CONFLITOS E PAIXÕES

(PSEUDÔNIMO: NECO)

Vivíamos num pequeno vilarejo em Coimbra. Meu pai homem muito rico, de família tradicional, gerenciava os negócios com mãos de ferro. Nós o respeitávamos, na verdade, tínhamos medo dele. Quando completei 18 anos prometeu-me á um rapaz, filho de um fazendeiro local que nem mesmo conhecia. Eu namorava ás escondidas Gabriel, filho de moradores da cidade, sem muitas posses. Ele estudava artes cênicas e participava de peças de teatro por toda cidade. Nesta época, ser ator significava ter uma profissão desvalorizada e descriminada, meu pai então nem podia imaginar estar eu envolvida com um desses homens que pensava viver do teatro. Vivíamos uma turbulência na Europa, Hitler ameaçava invadir todo o continente europeu. A economia mundial estava em crise, não tínhamos liberdade e constantemente precisávamos nos proteger dos conflitos internos.
Certo dia, aproveitando uma dessas confusões, fui ao encontro de Gabriel. Meu pai preocupado com minha ausência percorreu toda a cidade á minha procura e encontrou-me em seus braços. Decepcionado e esbravejando, arrastou-me para o carro, não acreditando que sua filha estivesse envolvida com uma das mais baixas ralés da sociedade. Gabriel tentou conversar e foi totalmente ignorado, como se ele nem estivesse presente. Meu pai levou-me para casa onde fiquei dias e dias de castigo. A crise mundial aumentou, Portugal não ficou excluído das complicações da guerra. Gabriel sem emprego resolveu partir para o Brasil e tentar exercer a sua profissão numa terra que tínhamos informações de que podíamos ficar ricos em pouco tempo. Lá havia trabalho, respeito e não havia guerra. Decidi partir com ele, aproveitando um descuido de meu pai comprei minha passagem e numa noite de 1939 partimos para o Brasil com uma mão na frente e outra atrás. Eu era muito bonita, chamava atenção de muitos homens, era morena, pele clara, com faces rosadas, olhos azuis, e senhora de um belo corpo. Meu pai, em homenagem a minha avó, deu-me o nome de Alessandra. Durante a viagem, Gabriel tentava de todos os meios proteger-me, mas os galanteios e comentários deixavam-me envaidecida, embora não lhes desse nenhum valor, pois eu amava Gabriel. Ajudei-o durante a viagem a encenar todas as noites, as peças que ele tão bem tinha atuado. Era a única diversão no navio. Havia vários empresários a bordo e ao chegarmos no Porto de Santos, ele já estava contratado para participar de um grupo teatral da cidade. Ficamos muito contentes, pois nem bem chegamos ao Brasil, já estava empregado. Quando meu pai soube de minha partida ficou desesperado, possuía apenas dois filhos, meu irmão era o mais novo e estava sendo preparado para assumir os negócios da família, porém, havia fortes indícios com relação a sua sexualidade que parecia indefinida, levando meu pai a contar somente comigo para dar continuidade à família. Recebi dele uma carta recriminando minha atitude e deserdando-me, e com sua costumeira arrogância, informou de que me daria algum direito a herança caso eu o premiasse dando-lhe um neto homem. Nesta época era comum a mulher ao casar-se adotar o nome do marido, mas isso não poderia acontecer comigo, como meu pai tinha essa preocupação usou este argumento para que eu pudesse dar continuidade ao nome da família Prado.
