O AUTISTA
(PSEUDÔNIMO: NECO)
A banda da polícia militar realizava mais uma de suas apresentações. Á frente o maestro e sargento Daniel comandava um grupo de músicos, ganhadores de vários prêmios, inclusive com alguns discos já gravados. Todos estavam emocionados. Seria a última apresentação do Maestro que era tido como um grande incentivador da música.
Daniel recebeu uma carta onde informava sobre o falecimento de seu pai e das dificuldades que teriam em administrar os negócios da família, já que seus irmãos ainda não estavam preparados para assumi-los. Possuíam uma fazenda. Atuavam na agricultura e na pecuária. Tinham contratos assinados com empresas da capital para o fornecimento de leite por alguns anos. A hipoteca do imóvel é que lastreava esses contratos. Daniel sentiu que não poderia deixar sua família desamparada, assim sendo, decidiu deixar sua carreira na polícia militar e assumir o comando dos negócios, até que seus irmãos pudessem assumir a administração da fazenda, só então poderia investir em sua realização profissional e pessoal. A música era a sua grande paixão, porém o destino traçou outros caminhos para ele.
Após a maravilhosa apresentação de sua banda o Maestro Daniel despediu-se do público, com lágrimas nos olhos abraçou cada um dos integrantes e partiu para Serra Negra.
Durante a viagem, lembrava-se de quando saiu de casa para dedicar-se a sua carreira militar e a música, deixando sua família e Melissa. Seu pai nunca o incentivou, ao contrário, sempre fez de tudo para que ele apenas se envolvesse com negócios da fazenda.
No coreto iluminado da praça central de Serra Negra, estava Melissa. Ansiosa esperava a chegada de seu grande amor. Daniel mandou-lhe um telegrama pedindo que viesse recebê-lo.
O ônibus adentrou pela avenida principal e parou em frente à praça. O coração de Melissa disparou. Finalmente encontrar-se-iam novamente. Daniel foi o primeiro a descer. Abraçaram-se felizes com o reencontro. Seguiram para a fazenda onde toda família os esperavam.
Tomou conhecimento dos contratos firmados e adotou medidas necessárias para o bom andamento das negociações. Além de músico era formado em administração de empresas através da polícia militar.
O prefeito da cidade era seu velho amigo de infância. Ao visitá-lo Daniel surpreendeu-se ao saber que a prefeitura passava por dificuldades, já que a receita principal era proveniente da arrecadação dos turistas, porém o número de pessoas que visitavam a cidade diminuía ano após ano. Alguns hotéis já tinham fechado e o desemprego atingiu um número considerável. Analisando esta situação Daniel sugeriu ao prefeito a criação de uma banda na cidade, com o intuito de atrair novamente os turistas. Propôs ao prefeito que arcasse apenas com o custo dos músicos, e ele ofereceria todos os equipamentos e instrumentos necessários. O prefeito aprovou a idéia imediatamente.
Serra Negra tinha a sua banda regida pelo Maestro Daniel que em poucos meses atraíram muitas pessoas para suas apresentações.
O coreto tornou-se o ponto de encontro de jovens e turistas. Era freqüentemente visitado por moradores das cidades vizinhas que vinham assistir ao concerto. A banda tocava todos os ritmos e sucessos da época. Com o tempo houve uma reestruturação no setor hoteleiro e no balneário, além de inaugurar a nova rodoviária. As rádios e jornais passaram a divulgar os atrativos da cidade, além da banda que tinha como carro chefe as apresentações do conhecido maestro, que à frente do musical, recebia todos os turistas de braços abertos.
Logo todos puderam presenciar a revitalização do turismo, chegando a superar dias melhores do passado. Daniel estava realizado. Seu trabalho á frente dos negócios da família era um sucesso, não só administrou, como aumentou a produção para atender novos contratos. Conseguia com muita dedicação conciliar a vida de administrador e maestro da banda.
Seu casamento foi o acontecimento daquele ano na cidade. Melissa estava sempre ao seu lado apoiando suas iniciativas. Na verdade seu grande sonho era ser como ele. Vê-lo no auge seria sua realização. Após dois anos de casados nasceu Ellen, que veio coroar o sucesso em suas vidas.
