LIBERDADE
(PSEUDÔNIMO: NECO)
A esquadra holandesa comandada por Jacob e seu vice-almirante Peit desembarcaram na Bahia em maio de 1624. A invasão era um fato consumado. Apesar de pequenas resistências locais, o comandante tratou de articular rapidamente o seu governo.Trazia ordens específicas para obter informações sobre todo o território brasileiro, e organizou expedições para todos as regiões, reconhecidamente importantes, para os interesses do governo holandês. Acreditavam que Pernambuco seria o local de maior poder econômico, pois dominava o cultivo da cana, sendo um grande exportador de açúcar. Para uma dessas expedições Jacob designou Willem, um de seus principais homens, para essa região.
Acompanhado de aproximadamente trinta soldados, chegaram em Pernambuco, onde fincaram suas bases a fim de levantar dados para futuras conquistas, que era um dos principais objetivos dos invasores. Alojaram-se nas fazendas de gado e cana de açúcar, em Jaboatão. Eram respeitados e temidos, principalmente pelos escravos. O governo português não tinha o domínio militar na região, fato que favoreceu as manobras holandesas.
Vivendo como verdadeiro representante do governo instalado na Bahia, Willem determinou que seus soldados holandeses tivessem tratamentos especiais pelos fazendeiros, e dariam em troca a segurança das terras, além de ficarem responsáveis pela captura dos escravos fugitivos.
Willem a convite do Senhor Francisco, um dos maiores fazendeiros de cana de açúcar, montou sua sede na fazenda e veio ter como companheira uma escrava chamada Zanna. Após um convívio de quatro anos ela ficou grávida. No final da gestação Zanna foi surpreendida com a notícia da expulsão dos holandeses do Brasil, por uma poderosa esquadra luso-espanhola, que desembarcavam na Bahia. Após uma sangrenta luta retomaram as terras brasileiras, obrigando Willem e seus soldados a deixarem as mordomias e fugirem de Jaboatão, levando muitas informações, principalmente sobre as riquezas encontradas no norte do país. A partir de então Zanna teve que voltar a assumir a condição de escrava.
Com a vitória pela expulsão dos holandeses, os escravos comemoravam a retirada dos soldados que por muitas vezes, foram obrigados a confrontar-se na tentativa de liberdade, festejavam a conquista, cantavam e dançavam cantigas de rodas, típicas africanas.
Enquanto isso, na senzala, Zanna gritava de dor, pois sentia contrações, estava por dar a luz. A música era entoada e os passos ritmados. No auge das comemorações nasceu Kannú, apesar de sua mãe ser negra, o menino nasceu moreno de pele clara e olhos azuis, tinha cabelos lisos, trazia traços de Willem. Ao nascer não chorou, ficou atento, como se estivesse ouvindo a música que vinha do terreiro.
Quando os escravos souberam do nascimento da criança, comemoram com mais alegria, elevando as cantorias em agradecimento a Deus por mais uma vida. Ao cair da madrugada pararam de cantar e dançar. O silêncio tomou conta da senzala, somente neste momento, todos puderam ouvir os primeiros choros do menino, espantados, acreditavam que aquilo era um sinal, aquela criança era especial, pois o menino chorou muito tempo depois de ter nascido, somente quando parou de ouvir a música.
Kannú crescia forte e robusto. Era a alegria de todos. Mesmo sem nenhuma cultura ou o fato de não freqüentar escola, era inteligente e tinha o dom de cativar a todos que o conheciam. Os escravos tinham como hábito cantar e dançar todos os dias após a labuta, para eles era a terapia que compensava tanto sofrimento. Kannú aprendeu com muita facilidade os ritmos que lembravam a África. Quando por algum motivo não havia cantorias na fazenda, os escravos ficavam quietos, apenas ouviam o som da festa na fazenda mais próxima. Os ritmos traziam características de regiões diferentes.