Casamos e tivemos duas filhas. Não tive coragem de contar a verdade a meu pai. Gabriel viajava por toda a cidade atuando em várias peças e já era conhecido como um grande ator. Mudamos para S.Paulo. Vivíamos bem, tínhamos uma boa casa e todo conforto. Numa de suas viagens, Gabriel adoeceu. Após vários exames foi diagnosticado Tuberculose, fato que mudou radicalmente nossa vida. Com o perigo do contágio não conseguiu mais atuar. Eu apenas cuidava da casa, e com o agravamento da doença de meu marido o governo internou-o numa clínica no interior de S.Paulo, obrigando-me a procurar um lugar mais adequado para morar, uma vez que, a situação financeira já não era mais a mesma. Tinha que ser um lugar onde ninguém nos conhecesse, pois não podíamos comentar nada sobre nossa vida porque seríamos descriminadas. Eu e minhas filhas fomos morar num cortiço com mais seis famílias. Tínhamos que atender as exigências do proprietário. Para minha tristeza fui obrigada a assinar o contrato de aluguel como viúva, pois se soubessem da tuberculose de Gabriel não nos deixaria locar o imóvel. O proprietário do cortiço morava numa grande casa na frente do terreno. Eu não tinha fonte de renda para manter a família, comecei então a trabalhar em lojinhas com vendas de tecidos, mas não durou muito e tentei outras atividades que também não deram certo. A situação não podia ficar como estava, então com um carrinho de mão vendia verduras pelas ruas do bairro, e o lucro mal dava para pagar o aluguel e alimentar as crianças. Passei momentos difíceis e às vezes não tínhamos o que comer. Faltavam alimentos, apesar do país não estar em guerra, mas havia racionamento de tudo. Por várias vezes me vi na janela de casa, olhando para o céu, chorando e pedindo a Deus que não nos desamparasse, que olhasse por nós e por Gabriel. Continuava desempregada, e com duas crianças pequenas, tudo era mais complicado. Eu ainda era muito bonita e era alvo de assédios de todos os tipos, mas a educação que recebi não permitia que me envolvesse com alguém sabendo que o homem que eu amava estava lutando pela vida para voltar a família e exercer a profissão que ele tanto amava. Durante várias visitas, através de uma janela, Gabriel me dava esperança, pois a medicina estava desenvolvendo drogas para a cura da tuberculose. Gabriel, como ator, até para exercitar sua arte, via naquele momento a oportunidade de representar um papel, e enquanto ninguém queria se arriscar a fazer parte dos testes, ele aceitava este desafio e concordou em ser voluntário como cobaia para o descobrimento de novas fórmulas. Quando eu lá voltava encontrava-o decepcionado, nada havia dado certo, mas ele continuava com muita esperança. Uma nova experiência com outro coquetel de drogas chegava dos EUA, e ele novamente se submetia a participar das experiências na expectativa da cura. Eu sofria e pedia a Deus que mantivesse aquela força de Gabriel e que ele não perdesse a esperança. Quando ia visitá-lo não me arrumava como de costume, pois sabia que ao sair ele ficava angustiado ao perceber os olhos concupiscentes dos médicos e pacientes que sempre me elogiavam. O que partia meu coração era ver quando ele escrevia no vidro embaçado por sua respiração, Alessandra eu te amo. Os médicos por várias vezes o desenganaram. O número de óbitos em casos semelhantes era assustador, e o preconceito com relação à doença era tanto que eu na ânsia de proteger minhas filhas, me fazia passar por viúva. As crianças cresceram achando que o pai havia morrido. Um dia mudou-se para o cortiço um rapaz que veio a trabalho para o ministério do exército, homem bonito e educado, logo nos conhecemos. Ele vendo a minha situação e necessitando que alguém cuidasse de suas roupas e sua comida, convenceu-me a fazer esse serviço em troca do aluguel, o que veio a me dar uma certa tranqüilidade financeira, além do que eu ganhava vendendo verduras nas ruas o que facilitou as visitas mensais a Gabriel no hospital. Numa das últimas vezes, encontrei-o desfalecido, por estar debilitado e muito doente, pouco conseguíamos conversar. Os médicos não entendiam como ele resistia ainda. No leito ele segurou minha mão e contou–me que sonhara estar curado e forte, passeando pelo jardim de um grande parque, abraçado a mim e sendo reconhecido como um dos maiores atores do teatro brasileiro. E num momento de lucidez beijou minha mão e