CAMINHOS OPOSTOS
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Na década de 80 nossa turma da escola se reunia num barzinho para comemorar os aniversariantes do mês, bater papo, e falar dos amigos. Paquerávamos e até rolavam alguns beijinhos. Bia era a mais velha, Ana sempre reclamando da vida, Edú o mais bonito e mais alegre dos rapazes. Rui era feio, quieto e sisudo, mas tinha um bom coração, era incapaz de ofender alguém, sempre muito prestativo e gostava de se manter na companhia dos colegas. Tinha um pequeno defeito físico na face que deformava seu rosto deixando-o ainda mais feio, por isso era alvo fácil das gozações, mas não se incomodava, sabia não ser atraente, mas era carismático e tinha empatia com todos. Filho de D.Suzi separada do marido desde que o ele nasceu. Casou-se novamente com um homem muito cruel que á espancava e judiava de Rui. O clima em sua casa era desgastante e somente as reuniões com nossa turma proporcionava-lhe momentos mais felizes. Apesar de que algumas brincadeiras o aborrecia quando insinuávamos que ele era apaixonado Cris a mais bela do grupo que namorava Edú, e divertia-se ao dizer que iria contar á seu padrasto. Rui ficava desesperado, tentava de todas as formas desmentir e pedia que Edú não comentasse sobre esse assunto, pois ele e sua mãe sofreriam as conseqüências. O tempo passou, e continuamos nos reunindo para comemorar qualquer coisa, trocamos os refrigerantes por bebidas alcoólicas, ainda éramos todos menores de idade, mas o proprietário do barzinho fazia vistas grossas. O namoro de Cris e Edú estava consolidado. Eram os mais bonitos do colégio, parecia um casal perfeito, era bonito vê-los namorar. Edú líder da turma organizava festas e passeios em finais de semana sempre regados com bebida e muita música. Rui era o único que não participava da bebedeira, tomava somente refrigerante e mesmo sobre a coação de todos nunca provou. No final do ano letivo a turma se dividiu, prestamos vestibular e a partir daí cada um seguiu sua carreira. Cris estudava direito, Edú engenharia civil, Caio medicina, Ana biologia, Rui sem muitas condições financeiras, aproveitou a maioridade, conseguiu uma vaga para trabalhar em Miame onde durante 10 anos prestou diversos serviços. Juntou todo dinheiro que pode, quando retornou ao Brasil comprou uma casa para sua mãe e montou seu próprio negócio, adquiriu o barzinho que freqüentávamos que já havia fechado há muito tempo, com o intuito de reunir novamente os colegas. No dia da inauguração todos da turma entre outros estudantes da época estavam presentes. Parabenizávamos por vê-lo bem sucedido e pelo local que ficara ainda mais aconchegante. Rui sentia-se feliz por revê-los, quando chega o casal mais esperado. Estavam casados. Cris lindíssima e mais madura, Edú abatido, barba por fazer, fumando, camisa para fora da calça como sinal de desmazelo e com uma voz pausada como se tivesse bebido muito. Rui estranhou o comportamento e soube que ele tornara-se um alcoólatra, já havia perdido vários empregos bons, sempre culpando seus patrões que não o reconhecia como um bom engenheiro. Inclusive uma de suas obras estava sobre investigação por erros primários. Após a festa de reencontro, fomos embora. Edú bebeu como nunca, e adormeceu sobre uma mesa. Cris tentava disfarçar o vexame e despedia-se dos amigos. Rui observando seu constrangimento levou-os para casa, pois Cris após um acidente de carro provocado pela bebedeira de Edú ficou traumatizada e nunca mais guiou. Edú passou a freqüentar o barzinho todas as noites e sempre era preciso levá-lo para casa. Continuava ridicularizando o amigo como fazia quando jovem ressaltando o defeito físico de Rui. Certa noite, novamente reunidos, Cris quis ir embora, e Edú insistiu em ficar, então pediu que Rui a levasse em casa. Rui continuava apaixonado por ela, apesar de sempre manter respeito aceitou a incumbência e a assim a levou. Cris agradecida convidou-o a entrar e entre um assunto e outro Rui declarou-se apaixonado. Cris, a principio ficou indignada com tamanha pretensão do amigo, mas acabou notando sua sinceridade e a beleza de seu interior. Ela tinha que apresentar um trabalho num seminário em Campos do Jordão. Edú não queria acompanhá-la, alegando que além de ser á trabalho teria que ficar naquele lugar frio por uma semana. Não teve dúvidas e pediu que Rui á acompanhasse. Esta proposta provocou comentário entre todos que estavam reunidos. Rui recusou. Edú com voz firme dizia que confiava nele, mesmo porquê sua esposa sendo tão bonita, inteligente e culta, jamais mais se envolveria um homem tão feito quanto ele. Rui mais uma vez chateou-se com Edú e resolveu aceitar, sabia que Cris não o merecia, e que já o tratava com indiferença. Percebeu que ela passou a ter por ele maior simpatia. Aquela semana fora de sucesso, Cris destacou-se na apresentação de seu magnífico trabalho, e envolvidos a tanta alegria passaram maravilhosas noites de amor ao calor de uma paixão e uma lareira. E apaixonados voltaram assumindo perante á todos o romance. Edú apesar de revoltado tentava justificar seus atos e a conseqüência deles, e teve mais esta derrota em sua vida por conta de um vício.
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