Os músicos eram pessoas influentes na sociedade local. Pereira tocava o contra baixo. No pistom Léo. Na bateria Juvenal. Entre outros que integravam a banda. Constantemente Melissa ia buscar Daniel quando ensaiava para as apresentações nos finais de semana. Era sempre bem recebida por todos. Às vezes tinha que aguardar o término do ensaio. Daniel notava que Melissa mostrava-se inquieta, ansiosa, apoiava uma mão sobre a outra e não parava de mexê-las, porém ao ouvir algumas músicas se tranqüilizava. Ás vezes o ensaio se estendia por muitas horas e Melissa chegava até a cochilar no banco da praça, mas sempre demonstrando carinho e compreensão. A dedicação da banda atraia o público e aos poucos se tornaram reconhecidos.
Melissa ficou muito doente e sem condições de cuidar de Ellen. Daniel convidou Elizete irmã de Melissa para morar com eles para que pudesse ajudá-los. Infelizmente a evolução da doença levou Melissa á morte. Elizete passou a cuidar da educação de Ellen. Daniel dividiu a administração das fazendas com seus irmãos, pois já estavam formados e podiam ajudá-lo nas tarefas.
Ellen completou cinco anos de idade, acompanhava Daniel em todas as apresentações e já demonstrava talento. Sempre se destacava quando pegava o microfone e começava a cantar. O sucesso da banda trouxe a Serra Negra bons momentos e colhia todos os dividendos de uma boa administração.
Comentava-se que na banda havia uma garotinha que se exibia, com um microfone nas mãos, andando de um lado para outro e cantando de tal maneira que encantava a todos que assistiam as apresentações. A princípio Daniel tentou evitar sua participação, mas acabou concordando quando percebeu seu talento, além da insistência dos músicos que consideravam fundamental a presença de Ellen. Elizete cuidava da menina como se fosse sua filha e a levava para os ensaios. Sentava-se em lugar estratégico, de forma que ficasse de frente com Daniel. Fazia tudo para ser notada. Sempre fora apaixonada por ele apesar de respeitar seu amor por Melissa.
Daniel orientava Ellen. Sua voz era magnífica, cantava com entusiasmo e emoção. A banda fortalecia-se a cada apresentação. Ellen era o destaque da banda. Logo assumiu a condição de estrela.
A banda do maestro Daniel foi o fator predominante para reativar o turismo da cidade. Naquele momento o país passava por turbulências econômicas. A situação financeira era delicada. Os turistas eram cada vez mais disputados por outras cidades que criavam estruturas para atraí-los. As apresentações da banda traziam um público bem diversificado, desde crianças até idosos, mas em especial aos jovens que vinham de todas as partes para ver e ouvir Ellen que apoiada pelos músicos adaptou a música clássica á moderna. Os hotéis faziam reservas com antecedência para as apresentações da orquestra.
Serra Negra fazia parte também do circuito das romarias onde as pessoas faziam caminhadas até o Cristo Redentor, além das romarias dos cavaleiros e boiadeiros. Era comum a visita de motoqueiros de outras cidades e estados, sempre desfilando suas motocicletas modernas e triciclos ornamentados, todos muito exóticos. Centenas deles passeavam na cidade, fazendo um verdadeiro barulho e alvoroço com suas motos. Tinham seu ponto de encontro na praça, onde se reuniam para conversar e exibir suas motos a todos que passassem por ali. Ao retornarem das passeatas os romeiros paravam para assistir a apresentação da banda.
Daniel ficava cada vez mais encantado com sua filha. Sua evolução e dedicação eram tanta que chegara quase a perfeição. Tinha uma voz suave, porém firme. Os ouvintes ficavam extasiados. O maestro percebendo seu potencial passou a exigir ainda mais de Ellen. Tinha a certeza que ela chegaria no auge. Aprimorou seus conhecimentos e afinava sua voz para atingir um timbre apropriado para cada música, aí sim, estaria realizado. Durante o espetáculo, o público ia ao delírio, pois a banda sempre trazia novidades em seu repertório. Havia troca de roupas por várias vezes, sempre adequadas à música e a época. A agitação na cidade era imensa, todos queriam autógrafos e tiravam fotografias.
Daniel era muito rigoroso com a educação de Ellen. Elizete dizia a ele que Ellen precisava de outras atividades, além de cantar e estudar. Não tinha amigas, nunca namorou alguém, estava sempre voltada para ensaios e apresentações. Porém não conseguia convencer o maestro que Ellen necessitava de um tempo para poder viver sua juventude, no entanto Daniel não dava importância ao que Elizete dizia.