despediu-se. Apesar de tudo, fui informada pelos médicos de que uma nova droga estava sendo testada e estava chegando ao Brasil a fim de ser testada em pacientes terminais. Rezava para que desse tempo que Gabriel utilizasse esse novo medicamento. Desacreditada, pois durante esses seis anos Gabriel só piorava, solicitei que não mais o envenenassem, pois queria que meu marido tivesse uma morte digna. Voltei para a casa e aguardar as notícias. Estava em estado de choque. Leandro, aproveitando meu estado de depressão conseguiu me envolver emocionalmente, acalmava-me, aconselhava-me, motivava-me. Logo uma louca e arrebatadora paixão invadiu nossos corações. Durante todo o tempo da enfermidade de Gabriel, não tive outro homem, porém Leandro conseguiu me conquistar e em pouco tempo estávamos vivendo juntos. Neste período quase não visitei Gabriel. Passados alguns meses engravidei, e recebi informação do hospital que Gabriel tinha passado momentos críticos, mas ainda lutava para viver. Nunca comentei nada com Leandro, ele acreditava que eu era viúva. Decidi visitar Gabriel e tive que mentir para Leandro dizendo-lhe que iria rever uma tia no interior. Ao chegar no hospital encontrei-o moribundo, sentado numa cadeira de rodas, no meio de um grande jardim. Ele estava tomando sol. Caminhei em sua direção e pude ver quando ele arregalou os olhos ao notar a minha barriga que já estava crescida. Aproximei-me dele que sem forças levantou a mão, eu estendi-lhe a minha, achando que ele queria cumprimentar-me, mas não o fez acariciou a minha barriga sem falar nada, olhou lentamente para mim e com a voz trêmula, disse que entendia que uma mulher jovem, bonita, cheia de vida, não poderia esperar um homem desenganado por uma doença que ainda não tinha cura, e que o índice de falecimento era muito grande. Ele estava triste porque sua vida estava no fim, mas feliz, pois quem ele tanto amava estava gerando uma nova vida. Beijou minha mão, girou as rodas da cadeira e entrou para a clínica. Não pude acompanhá-lo..., Não tive forças para tentar explicar o que acontecera. O médico vendo aquela cena abraçou-me e ajudou-me a caminhar até o portão. Disse que estava testando uma nova fórmula, mas que seu organismo não vinha aceitando o tratamento como deveria.
Dois meses depois, nasceu um menino como meu pai queria, para que eu pudesse receber algum dinheiro teria que estar casada, no entanto como não tinha o atestado de óbito, teria que providenciar um. Novamente visitei Gabriel e contei-lhe todo o meu drama. Ele sabendo que suas chances já tinham se esgotado indicou-me um homem que conhecera em Santos para forjar um atestado de óbito, Gabriel pediu-me que não voltasse mais a vê-lo. Por alguns trocados fui ao lugar indicado por meu marido, estava com o coração apertado, porém com o apoio de Gabriel que entendia não poder fazer mais nada para se recuperar. ”Oficialmente” casei-me com Leandro, e demos ao menino o nome de meu pai, João Rodrigues do Prado Neto, o que encheu de orgulho a minha família e assim a tradição estava salva. Recebi a parte que me cabia na herança, comprei a casa do senhorio, passei a ser a proprietária do cortiço, reformei o prédio com apartamentos dignos, entradas independentes e dei uma melhor condição de vida aos moradores. O tempo passou, as crianças cresceram, João com 15 anos viveu uma situação muito melhor do que as meninas.Tínhamos uma boa condição financeira para que elas pudessem escolher qualquer curso ou profissão, mas estranhamente decidiram estudar teatro. Na época, não havia grandes escolas, elas necessitavam de instrutores para enfrentar as concorrentes nas disputas pelas peças disponíveis. Constantemente voltavam para casa decepcionadas. Certo dia chegaram em casa comentando que conheceram um homem que se apresentou como professor de artes cênicas, e que daria aulas específicas para elas disputarem a seleção de uma das maiores peças da temporada em S.Paulo. O prazo era curto, apenas noventa dias para se prepararem e enfrentar as principais concorrentes de todo o Brasil. Eu estava contente, enfim tudo estava dando certo. Neste dia recebi da imobiliária um crédito referente a uma das minhas casas que estava vazia há meses, fora alugada por um homem que pagou três meses antecipados. Este fato facilitou para as meninas pagarem ao professor. A alegria reinava em casa, meu marido estava realizado.