Os proprietários dos escravos tinham como hábito, levar as crianças negras para o trabalho assim que começassem a andar. Apesar de pequenas já eram designadas para exercer alguma função. Iniciavam com afazeres leves, serviam seus senhorios e suas famílias, levando as roupas, buscando os calçados, colhendo frutos e quando já falavam levavam recados entre outros serviços, mas em nenhum momento podia-se permitir que as crianças, sequer, pensassem em brincar, eram educadas somente para o trabalho desde a mais tenra idade.
As crianças nasciam muito semelhantes. Eram fortes e sadias, pois os senhorios das fazendas selecionavam os escravos mais fortes e saudáveis para serem os reprodutores. Desta forma, um escravo durante sua vida útil, que era em média de quinze anos, poderia ter mais de cem filhos, aproveitando o período fértil das escravas que também eram selecionadas.
Kannú foi levado pelo Senhor Francisco para frente de trabalho no corte da cana aos cinco anos de idade, assim como as outras crianças, mas Kannú não apresentava muita disposição para trabalhar, ele gostava de cantar e dançar, e ficava quase o tempo todo distraindo a atenção dos escravos, que sempre eram repreendidos pelos capatazes, mas ainda assim, protegiam o pequeno menino.
O feitor levou Kannú para outras partes da fazenda, na tentativa de fazê-lo trabalhar, queriam que ele demonstrasse alguma afinidade com qualquer tipo de trabalho, mas ele somente gostava de cantar e dançar, logo deixava de lado o que estava fazendo e acabava reunindo os trabalhadores á sua volta, numa cantoria que podia ser ouvida a distância.
Zanna que estava do outro lado da fazenda era alertada por outros escravos, que seu menino estava aprontando suas travessuras novamente, todos riam e divertiam-se com aquelas brincadeiras.
Kannú era simpático e tornava-se cada dia mais bonito. Aos poucos foi conquistando a atenção das filhas do patrão, que sempre ordenavam que as acompanhassem até a cidade, para compras e passeios, mandavam que ele levasse alguns recadinhos, em troca convenceriam Senhor Francisco a deixá-lo participar dos caxambus, a festa dos escravos que se reuniam uma vez por semana, normalmente aos sábados, que eram realizados nas fazendas mais próximas. Kannú acompanhava os escravos que carregavam nos ombros as cadeirinhas que transportavam seus senhores por quilômetros, e amargurava-se de presenciar aquele sofrimento, pois os ombros dos escravos chegavam a sangrar, além das dores nas colunas causadas pelo peso. Caminhava cantando cantigas para tentar aliviar-lhes a dor. Aproveitava aqueles momentos que levava os recados e corria até a praia. Do alto do morro, ficava admirando os pescadores que jogavam suas jangadas ao mar para pescar lagostas. Para Kannú a pescaria simbolizava liberdade, pois aqueles homens adentravam na imensidão do mar e com certeza sentiam-se livres. Sonhava que um dia estaria sobre uma jangada assim como eles.
Kannú ficou conhecido, pois além de dançar todos os ritmos, especialmente a dança do jongo, e cana-verde entre outras, cantava e tinha uma voz que impressionava até mesmo os proprietários das terras, que permitiam que os escravos o convidassem para animar a festa. Senhor Francisco incomodado com tantas solicitações tentava resistir aos pedidos, mas era em vão, Kannú convencia a todos, e conseguia participar dos caxambus, pois conhecia os motivos e a importância destes festejos para os escravos.
No começo do mês de setembro, na propriedade de Senhor Ramalho, realizou-se uma festa dos escravos na qual Kannú participou e pôde constatar que este “Senhor” utilizava seus escravos como moldes de telhas para a cobertura das casas, usava as coxas dos escravos como fôrma, colocava barro quente por cima delas até esfriarem formando as telhas, que eram vendidas a outros fazendeiros. Os escravos tinham estruturas diferentes, uns com pernas mais finas, outros com pernas mais grossas, e com o tempo acabavam ficando feridas com queimaduras, por esse motivo as telhas não saiam perfeitas.