Era comum a banda apresentar-se em outras cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Ellen aos dezessete anos já era conhecida. Cantava todos os ritmos, atendia a vários pedidos nas apresentações e sempre surpreendia a todos. Não tinha tempo para namorar. Era constantemente assediada pelos rapazes da cidade e pelos turistas, mas os olhares de seu pai a desencorajava a ter um flerte. Elizete sempre a acompanhava e tinha como ordem não permitir que ela se envolvesse com assuntos que pudessem desvirtuá-la de sua carreira. Por ser apaixonada pelo maestro há muito tempo, concordava, não queria vê-lo contrariado. Procurava agradá-lo cumprindo seus pedidos, com a esperança que ele a notasse.
A cidade estava em alta temporada. As romarias traziam um público diferenciado. Isso exigia um repertório selecionado, além de jogo de luzes, que deixavam o coreto iluminado valorizando-o ainda mais. A noite estava esplendorosa. Ellen cometida de grande emoção estava radiante e superava todas as expectativas. O público estava deslumbrado. Todos concentrados acompanhando o espetáculo. Dezenas de motoqueiros entraram na cidade desfilando suas poderosas máquinas. Ao passar pelo local, observaram uma iluminação diferente.
Naquele momento apenas a iluminação colorida do coreto. O grupo de motoqueiros era liderado por um jovem destemido. Gesticulou aos demais que desligassem os motores, pois todos já olhavam com certo desagrado, afinal o barulho dos motores atrapalhava aquele momento. Os rapazes desceram de suas motos, todos com roupas características e apropriadas, calças e jaquetas pretas em couro, capacetes e várias correntes que usavam como acessórios e ornamentos. Rodrigo o líder do grupo ia á frente abrindo caminho, tirou seu capacete, ajeitava com os dedos os cabelos para trás e foi em direção ao coreto. Já eram quase 23:00 horas. O maestro dava os sinais. A banda entrou com todo seu resplendor.
O show atingia seu melhor momento. A música tocava os corações e envolvia o grande público. Um foco de luz iluminou somente Ellen, que estava ajoelhada e ergueu-se lentamente. Usava um vestido branco colado ao corpo marcando sua silhueta e começou a cantar. A platéia emocionada aplaudia, assobiava e cantava, tentando acompanhá-la. Rodrigo e seus companheiros aproximaram-se do coreto. Ao vê-la ficou deslumbrado com sua beleza. Ellen continuava cantando, passava os olhos sobre o público acenando e agradecendo as manifestações de carinho que recebia, foi quando olhou para aquele rapaz, bonito, alto, moreno, cabelos fartos, olhar penetrante e envolvente. Os olhares se cruzaram. Ellen sentiu um arrepio que percorreu todo seu corpo, encheu os pulmões e cantou como nunca. Naquele momento cantava somente para Rodrigo, esqueceu-se por alguns segundos dos admiradores que estavam presentes. Não conseguia tirar os olhos do rapaz e envolvida pela emoção, conseguiu atingir o timbre de voz que seu pai tanto queria.
Daniel regia a banda e percebeu que sua filha tinha conseguido chegar ao ponto tão esperado, emocionou-se quase parou de comandar os músicos, teve ímpetos de correr e abraçá-la. Fazia-lhe sinais para parabenizá-la, mas percebeu que não conseguia chamar a sua atenção, acompanhou seu olhar que estava parado em Rodrigo. O maestro percebeu logo, que sua filha estava correspondendo à atenção daquele motoqueiro, a fascinação dela pelo rapaz era evidente. Daniel não queria que ela se envolvesse com qualquer pessoa, temia que comprometesse sua carreira.
O show continuava. Ellen cantava demonstrando uma alegria que contagiava a todos. A festa estava maravilhosa, todos estavam encantados. Sem dúvida, fora o melhor espetáculo de Serra Negra. No final da festa quando todos começaram a se recolher e voltarem para suas casas algumas moças saíram nas garupas das motos até o mirante do Cristo Redentor. Ellen foi abordada por Rodrigo, que com poucas palavras a convenceu a dar um rápido passeio para conhecerem-se melhor.
Encantada com aquele jovem, pela primeira vez resolveu sair sem dar satisfações. Atendeu ao chamado do rapaz, subiu na garupa da moto e foram ao encontro dos outros motoqueiros que estavam no ponto mais alto da cidade. Ellen estava deslumbrada com o rapaz, ele era bonito, simpático, gentil, e experiente galanteador. Apaixonara-se perdidamente por ele. Amor a primeira vista.