Nos entendíamos muito bem e nunca mais fui visitar Gabriel e nem tive notícias dele, depois de tudo o que acontecera não tive coragem de revê-lo. No dia da seleção, vi o árduo trabalho das moças disputando apenas vinte vagas para compor a equipe teatral, qual foi minha alegria ao ver minhas duas filhas desfilarem pelo palco com desenvoltura, e firmeza. Em certos momentos parecia que flutuavam, eram destaques e sobressaíram de tal forma que foram classificadas. Em alguns momentos durante sua atuação lembraram-me Gabriel, que tinha a mesma performance. Na minha extrema inocência, achei que as meninas tinham herdado o talento do pai, mas fui surpreendida quando as duas ao saberem que tinham sido escolhidas, correram em direção a um homem e o abraçaram, e percebi quando elas o arrastavam pelo braço, aproximaram-se de mim e apresentaram-me Gabriel.
- Mamãe, veja! O responsável por tudo isso, é o nosso professor! Leandro ao meu lado, orgulhoso pelo sucesso das meninas passou a minha frente para cumprimentá-lo. Eu permaneci imóvel, estática, e emocionalmente abalada. Tentei levantar-me, mas as minhas reações não me permitiam. Gabriel estendeu a mão dizendo coisas bonitas sobre elas, dizia estar feliz em ser professor de duas talentosas atrizes. Leandro com os braços sobre os ombros de Gabriel, que ainda segurando minhas mãos olhou-me nos olhos e disse:
- As meninas são tão bonitas como a mãe.
Uma lágrima rolou pelo meu rosto, e sem saber o que dizer, apenas agradeci, por preparar as minhas filhas para aquele momento. Ao retornar para casa contei toda a verdade a Leandro que ficou enciumado e sentiu-se traído. Tentei de todas as formas contornar a situação, pois eu o amava também, apesar de nunca ter tirado Gabriel do meu coração. Logo vi quando as meninas chegaram acompanhadas por ele que entrou pelo corredor e foi para a casa que fora alugada. Somente naquele momento fiquei sabendo que ele era o novo inquilino. Leandro ao perceber o fato achou que tudo aquilo tinha sido combinado, e num ato de desespero pegou as malas e partiu. Fiquei agoniada, pois eu não queria que aquilo tivesse acontecido. Procurei Gabriel para explicar-lhe sobre Leandro, e saber como ele havia se curado. Ele me disse que só sobreviveu, porque encenou o tempo todo. Ali representava um grande papel. E após tantas tentativas e com o desenvolvimento da medicina, sua força de vontade e seu desempenho, conseguiram esse milagre, mas sabendo que ela estava bem e que Leandro cuidava das meninas como se fosse o pai resolveu ficar longe. Acompanhava a luta das meninas, e quando teve a oportunidade de ajudá-las, resolveu aproximar-se, embora não quisesse atrapalhar a minha vida. Leandro retornou, após ter feito uma reflexão. Entendeu que Gabriel também era meu marido, e não poderia dizer nada a ninguém, senão me deixaria numa situação muito difícil, uma vez que as leis da época eram extremamente severas e que poderiam me levar à prisão por ter forjado uma certidão de óbito falsa, adulterar documentos pessoais, e ainda poderia ser incriminada por bigamia. Leandro procurou por Gabriel que confirmou toda a minha história, fazendo com que ele percebesse que minha intenção nunca fora a de enganá-lo. Os dois me amavam. E ao conversarem avaliaram todas as implicações que poderiam acarretar minhas atitudes se viessem à tona, e em comum acordo resolveram deixar tudo como estava até que houvesse uma flexibilidade no regime das leis. Pedi a Leandro que ficasse na casa ao lado. Tive que ser discreta, pois na verdade era casada com os dois. Com o passar do tempo vi minhas filhas terem sucesso, João formou-se em direito. Gabriel e Leandro se tornaram amigos e eu tive a comodidade de tê-los por perto. E assim passamos todos a viver em harmonia.

 

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