EMBRIAGADO PELA SAUDADE

(PSEUDÔNIMO: NECO)

Da varanda de minha casa, era possível avistar debruçado no balcão do velho barzinho da esquina, o Zé Pinguinha, um dos mais antigos freqüentadores daquele lugar. Passava boa parte do dia tomando a sua “branquinha”, como fazia questão de dizer. O reconhecíamos de longe, pois usava uma camisa listrada surrada, um chapéu e uma calça larga com um cinto sobre a barriga para poder segurá-la. Sua figura era ímpar. Era tímido e não falava com ninguém. O exército o aposentou por invalidez. Ficava horas a fio no canto do balcão falando sozinho.Trazia na carteira uma fotografia de um jovem fardado com um
quepe levemente inclinado sobre a testa, postado como se estivesse de guarda. Poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver esta foto, mas quem a viu, dizia ser ele, devido a cicatriz que trazia no lado direito da face.
Sr. Marcelo, o dono do bar, resolveu investir numa reforma, e durante um mês o estabelecimento ficou fechado deixando Zé Pinguinha desorientado, andava de um lado para outro e acabava sendo escorraçado pelas pessoas. Seu Marcelo trocou as mesas do bar, já quebradas, por mesas novas, ornamentou com toalhas coloridas, passou a servir almoço e petiscos. Pintou o local com cores claras e colocou luzes modernas, deixando o ambiente o mais saudável, removendo o cheiro de bebidas do ar. Autorizou um dos seus fregueses a expor seus quadros, telas pintadas a mão, com paisagens do cotidiano, com preços para quem quisesse adquiri-los. Zé Pinguinha que andava por ali, viu que o bar havia sido reaberto. Aproximou-se mas hesitou em entrar. Estava indeciso, sentia que não era mais ambiente para ele. Sr. Marcelo observando o vacilo do seu velho freguês, convidou-o a entrar, pois durante anos freqüentou o seu bar e nunca incomodou ninguém, e disse-lhe que seu cantinho estava a sua espera.
Zé Pinguinha, meio deslocado, entrou e pediu sua “ branquinha”. Pegou o copo, cheirou o líquido e antes de bebê-lo, olhou para o quadro a sua frente. Ficou paralisado olhando para aquele cenário. Esfregou os olhos e aproximou-se como se estivesse vendo um fantasma. O quadro apresentava uma linda jovem andando numa praça arborizada. Usava um vestido comprido, bem acinturado. Trazia uma sombrinha para protegê-la do sol da tarde, na outra mão segurava uma coleira de um pequeno cãozinho que levava para passear. Ao seu redor algumas crianças brincavam. Ao Lado da praça, uma igreja com portas abertas e um padre que gesticulava como se estivesse abençoando a natureza que completava a paisagem. Zé pinguinha não conseguiu beber e se retirou. Voltou várias vezes e não tirava os olhos daquele quadro. Tentou comprá-lo, mas não tinha condições, era muito caro. Tentou trocá-lo por alguns objetos que considerava de valor, uma caixinha de música, um relógio, um rádio de pilha, uma caneta, mas não conseguiu, o pintor só queria receber em dinheiro pela venda dos quadros, e deixou bem claro ao Zé Pinguinha, que assim que tivesse uma boa oferta, o venderia, pois gostaria de ver seu quadro numa parede mais nobre que a da sua casa.
Os dias passavam e Zé Pinguinha se desesperava. Passou a beber muito mais que o normal, e a sua situação física piorava a cada dia. Comecei a sentir falta da presença dele no balcão do bar do seu Marcelo e após algumas semanas de ausência, resolvi visitá-lo. Ele morava num velho barraco nos fundo de uma casa perto do rio.
Quando lá cheguei, Zé Pinguinha estava deitado, quase agonizando. Levantei sua cabeça e ele ameaçou dar-me um sorriso. Aos poucos balbuciou algumas palavras e dizia que estava muito feliz, porque fora perdoado. Pedia que eu dissesse para todo mundo que ele não foi o culpado. Eu não estava entendendo nada. Mas ele não parava de falar, e começou a relatar sua história.
“ Eu era muito jovem. Entrei no exército e fui para o tiro de guerra. Eu era um rapaz muito bonito, e logo chamei a atenção da filha do comandante, que namorava o tenente. Tentei evitar um envolvimento, mas não teve jeito, logo estávamos apaixonados e nos encontrávamos ás escondidas. O Tenente, desconfiado, me impunha severos castigos, mas eu era forte e sempre conseguia terminá-los, isso deixava-o muito irritado. Certa noite, quando eu estava de sentinela, recebi a visita dela. Quando me dei conta estávamos rolando pelo chão, completamente apaixonados. O sentinela que guardava os fundos do quartel pensou que se tratava de uma invasão no local. Estava muito escuro e ele não viu que era eu. Disparou a arma que atingiu Vivi, transpassando seu corpo e me atingindo também. Fiquei desacordado. Dias depois fiquei sabendo que ela também tinha sido atingida e não suportando os ferimentos veio a falecer. A minha vida acabou naquele momento. Não tive mais condições físicas para trabalhar, porque a bala atingiu meus nervos vitais. Então comecei a beber, o que mais me restava? Mas hoje estou feliz. Desde que vi naquele quadro, a praça, a igreja, as crianças, reconheci que se tratava da minha cidade, e que aquela jovem era a Vivi, que passou a freqüentar os meus sonhos. Mostrou-me o quanto eu perdi, me recriminou por não tê-la esquecido, por ter me tornado um alcoólatra, por não ter lutado para descobrir a verdade. E levou-me em lugares maravilhosos, contou-me o que realmente aconteceu naquela noite. O Tenente viu o nosso encontro, enlouquecido de ciúmes, ordenou a outro sentinela que atirasse, alegando ser uma tentativa de invasão no quartel”.
Zé Pinguinha, segurando minhas mãos, repetia que estava muito feliz, pois sua Vivi havia voltado e nunca mais o deixaria. Lentamente fechou os olhos e partiu. Ninguém foi no seu enterro, somente eu e Sr. Marcelo que me confidenciou que pretendia comprar o quadro para presenteá-lo. Após o sepultamento voltamos para o bar e comentamos com os outros freqüentadores sobre a sua história, e não tirávamos os olhos do quadro.
À noite eu já descansava em minha casa quando Sr. Marcelo mandou me chamar com urgência. Quando lá cheguei, ele estava atônito, incrédulo. Olhava para a tela que tanto deixava Zé Pinguinha contente e me pediu para descrever o quadro que tantas vezes tive a oportunidade de olhar, mas para atender o pedido do amigo, em voz alta comecei a descrevê-lo. Havia uma linda jovem que usava um vestido comprido bem acinturado, trazia uma sombrinha para proteger-se do sol, na outra mão segurava uma coleira de um cãozinho que levava para passear. Crianças brincavam ao seu redor. Mas, vi algo que nunca esteve ali antes, ao lado da bela mulher estava um jovem fardado com um quepe levemente inclinado na testa, com uma cicatriz no lado direito da face, era o Zé Pinguinha. Havia também ao lado da praça uma igreja de portas abertas, e um padre que abençoava um casal que parecia recém-casados e apaixonados.

 

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