Voltou para casa já ao amanhecer. Daniel estava furioso. Já havia brigado com Elizete, por não tê-la acompanhado e se descuidado permitindo que ela saísse sem ser vista. Quando Ellen entrou em casa, Daniel totalmente descontrolado deu-lhe uma surra, não lhe dando a oportunidade de defesa. Elizete tentava acalmá-lo, mas também foi violentamente espancada. Ellen com ferimentos pelo corpo, inconformada e revoltada com a atitude do pai, saiu correndo pela rua e encontrou Rodrigo que estava na praça com os amigos, que vendo o seu estado colocou-a na garupa e fugiram da cidade.
Partiram para o Rio de Janeiro, onde Rodrigo morava. A partir desse momento as coisas começaram a mudar. A banda já não tinha sua maior estrela. Aos poucos o público foi se afastando. Foram contratadas outras cantoras, mas devido às exigências do maestro, terminavam sempre em conflitos. A morte de um dos integrantes comprometeu ainda mais a qualidade do espetáculo. A banda sofreu o desinteresse do público e com o desanimo dos músicos, desde a saída de Ellen.
Além disso, Daniel sempre apoiava os candidatos favoritos á prefeitura, porém desta vez seu candidato perdeu a eleição. O atual prefeito criou um clima de rivalidade. Ao assumir o poder, em seu discurso disse que acabaria com os desperdícios e investiria somente no social. A primeira verba que eliminou foi a da contratação dos músicos. Depois desta atitude da prefeitura e com a crise que se abatia no setor turístico, a banda desmotivada e sem apoio se desintegrou. Daniel sentia-se arrasado Sua vida não tinha mais sentido. Não tinha interesse em voltar para a fazenda, que há muito tempo era administrada por seus irmãos.
Apesar de desiludido, ao poucos Daniel organizou uma nova banda com alguns dos antigos componentes. Ensaiavam no coreto da praça praticamente abandonado pela prefeitura e pelo vandalismo. Tocavam em festas de aniversários ou casamentos. Culpava Ellen pela infelicidade que se abateu sobre sua vida, pois se ela não tivesse deixado a banda, com certeza, muitas crises teriam sido facilmente contornadas. Ellen tirou-lhe a esperança de se apresentarem em grandes palcos e serem muito mais reconhecidos.
Recebeu notícias sobre Ellen de alguns conhecidos que foram até o Rio de Janeiro. Soube que ela cantava em bares e boates. Ellen escrevia esporadicamente. Daniel dava pouca importância ás cartas, nem mesmo as lia. Soube por Elizete que ela estava grávida e em breve teria um filho, depois nunca mais teve notícias. Ainda sentia rancor e não quis saber sobre seu neto.
Nasceu Otávio. Ellen o chamava de Tavinho. Nascera com problemas de saúde, era um autista. Não falava, tinha um olhar parado, era voltado unicamente para seu mundo, não reagia a qualquer atitude, nem mesmo de sua mãe. Ellen só conseguia despertar a atenção de Tavinho quando cantava algumas músicas que apresentava no coreto, naquele instante parecia ser normal. O menino gostava de ouvir quando a mãe cantava, Ellen percebia que se tranqüilizava. Ela por sua vez revivia os tempos de glória. Rodrigo ao saber do problema da criança os abandonou, deixando Ellen em situação difícil. Para conseguir manter o tratamento de Tavinho, Ellen trabalhava de dia e a noite cantava nas boates. Devido á vida desregrada, ficou debilitada, adoeceu e teve que ser internada. Seu estado de saúde era delicado, teria que passar por um tratamento médico rigoroso e não haveria condições de cuidar do menino. Pediu a uma conhecida que levasse Tavinho até Serra Negra e o entregasse a Elizete.
Elizete recebeu o menino, juntamente com uma carta onde descrevia o estado de saúde de Ellen da impossibilidade de cuidar de Tavinho que precisava de muita atenção e cuidados médicos. Daniel ficou furioso. Não conseguira perdoar sua filha e ainda teria que cuidar de uma criança com problemas.
