DEUS ESCREVE CERTO POR LINHAS TORTAS

(PSEUDÔNIMO: NECO)

Uma das maiores empresas de mineração do estado de Minas Gerais vinha há anos lutando na justiça para reabrir uma mina de ouro desativada a mais de 100 anos. Também havia conflitos com a igreja, que transformou o local em um santuário, onde recebia milhares de romeiros todos os anos. Pessoas que vinham agradecer por terem sido atendidas em seus pedidos. A crença começou por volta de 1900, quando, numa tarde, os mineiros trabalhavam na garimpagem do ouro e foram surpreendidos com um desabamento. Estavam cavando a muitos metros de profundidade e como na época não havia tecnologia para salvamento, perderam-se muitas vidas. As famílias esperançosas acendiam velas, traziam imagens e rezavam durante dias, enquanto uma equipe de voluntários e o corpo de bombeiros tentavam encontrar sobreviventes. Infelizmente, nenhum corpo foi retirado ficando ali sepultados. Durante anos, as famílias se reuniam em volta da mina para rezar e lembrar seus entes queridos. Logo alguns milagres foram creditados aos mineiros mortos. Centenas de pessoas dirigiam-se todos os anos para visitar e agradecer as graças recebidas. A empresa conseguiu uma liminar e colocou seus técnicos para analisar a viabilidade de reabertura. Apesar de muitos pontos duvidosos e questionamentos levantados por eles, foi dado sinal verde, e informaram ás autoridades que a reabertura da mina era viável, mas teriam que derrubar o santuário edificado na entrada da mesma e executar uma terraplanagem que transformaria toda área numa clareira, mudando a paisagem. O padre Roque, homem culto, estudioso da topografia da região era contra as novas escavações. Pregava aos seus fiéis que Deus tinha plantado no coração do povo o desejo de transformar aquele lugar num ponto de encontro da fé e que se mantido intacto, evitariam novos desastres. Era o responsável pela igreja da cidade e tinha como obrigação manter o santuário. Vinha reunindo a população, como também os romeiros, na tentativa de impedir que os empresários dessem início as obras de garimpagem, mas a Justiça deu ganho de causa aos novos proprietários da mina e começou a destruição. Criaram um limite de segurança impedindo que romeiros se aproximassem da mina. A empresa que adquiriu o poder de explorar tinha um contrato onde uma cláusula determinava um prazo de 180 dias para o iniciar a obra. Começaram a requisitar trabalhadores, mas encontraram muitas dificuldades na contratação de homens na região e assim foram contratá-los em outros estados, com a promessa de ganho fácil. Conseguiram arregimentar uma quantidade de homens com experiência, e deram início aos trabalhos. Com máquinas modernas, conseguiram em poucos dias atingir a profundidade onde os mineiros do passado levaram anos para chegar. As dificuldades encontradas eram rapidamente resolvidas devido á influência dos empresários e dos políticos do Estado. O padre Roque que, constantemente, fazia manifestação em frente da mina, recebeu a notícia que estava sendo transferido para uma paróquia em outra localidade. A população se revoltou, fizeram abaixo assinados, mas não conseguiram dissuadir o bispo, e uma grande manifestação foi preparada para sua despedida. O padre condicionou a sua participação se pudesse contar com a presença dos trabalhadores da mina. Após o acordo fechado com os proprietários, na sexta-feira, celebraria a última missa marcada para ás 15:00 horas. Os homens saíram da mina para ouvir as palavras do padre Roque. Os empresários acreditavam que seria a última vez que ele faria este ato, por isso liberaram os trabalhadores para participar. Centenas de pessoas aglomeraram-se em volta do palco improvisado. O Padre Roque emocionado, mas com a voz firme, lembrou dos trabalhadores do passado e de outras minas que foram fechadas por situações semelhantes. Preocupava-se, pois estudos realizados mostravam a fragilidade que se encontravam no subterrâneo daquelas minas, não sendo próprio para exploração de minério, principalmente com máquinas e bombas. Solicitava aos trabalhadores que se reunissem e pedissem maiores sistemas de segurança, pois Deus não queria outros acidentes desperdiçando vidas, e com certeza, os apelos da comunidade tocaram seus corações para que todos pudessem estar aqui ouvindo mais uma vez a palavra do Senhor. Antes que terminasse de se pronunciar um grande estrondo pôde ser ouvido a distância. A terra tremeu e todos correram para a entrada da mina. Quando chegaram, viram que um grande lago tinha se formado. A mina ficara submersa, as máquinas presas lá embaixo. Foi a providência divina, que sepultou de vez a ganância dos empresários, que arriscam a vida de homens inocentes. Naquele dia, todos foram chamados para ouvir o Padre Roque, que trazia palavras de Deus em seu coração. Estavam salvos. Os trabalhadores acompanhados pelos olhares da multidão ajoelharam em frente aquele imenso lago onde ficava o santuário e agradeceram mais um milagre. Pesquisas mais recentes confirmaram que aquela região estava localizada sobre um lençol freático, com águas minerais, e como o tempo já havia provado ali não era uma região propícia para prospecção de minérios.

 

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