Senhor Ramalho recebia muitas reclamações pelos serviços “feito nas coxas”, então mandava que os surrassem.
O que mais afligia Kannú era ver que em pouco tempo, os escravos submetidos a este serviço brutal, mal conseguiam andar, pois o calor constante dificultava a circulação sanguínea. Indignado desenvolveu uma dança especial para eles, aproveitando o som dos batuques e cantorias, tentando reanimá-los, convidava-os para dançar, e todos agachados em rodas, apoiando-se um ao outro seguiam o compasso de Kannú. Mesmo sentindo muitas dores, todos queriam participar, mostrando a seus senhorios, ainda que debilitados, queriam manifestar suas mágoas e sofrimento.
Revoltados com seus donos, aqueles escravos organizaram uma fuga em massa.
Ao saber da participação do menino na revolta, Senhor Francisco cansado de tantas peraltices, proibiu-o de freqüentar as festas. Ordenou que o acorrentasse e colocou-o para realizar serviços pesados como os outros escravos, como carregar enxadas, pás, entre outras ferramentas. Era triste ver naquela imensidão, um pequeno menino carregando tanto peso, mas Kannú levava tudo na brincadeira e sempre arrumava um jeito de cantar. Usava o equipamento como se fosse uma pessoa e a sua volta fazia a folia que tanto gostava.
Neste período ocorreu a segunda invasão holandesa em Pernambuco, que atacando em duas frentes conseguiram como anteriormente aconteceu na Bahia, desembarcar com poucas perdas, mostravam-se perfeitos conhecedores do terreno, pois tinham informações detalhadas por Willem. Os habitantes procuravam resistir com forças trazidas de Recife, mas a desproporção a favor dos holandeses em homens, recursos e armamentos era muito grande, eliminando essa resistência. Com o sucesso da invasão, Willem pelos serviços prestados, foi elevado ao cargo de comandante geral da província, administrando a colônia com mãos de ferro.
A economia brasileira estava em pleno auge, sobretudo na produção de açúcar. Os fazendeiros passaram a pagar taxas e impostos cada vez mais altos, obrigando-os a tomarem medidas mais cruéis com seus escravos, exigindo esforços sobre humanos para poderem pagar as novas alíquotas de impostos.
Senhor Francisco na intenção de mostrar que tinha a liderança sobre seus escravos e cansado de tanto tentar transformar Kannu num trabalhador, aproveitando seu aniversário de 10 anos, convocou todos os escravos para reunirem-se na praça principal, onde Kannú foi acorrentado pelas mãos num tronco fincado no centro da praça. O menino estava apreensivo.
Centenas de escravos cercaram o lugar. Muitos já sabiam o que ia acontecer e choravam em silêncio. Kannú inocentemente sorria e chorava, com as pernas soltas pulava de um lado para outro, tentando fugir, mas era inútil. Senhor Francisco esperou horas. O sol escaldante levava o menino a pedir água, também já sentia fome, mas não podia ser atendido.
O senhorio de Kannu acompanhado das elites da época e na presença dos soldados holandeses chegou na praça, falando em voz alta, como se estivesse discursando, para que todos pudessem ouvir, que aquele menino era preguiçoso, não gostava de trabalhar, só queria saber de cantar e dançar. Teria que aprender uma lição enquanto era tempo. Não podia ficar percorrendo as fazendas atrás de festas, mas sim trabalhar para comer e servir o seu senhorio, ajudar na produção para que pudessem pagar os impostos. Encerrando seu discurso, ordenou que lhe fosse aplicado dez chibatadas. Kannú ficou desesperado, tentava olhar para o seu oponente, um carrasco que estava com uma correia de couro cru. Pulava de um lado para outro tentando se desviar, mas o espaço que tinha era pequeno. Aquele “bruta homem” ergueu a mão e deferiu a primeira chibatada. Kannú gritou e suas pernas bambearam, sua respiração sumiu, quase desmaiou. Os escravos que o rodeavam ficaram perplexos com tamanha crueldade. Kannú tentava se recuperar, mas vinha a segunda e a terceira, respirava fundo e olhava a sua volta. Conseguia reconhecer a todos que o observava, eram os mesmos que participavam das festas e brincadeiras dos finais de semana.
