DEVER CUMPRIDO

(PSEUDÔNIMO: NECO)

Lílian menina faceira, no auge de seus 15 anos tinha como hoby, cantar, dançar, e divertir-se com as amigas, além de alguns pequenos flertes com jovens da cidade. Estudava no colégio Martin Afonso, prédio antigo do começo do século que passava por dificuldades financeiras. Algumas reuniões foram realizadas com a prefeitura para a reforma do colégio, mas não obtiveram ajuda. A situação complicou-se quando no período das chuvas de verão com os fortes ventos as telhas foram arrancadas e inundou todas as salas do andar superior. Na vistoria realizada por uma comissão de empresários da cidade, encontraram cupins que vinham atacando a estrutura de madeira do prédio, comprometendo a segurança dos alunos. Os jovens não tinham outra opção e arriscavam-se diariamente em classes apertadas com quase 80 alunos, pois várias salas estavam interditadas. O fim do ano letivo aproximava-se, como se nada tivesse acontecido. Lílian inconformada com tamanho descaso das autoridades iniciou pequenas reuniões com amigos abordando o assunto, pois nesta época não se permitia aglomeração ou reunião sem autorização por parte da diretoria do colégio. Os alunos acreditavam que Lílian poderia tentar arregimentar fazendeiros e empresários para um movimento a favor da comunidade, uma vez que liderava um grupo para participar do evento. No dia 04 de setembro, um domingo, houve uma reunião para discutir estratégias e dar rumo ao movimento em prol da reforma e restauração do colégio. Aproximadamente 40 alunos estavam espalhados pelo prédio preparando cartazes e panfletos e uma concentração maior no anfiteatro. No calor das discussões e apontando soluções para o caso. Um barulho enorme se ouviu, o mundo caiu, fumaça, madeiras, telhas, pedras, cimento, em poucos minutos tudo era passado. Um silêncio tomou conta do lugar. A pessoas que passavam não acreditavam no que estavam vendo. De repente perceberam a gravidade da situação, gritarias, desespero, choros, lágrimas.
Naquele momento parecia que o tempo tinha parado.
O corpo de bombeiros das cidades vizinhas foram chamados, porque não tínhamos esse luxo, os jovens iam saindo dos destroços machucados. Vinte, trinta alunos, ambulâncias para todo lado, a imprensa e os jornais transmitiam diretamente do local.
- Quantos alunos sofreram este acidente?
- Pelo amor de Deus! Hoje é domingo! O que eles estariam fazendo aqui?
Diziam os moradores sem avaliar a dimensão do acontecimento. Um aqui, outro ali, mais um, aos poucos iam saindo, quase todos em estado grave. Até então nenhum óbito.
-Mas cadê Luiz? Onde está Lílian, Pedrinho, Silmara? Os estudantes que estavam liderando os trabalhos em prol da escola?

