MARCAS DO TEMPO

(PSEUDÔNIMO: NECO)

A prefeitura de São Paulo autorizou a demolição do velho casarão abandonado na avenida Ipiranga. A conservação do imóvel era precária, e já oferecia riscos á população. Foi descoberto no porão da casa um atelier com objetos de arte, entre elas cinco esculturas em pedra sabão, de uma mulher perfilada, onde retratava os momentos especiais de sua vida, com o nome gravado Melissa. As esculturas a homenageava em 1920 vestida de noiva, outra de 1922 quando grávida, outra de 1927 onde segurava a mão de uma menina, e outras de 1931 e 1935. Ao verificarem os documentos ali encontrados descobriram o nome do artista, Paulo Rangel Freitas, hoje considerado um dos maiores artistas brasileiros nesta arte. As obras foram cuidadosamente retiradas do local. Numa grande festa promovida pela prefeitura em homenagem aos 90 anos do escultor, falecido recentemente, entregar-se-ia as obras encontradas á sua esposa, Vivian. No dia do evento, cercada por filhos e netos, observava a cerimônia, e aguardava o momento de receber as esculturas, sentada numa bela poltrona, relembrava sua história. Sua mãe Melissa era jovem, bonita, e estudava num colégio na praça da República. Aos 18 anos fora prometida pelos pais a um rapaz de família nobre, residentes na Avenida Paulista. Paulo Rangel, filho de um dos primeiros taxistas de São Paulo, morava na avenida Ipiranga, por volta de 1918. Trabalhava durante o dia no táxi, para ajudar no orçamento familiar.Prestava serviços de carro de aluguel para noivas aos finais de semana. Estudava num colégio no bairro do Brás, fato que facilitava encontros casuais com Melissa por quem era apaixonado. Ela nem lhe dava atenção, mas Paulo ficava encantado com sua beleza, e nas horas vagas, esculpia verdadeiras obras de arte. Tinha esta habilidade desde criança. No último sábado do outono de 1920, foi contratado para levar uma noiva até a igreja. Ornamentou o carro com flores e ao chegar no local ficou desesperado ao ver que a noiva era Melissa. Durante o trajeto disfarçava para que ela não percebesse suas lágrimas, e parado na porta da igreja viu quando Melissa subiu ao altar.Para sua frustração notou que faziam um par perfeito. Apesar de tudo e do tempo, continuava apaixonado por ela. Certa noite, atendeu a um chamado para socorrer uma mulher que iria dar a luz, para sua surpresa, novamente era Melissa, que suplicava por ajuda, pois seu marido estava viajando a trabalho. Paulo levou-a à maternidade. Nasceu Vivian. Melissa e seu marido Otávio, em gratidão, o contrataram como motorista da família. O tempo passou, Paulo levava Vivian para a escola, festas e passeios. Sempre que Melissa estava por perto ele a olhava e a tratava com tanto carinho, que chegava a perturbar Vivian, que se apaixonara por ele desde a adolescência. No seu íntimo sabia de seu amor por sua mãe, e admirava-o por sua integridade, pois a amava e sofria calado. Tudo para vê-la feliz, pois o casal vivia em plena harmonia. Vivian sempre acompanhou os trabalhos artesanais de Paulo. Ela já estava com 18 anos. Até então, Paulo não tinha se casado. Numa festa da alta sociedade, Vivian teve contato com um americano que precisava de obras de arte para ornamentar um edifício que estava sendo construído em Nova York. Vivian não perdeu tempo, recomendou e apresentou os trabalhos de Paulo que logo foram aprovados. Passou a ser sua assistente e assim que as peças encomendadas ficaram prontas, foram apresentadas na embaixada nos Estados Unidos, onde fizeram uma grande exposição. Passou a ser conhecido por sua arte e logo outros pedidos chegavam de vários paises. Vivian assumiu a coordenação dos trabalhos e era responsável pela divulgação de suas obras. Com o tempo um envolvimento entre eles fora inevitável. Apesar de 20 anos de diferença, Vivian o amava, e Paulo afeiçoou-se a ela, mas seu grande amor ainda era Melissa, que era contra aquele envolvimento, pois Paulo além de ser mais velho, tinha sido o motorista da família. Segurou Vivian no colo quando nasceu, ajudou-a a criá-la, e agora preparavam-se para se casar, mesmo contra a vontade de Melissa e Otávio que não compareceram ao enlace. Tiveram três filhos. Paulo continuava trabalhando e era cada vez mais requisitado. Vivian cuidava de toda a parte administrativa na qual sentia-se extasiada em poder ajudar o homem que tanto amava. Paulo era bom pai e excelente esposo. Suas obras eram reconhecidas no mundo todo. Em 1970, Otávio faleceu, deixando Melissa aos 68 anos, sozinha. Mesmo sabendo do amor oculto que Paulo nutria por sua mãe, Vivian convidou-a para morar com eles. Considerando o respeito, o amor aos filhos, e sua dignidade, conviveram juntos por alguns anos. Vivian jamais deixou de amá-lo. Melissa os deixou primeiro. Paulo sofria e chorava escondido, porém continuava esculpindo. Não se cansava de agradecer a Vivian, e falava do orgulho que tinha de estar sempre ao seu lado. Cansado e já muito doente, quis o destino que ele a deixasse. Vivian sabe que estas esculturas foram em homenagem a sua mãe, mas irá guardá-las com carinho como se tivessem sido feitas para si.

 

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