O menino encheu o pulmão e começou a cantar as músicas que tanto encantava os escravos. Todos participando de sua dor começaram a cantar, e uma verdadeira cantoria podia ser ouvida a distância. As chibatadas eram aplicadas com muito rigor. Sete, oito, nove, dez. Kannú ardendo de dor chorava e cantava cada vez mais alto. Willem do alto de uma janela num casarão no centro da praça, observava a tamanha violência contra o seu filho, mas não podia tomar nenhuma medida, pois poderia incentivar outros escravos a se rebelarem. Com um lenço branco enxugou as lágrimas que rolavam em seu rosto.
A sessão de tortura terminou. O menino continuava cantando, levando o Senhor Francisco á loucura. Kannú sobreviveu às chibatadas, e continuava a freqüentar os caxambus. Seu Senhorio percebendo que não conseguia êxito com o menino, enviou-o para seu irmão em outra fazenda ao norte, com as piores recomendações possíveis. Kannú chorou muito na partida ao deixar sua mãe desesperada com a separação.
Assim que chegou na outra fazenda percebeu que ali o clima era muito hostil. Os escravos estavam à beira de um colapso nervoso, pois a crueldade com que agia seu novo senhorio, assemelhava-se a um genocídio. Matava-se por qualquer motivo muitos já tinham perdido pais, mães, irmãos, entre outros. Kannú ficou assustado, mas aos poucos foi ganhando a confiança dos mais velhos, e com a sua cantoria conseguia reunir os escravos em roda. Cantava todas as músicas que tinha aprendido e novamente as festas eram motivos de alegria. Os escravos falavam dialetos diferentes e cantavam repentes no qual somente eles entendiam, onde naquele momento extravasavam suas mágoas e revoltas.
Certa noite na fazenda, Kannú foi acordado por um grupo de escravos que se preparavam para fugir, contavam que o garoto fosse com eles. O menino não êxitou, tomou a frente e se embrenhou no canavial aproveitando a escuridão. Pela manhã o senhorio ao perceber a fuga dos escravos, ordenou que todos fossem capturados, vivos ou mortos.
Foram localizados a quilômetros de distância no meio do canavial, escondidos esperando a noite chegar para continuarem a fuga. O severo Senhorio havia ordenado que tocassem fogo nas proximidades para que nenhum fugitivo escapasse vivo. Os capatazes sem pestanejar e com muita maldade incendiaram formando um círculo de fogo que consumia as folhagens da cana com muita rapidez. Os escravos percebendo a gravidade da situação ficaram desesperados, pois o fogo se aproximava rapidamente. O líder do grupo contava com seis homens, quatro mulheres e três crianças. Pediu que ficassem perfilados, um segurando no braço do outro, começaram a cantar e a rodar como se fosse uma hélice, derrubando os pés de cana no chão, e assim foram esmagando até ficarem rente ao solo, formando um outro círculo no meio da plantação. Atearam fogo que queimou velozmente. Neste momento as chamas estavam muito próximas obrigando-os a correrem para o meio do círculo ainda em brasas acesas, queimando-lhe os pés. As crianças eram carregadas no ombro. Kannú apesar de assustado, agradecia a Deus por estar vivo. O fogo se aproximava do círculo, mas por falta de combustível, deixou-os numa distância segura. Os capatazes chegaram e com chibatadas obrigaram a todos a voltarem para a fazenda, queimando-lhes ainda mais os pés. As crianças não foram poupadas e tiveram que se submeter a caminhar sobre as brasas. Todos foram acorrentados unidos numa só corrente, e para maior castigo, em seus pés foram colocados bolas de chumbo, para que servisse de exemplo aos outros.