Silmara olha para Lílian e pergunta:
-Que silêncio é esse?
Pedrinho chega com um jornal informando que estudantes em São Paulo tinham conseguido reverter uma situação igual à deles.
- Vejam só! Diz ele, mas, Luiz nem quis saber, estava participando do movimento somente porque estava interessado em Lílian e ficar perto dela valia qualquer sacrifício. Após o levantamento de dados chegaram à conclusão que todos os moradores tinham que participar da reforma do prédio, e necessitavam descobrir os nomes pessoas que de alguma forma tivesse ligações sentimentais com o colégio. Entre a porta que dava acesso á diretoria e o anfiteatro, surgiu uma menina de cabelos claros, aproximadamente com quinze anos de idade que os chamava para acompanha-la. Ela era linda, Silmara disse a Lílian:
- Esses meninos vão dar trabalho, mas quem é ela?
- Nunca a vi aqui na escola.
- Bem, não importa, os outros alunos nos abandonaram, foram todos embora, não os vejo em lugar nenhum, precisamos de ajuda, e ela está nos oferecendo.
Caminharam em direção a menina, Pedrinho antecipou-se e mesmo a distância perguntou seu nome.
- Luciana. Respondeu, estou aqui para acompanhá-los.
Entraram na sala do diretor, e tiveram uma grande surpresa, todas as informações que precisavam estavam ali. Foi possível levantar a história dos 100 anos da escola, verificaram os registros de alguns alunos ilustres, como jornalistas, o prefeito, o padre, quase todos os empresários da cidade, contando ainda com os funcionários públicos e os moradores do bairro. Com o envolvimento de todos esses ex-alunos o projeto para restauração do prédio teria grande chance de alcançar o objetivo. Pesquisando ainda, encontraram na mesa do diretor uma carta de uma construtora com várias informações comprometedoras. Estavam eufóricos por terem encontrado aqueles documentos. Luciana insistia que a acompanhassem até a sala do cofre. Dirigindo-se para o mesmo e sem a necessidade de chaves ou mesmo descobrir o segredo não esboçando nenhum esforço abriu o cofre e retirou um contrato onde em destaque havia uma cláusula de concessão do terreno, autorizando a construção de um shopping, uma vez que o prédio estava localizado em uma área nobre.
Encontraram ainda anotações de um plano que forjariam uma vistoria por uma comissão formada de empresários envolvidos na trama e falsificariam um laudo responsabilizando a idade do imóvel, bem como a destruição das estruturas por cupins. Para apressar a transferência dos alunos para outro lugar, numa ação coordenada, permitiriam também que à noite, pessoas contratadas se infiltrassem como trabalhadores e na verdade estariam danificando estrategicamente a estrutura antiga, para que desabasse num final de semana, sendo que somente era permitido a presença de alunos nos dias úteis. Um engenheiro estaria acompanhando minuciosamente os deslocamentos das vigas mestres, para que não ocorresse nenhum acidente com os alunos, comprometendo-se ainda a usar tecnologia de última geração. Os quatro amigos não acreditavam no que liam.
- Temos que avisar as autoridades. Pegaram o contrato e saíram correndo, mas Luciana não os acompanhou, eles pararam.
- Vamos Luciana, precisamos de você. No entanto não foram atendidos. Luciana abraçou a todos, e sorrindo disse:
- A minha missão terminou. A de vocês está somente começando, não desistam, vocês vão conseguir comunicar esta trama.
Saíram em direção a rua, mas não tinha ninguém, era um silêncio enlouquecedor. A delegacia ficava logo em frente.
- O que será que aconteceu? Perguntou Pedrinho á Luis.
- Hoje é domingo, deve estar acontecendo uma festa lá no trevo, ouvi dizer, qualquer coisa sobre isso.
- Mas não é semana que vem? Perguntou Silmara. Lílian manifestou-se.
- Vamos deixar de conversa, vamos a prefeitura.
Eles caminharam por toda a cidade, não havia ninguém, tudo estava parado, nenhuma alma viva. Não se ouvia os pássaros, carros, nada, somente os quatro.
- Será que estamos na nossa cidade?
- Eu acho que os envolvidos com a construtora de uma forma ou outra ficaram sabendo que descobrimos e providenciaram o isolamento da cidade.
- Deixa de bobagem, disse Luis.
- Com certeza tem uma explicação.
Exaustos, depois de muito caminhar e não encontrar ninguém resolveram retornar para o colégio. Sentaram-se ao chão para descansar. Lílian começou a sentir-se mal, Luis sentou-se ao seu lado, Pedrinho abraçou Silmara e entrelaçaram-se todos os quatro, juntos fecharam os olhos, esperando o mal estar passar. Algum tempo, na verdade muito tempo se passou. Aos pouquinhos Lílian, abriu os olhos, e viu-se toda enfaixada, sentia muitas dores, no quarto, seus pais choravam de alegria ao vê-la consciente, neste momento quis desesperadamente comunicá-los do que tinha descoberto, mas não conseguia falar. Achou tudo estranho e ouviu quando a enfermeira entrou no quarto pedindo para que todos se retirassem.
- Graças a Deus, depois de alguns dias em coma, você acordou.
Lílian começou, a entender o que havia acontecido, após dias de recuperação, ficou sabendo que todos os responsáveis pelo acidente já estavam presos, pessoas influentes da cidade interessadas na construção do shopping foram incriminadas. Luis, Pedrinho, e Silmara, apesar de muito machucados, recuperaram-se mais depressa e conseguiram relatar com requinte de detalhes tudo que tinham descoberto ás autoridades, mesmo com certa desconfiança, pois não entendiam como aqueles jovens que estavam sob os escombros e tinham sido salvos por verdadeiro milagre, podiam ter informações sobre aqueles documentos. Providenciaram de imediato uma minuciosa busca a Luciana que eles tanto falavam, apesar de não terem encontrado nenhum registro dela, iniciaram também a procura pelo cofre no meio dos destroços, onde a área toda se encontrava interditada e com acompanhamento da policia militar encontraram-no e após abertura do mesmo confirmaram a presença de todos documentos citados por eles. O Juiz da cidade após analisá-los, decretou a prisão de todos os envolvidos no acidente. Lílian ao saber das novidades sentiu-se realizada, um novo silêncio tomou conta do ambiente, e ao olhar para a porta do quarto, viu surgir à imagem de Luciana que também demonstrando alegria despediu-se. Lílian entendeu que ela havia ajudado a cumprir sua missão. Após a comoção pelo acidente com os alunos, provocado criminosamente por grupos interessados em lucrar, serviu de motivação para a união dos ex-alunos com a população, que arrecadaram verbas suficiente para a restauração do prédio da escola.

 

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