava uma cidadezinha a poucos quilômetros dali. Adentrou pela avenida principal cantando pneus. Alguns moradores que estavam sentados na escadaria da igreja e outros na praça se aproximaram quando parou. Calorosamente o barbeiro Sr.Tonico se achegou cumprimentando-o. Osvaldo saiu do carro perguntando onde encontraria um mecânico. Sr José aproximou-se, apresentou-se e pediu para abrir o capô, examinando disse:
- É! O problema é grave, mas pode ficar tranqüilo, amanhã tudo estará resolvido.
Osvaldo tentou argumentar dizendo que não poderia esperar, pois tinha hora para se apresentar na empresa que estava a muitos quilômetros dali.
– Não tem jeito não! Já é quase noite e não teremos tempo para consertar o carro.
Algumas pessoas da cidade que estavam por perto logo se prontificaram em acomodá-los, pois ali não havia hotel. Dona Maroca e Dona Nicinha levaram sua esposa e as crianças para as suas casas. Osvaldo acompanhou Sr. Tonico, e passaram num bar da cidade onde encontraram alguns amigos. Entre uma cerveja e outra Osvaldo pode ouvir um apito que lembrava o som da antiga Maria Fumaça, Fôôômmmmm...........Fôôômmmmmm....... Questionou se ainda havia máquinas a vapor circulando aquela região. Sr. José respondeu-lhe com o cigarro no canto da boca:
- Há muito tempo este trem passa pela cidade e para alegria de todos nós é possível ouvir seu apito.
Em seguida o sino da igreja soou melancolicamente. Blêêêmmm..........Blêêêmmm ........Blêêêmmm........... Osvaldo imaginou que estava para começar a missa, mas viu que a igreja estava fechada. Tonico observando sua curiosidade informou-lhe: - Sempre que sino toca desta forma e que alguém por perto faleceu. Minutos depois escutou novamente o apito do trem que ecoava por toda cidade. Não era possível vê-lo, pois as montanhas o encobriam. Na seqüência ouviu o som do sino.Osvaldo arrepiou-se, fazendo o sinal da cruz, questionou se se tratava de outra morte. Sr Lucas o dono do bar, balançou a cabeça afirmativamente e ofereceu sua casa para repousar. Cansado aceitou o convite e recolheu-se.
Ao deitar-se ouviu o apito do trem pela terceira vez, antes que adormecesse escutou o sino tocar, sentiu um frio na espinha. Pensava “Meu Deus como morre gente nesta cidade”! E apesar de intrigado, conseguiu dormir. Ao amanhecer procurou por sua família. Encontrou o mecânico que se aproximou dizendo:
- A sua família estava curiosa em conhecer o trem, aproveitaram que você ainda dormia e foram vê-lo.
Osvaldo pegou o carro que já estava pronto, e seguindo as placas pelas ruas sem asfalto chegou a uma velha estação. Havia ali uma Maria Fumaça que estava parada. Tinha muitos vagões enfileirados, tantos que não era possível ver o final deles nas curvas das montanhas. Desceu do carro e enquanto caminhava em direção a máquina, o trem começou a andar. Correu e entrou por uma das portas que estava aberta. Neste momento, ouviu o apito novamente. O vagão estava lotado. Ficou surpreso quando viu todas as pessoas da cidade, entre eles as que conheceram, Dona Maroca, Dona Nicinha, Sr. Tonico e Sr.Lucas. O maquinista era o mecânico, Sr. José, que neste momento tocava a buzina do trem.
Osvaldo caminhava entre eles e viu sua família sentada no último banco. Abraçou-os e dirigiu-se ao maquinista pedindo que parasse, pois precisavam descer para prosseguir viagem. Sr José, olhava-o serenamente e pediu que escutasse. O sino da igreja tocava pela quarta vez. E pausadamente disse-lhe:
- Neste trem ninguém desce, apenas sobem. Você provocou um gravíssimo acidente na estrada, onde todos ficaram seriamente feridos. Foram socorridos, mas não resistiram. Aos poucos um a um foram se unindo a nós. Só estávamos aguardando por você para continuar nossa trajetória. Daqui você terá que ver a vida passar calmamente, pois terá a eternidade para observar as belas paisagens da natureza através das janelas do trem e refletir sobre as atitudes que o levaram a estar aqui.
Osvaldo desesperou-se e olhava sua família como quem pedia perdão por suas imprudências.
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