No final do décimo dia, já com os pés recuperados, porém ainda acorrentados, e sem verem cor do sol, ouviram uma música que vinha do terreiro. A melodia era muito triste, apenas uma batida. Os escravos reunidos e preocupados com a saúde dos fugitivos, em silêncio, escutavam o som das batidas que ecoavam pela fazenda: “Um, dois, um dois, um dois três. Um, dois, um dois, um dois três, um dois, um dois, um dois três.” Kannú ouvindo o som, mesmo debilitado, começou a motivar os outros a se levantar. Agitou, gritou e até chorou. Pediu que o acompanhassem. Com muita dificuldade todos o obedeceram e se arrastando saíram da senzala. Todos acorrentados, das mãos aos pés, interligados com outras correntes e bolas de chumbo nos calcanhares, iniciaram uma coreografia na qual dançavam quase agachados, e arrastavam os pés acompanhando o ritmo dos batuques formando uma roda. “Um, dois, um, dois, três.....Esta dança demonstrava a força de vontade do jovem Kannú que com sua voz incentivava os outros a continuarem a dançar. Um, dois, um dois, um dois três,...
O senhorio pela janela acompanhado de sua família não acreditava no que estava acontecendo e durante horas observou a dança melancólica. Ao amanhecer liberou-os do castigo e Kannú foi devolvido ao Senhor Francisco, sendo acusado de fomentar a fuga e o desinteresse pelo trabalho dos escravos de sua fazenda.
Ao passar dos anos, tornou-se um rapaz muito forte e bonito. Era o responsável pela organização das festas. Ficou conhecido como “ O Cirandeiro”, por participar de todos os festejos da redondeza. Por sua beleza era cobiçado até pelas filhas dos fazendeiros. Conquistou a simpatia do seu senhorio, pois percebendo que ficando contra ele, atraia a antipatia dos outros escravos, e se unisse a ele com certeza seria mais fácil lidar com os demais sem rebeldias. Apesar de continuar escravo, Kannú teve a liberdade para participar das festas e unir-se aos pescadores. Passou a participar das pescarias que eram realizadas, onde a principal atividade era pesca da lagosta em pequenas jangadas. Kannú reunia os pescadores em alto mar e com suas jangadas ficavam horas ouvindo-o cantar.Tinha muita sorte sempre voltava com a jangada cheia, retirava alguns quilos para o seu senhorio, o restante levava para a praça e no meio de uma festa improvisada reunia uma verdadeira multidão, onde repartia com eles a sobra da pescaria. Aproveitavam este momento, e brincavam a noite toda. Kannú vivia sua liberdade, nada o aborrecia, mesmo com os soldados holandeses perseguindo os moradores e um regime opressor implantado, ele não se importava. O único que ele respeitava era Augusto, homem de confiança de Willem que cansado e desgastado, junto aos fazendeiros, resolveu numa manobra inteligente eleger um brasileiro como seu interlocutor.O escolheu, por ser da terra e ter facilidade de comunicação entre os escravos, índios, fazendeiros e holandeses. Era um homem de família tradicional da cidade, e no dia de sua posse recebeu do próprio Willem em sinal de poder um anel com uma grande pedra de brilhante.
Maurício de Nassau na esperança que Augusto mantivesse a ordem apoiou Willem quando o designou, pois todos o respeitavam. Augusto andava pelas fazendas tentando acalmar os fazendeiros que estavam insatisfeitos com tantas obrigações e impostos cobrados pelo governo invasor. Kannú a pedido dele acompanhou-o em várias visitas realizadas e ficava admirado com sua eloqüência, porém percebeu que não conseguia atingir seus objetivos, pois os fazendeiros ficavam cada vez mais dispersos. Kannú observava que ele queria reuni-los para enfrentar os holandeses numa possível revolta, mas não tinha êxito.
Kannú continuava participando dos caxambus. Era o organizador oficial das festas em toda a região. Os soldados holandeses tornaram-se seu amigo, pois Kannú percebia que os soldados de alguma forma também eram escravos do poder invasor. Notava que eles sentiam saudades de suas famílias e entes queridos.
Passou então a reuni-los nas festas onde dançava e cantava as músicas tradicionais holandesas, amenizando a saudade e a dor por estarem tão longe. Desta forma conquistou a amizade e admiração dos soldados que passaram a participar das mesmas festas dos escravos, os caxambus, e com o passar do tempo pôde-se notar a influência de ambas as culturas, gerando novas coreografias, passando a serem conhecidas como as danças típicas da região, como o Boi-Bumbá, o Fandango, o Maracatu, o Maculelê, a Marejada, além da dança de jongo e cana-verde. Não perdiam nenhum folguedo e cantavam suas músicas que eram respeitadas pelos escravos, que a princípio ouviam calados. Kannú conseguia aproximar e reunir numa única roda escravos e soldados holandeses e dançavam as danças típicas.“O Cirandeiro”, cantava a noite reunindo a todos como se fossem da mesma família.
O governo português resolveu recuperar os seus domínios e numa aliança com a fragata espanhola invadiram Pernambuco, teve início uma batalha sangrenta. Os soldados holandeses sediados em Jaboatão foram chamados para engrossar seu exército em Recife para lutar na linha de frente. Augusto recebeu ordem dos portugueses para resistir, mas não tinha homens. Tentou reunir os fazendeiros, porém não teve sucesso, pois não tinha credibilidade junto á eles, mesmo porque, era visto como um homem que representava os invasores, apesar de ser filho da terra. Tentou convencer os moradores, os escravos e os índios, que estava lutando contra os holandeses e que tinha recebido a promessa que muitos soldados estariam vindo do Sul para ajudá-los a montar uma frente de luta de resistência, pois os holandeses tentariam vir pelo mar e desembarcar nas praias. Augusto após percorrer todos os cantos da cidade e nas fazendas, na tentativa de uni-los ficou desanimado, e num ato desesperado chamou Kannú, o Cirandeiro, que ao seu ver era o único homem, que conseguia reunir pobres e ricos, índios, escravos e até soldados invasores, numa roda, e pediu-lhe ajuda. Kannú não queria confrontos, mas Augusto sabia que ele era o único que poderia unir escravos, fazendeiros, e os moradores, pois tinha carisma e a simpatia de todos e num ato de humildade, tirou o anel de brilhante de seu dedo, e erguendo a mão de Kannú em frente a população da cidade, colocou-o em seu dedo passando-lhe o comando. Todos que presenciaram a troca do comando ficaram admirados, por alguns segundos ficaram calados, mas logo gritaram e dançaram para comemorar com seu novo líder. O rapaz não tirava os olhos do anel, porque a luz do sol refletia intensamente sobre sua pedra dando um brilho nunca visto antes. Aquele gesto era o sinal de que, a partir daquele momento Kannú seria o condutor daquele povo, e que essa era a sua missão. Encheu os pulmões, e reuniu a todos numa grande roda sem distinção de raça, crença, religião, ou domínio, mas todos vendo o anel em seu dedo acreditaram que a força estava com ele, pois já o respeitavam como ídolo.
Os fazendeiros sem outra opção liberaram seus escravos para a luta.e juntaram-se a eles. Os moradores passaram a participar das reuniões. Os fazendeiros e suas mulheres, entre elas Zanna, mãe de Kannú, que estava orgulhosa por seu filho estar sob o comando, sobre as escadarias da igreja de Nossa Senhora dos Prazeres preparavam armas feitas de bambu, flechas, tacapes, e lapidavam pedras que se transformaram em balas, para serem atiradas através de um elástico, como um estilingue. Reforçaram as jangadas usadas para a pesca da lagosta, como se fossem navios de guerra.
Em Pernambuco a luta foi intensa. Centenas de brasileiros morreram. Os portugueses mais organizados enfrentaram os holandeses. Pernambuco ficou em chamas, um banho de sangue pôde ser observado ao longe.
Kannú recebia informações em Jaboatão, vindas de Recife, que os holandeses estavam enfraquecidos e a fuga fora inevitável. Quando Maurício de Nassau fugia da fragata espanhola, em seus navios de guerra comandados por Willem, que estava ferido pelo combate no Recife, foi informado sobre aproximação de Jaboatão, onde talvez pudessem parar para socorrê-lo, já que ali tinham muitos amigos, principalmente Kannú, que todos sabiam ser seu filho. Esperançoso ordenou que se aproximassem da praia.
À distância foram avistados pelos pescadores de Jaboatão. Preocupados que eles tentassem desembarcar nas praias, gritaram para Kannú, que já estava de prontidão, conseguiu em pouco tempo lotar centenas de jangadas com os escravos, fazendeiros, pescadores, homens, até crianças da cidade e partiram para enfrentar os navios de Maurício de Nassau e seus comandantes, que ao avistar aquelas jangadas com homens munidos de armas tão rústicas, vindo em sua direção, ordenaram que os canhões fossem apontados para as jangadas e que preparassem os fuzis.
Willem num esforço sobre-humano conseguiu sair no convés do navio encostado num mastro, com as roupas encharcadas de sangue. Ao ver as jangadas. ficou surpreso com a tamanha coragem daqueles homens, que mesmo sabendo de suas condições precárias, estavam enfrentando-os em uma poderosa armada. Viu um jovem sob o comando, que apontava para o céu um anel que brilhava com a luz do sol. Era seu filho Kannú, que sem ter a oportunidade de conhecê-lo melhor, estava o enfrentando por necessitar de liberdade.
Os soldados também reconheceram Kannú, o amigo que tanto respeitavam e sabiam de sua luta para unir os povos e gozar da liberdade. Pois em muitas tardes de sábados estiveram juntos para festejar e dançar. Não tiveram coragem de disparar as armas, canhões e fuzis. O capitão do navio holandês que fugia da esquadra luso espanhola continuava ordenando que atirassem em direção as jangadas, mas não foi atendido. Os soldados olhavam para Willem que deixava rolar lágrimas em sua face, demonstrando que seria uma covardia atacar com armas tão poderosas aqueles trabalhadores, que motivados por um verdadeiro líder estavam ali para enfrentar os navios guerreiros dos holandeses. Alegando que os canhões estavam travados e não podiam dispará-los, deram a volta e recuaram. Viajavam com velocidade, de forma que as jangadas não os alcançaram. Aquelas centenas de jangadas, com seus ocupantes, percebendo as manobras de fuga dos holandeses, comemoravam acreditando que aquela atitude tinha sido a responsável pela expulsão dos invasores e conseguido pela primeira vez a vitória dos povos em Pernambuco.
Kannú ordenou que todos voltassem para a praia e continuou a seguir os navios, queria ter a certeza que eles haviam partido.
Na praia todos os amigos já organizavam uma grande festa. Zanna, os pescadores, fazendeiros, entre outros moradores, o aguardavam para homenagear a “Liberdade” conquistada.
Ao cair da tarde no horizonte, avistaram uma pequena jangada. Todos gritavam que Kannú estava chegando. Ao desembarcar na praia foi recebido por todos que cantavam e dançavam com tamanha alegria, e formando um só coro o chamavam “.... Cirandeiro, Cirandeiro sua hora é chegada, vem cantar nesta ciranda, pois a roda esta formada”.
Kannú emocionado ostentava seu anel de brilhantes, e unidos comemoraram aquela vitória.
Séculos se passaram. E em homenagem a expulsão dos holandeses, esta data é comemorada todos os anos na época da pesca da Lagosta, e na festa da Pitomba em Jaboatão dos Guararapes é feita a reconstituição, onde o Cirandeiro também é lembrado por todos que ainda hoje se emocionam com sua história, onde um jovem nativo, escravo, andava pelas praias e fazendas, cantando e dançando, unindo brasileiros que irmanados, sem senhores, nem senzalas, pelo carisma e pelo amor a sua Liberdade e a de Sua Gente.
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