Elizete percebendo a situação tomou frente e comprometeu-se a cuidar do menino até que Ellen se recuperasse. Mesmo contra vontade de Daniel, iniciou o tratamento terapêutico receitado pelos médicos, além de um tratamento complementar com banhos de imersão e fisioterapias. Tavinho completava doze anos de idade, seu tratamento estava dando resultados positivos, ele já demonstrava novas reações. Gostava de andar pela casa do avô e não podia ver nenhum instrumento musical que logo queria mexer, porém era sempre impedido. Daniel não permitia que ninguém colocasse às mãos em seus instrumentos musicais. Tavinho reagia gritando e esperneando. O maestro ficava irritado e ia para a praça em frente de sua casa, sentava-se nos bancos e comentava com seus velhos amigos a triste condição que estava vivendo. Não podia mais reger uma banda e nem tocar seus instrumentos, pois o menino sempre estava por perto e isso o aborrecia.
Daniel e sua equipe reuniam-se todos os sábados à tarde e ficavam ensaiando horas, tocando e cantado, caso surgisse algum convite teriam que estar preparados para apresentar-se. Tavinho ficava na janela da casa olhando seu avô, quando ouvia a música, também ia para a praça e sentava-se na grama para ouvir mais de perto. O maestro fingia que não o via. Seus amigos não perdiam a oportunidade de fazer comentários jocosos, faziam brincadeiras de mau gosto, chamavam-no de “ bobinho”, não respeitavam a sua doença e estas atitudes irritavam ainda mais o maestro, que por várias vezes abandonou o ensaio e voltou para casa trancando-se no quarto. Tavinho o seguia e sentava-se em frente da porta do quarto de Daniel, até que ele resolvesse sair. Elizete sofria com tanto desprezo e rezava para que alguma coisa pudesse acontecer.
Certa ocasião, o maestro recebeu uma carta para apresentar-se numa grande festa numa cidade vizinha, reuniu seus músicos no coreto da praça. Havia deixado ordens explícitas para que Elizete não deixasse Tavinho sair do quarto, enquanto eles ensaiavam.
Na tarde de sábado algumas pessoas ao vê-los reunidos ensaiando aproximaram-se e acompanharam algumas músicas, relembrando o passado, alguns moradores solicitavam que eles tocassem as mais famosas da banda. Daniel tentava evitar qualquer música que lembrasse sua filha. Tavinho percebendo aquele movimento e ouvindo as músicas, aproveitou um cochilo de Elizete e saiu para rua em direção à praça. Um antigo freqüentador das apresentações, solicitou que tocassem uma determinada música, coincidentemente era a que Ellen mais gostava. Daniel mesmo contrariado iniciou o comando. A música era entoada suavemente, as pessoas ali presentes se emocionaram. Ao ouvi-la Tavinho identificou que era a música que sua mãe lhe cantava desde pequeno, seguiu em direção ao coreto com lágrimas nos olhos, subiu a escada, enquanto todos o observavam. O maestro notou que o menino se aproximava. Virou-se de costas e continuou a tocar seu instrumento. Tavinho puxou-o pelo bolso da calça e pela primeira vez o chamou:
-“Vô”. Oi vô!!.
Todos ficaram perplexos. O menino não falava nenhuma palavra, porém ao ouvir aquela música despertou para a vida e dizia que queria cantar a música de sua mãe. Os integrantes da banda entreolharam-se e continuaram a tocar seus instrumentos, Tavinho começou a cantar. Cantou a música inteira, com tanta emoção, com uma voz que ninguém jamais ouviu. Ele tinha o timbre de voz que o maestro sempre exigiu de sua filha. Incrédulo com o que estava vendo, Daniel pediu para que todos parassem de tocar. Entre o sentimento de repulsa e o amor, deixou que a emoção falasse mais alto, abraçou fortemente seu neto, olhou-o nos olhos e chorando pediu perdão ao menino na frente de todas as pessoas que assistiam aquela cena. Após instantes de emoção e alegria, começaram a tocar novamente a música que ele pediu. Tavinho com certa dificuldade de apoiar-se cantou suavemente, como se tivesse o dom de flutuar. A sua voz era magnífica. As pessoas impressionadas com aquele fato diziam ser um milagre. Somente Deus e aquela música puderam trazer a vida áquele menino. Elizete ao vê-lo abraçou-o e beijou-o, sempre acreditou em sua cura.
A partir deste momento, Tavinho passou a ter uma vida quase normal, freqüentava escola especial e continuava o tratamento já com ótimos resultados. Passou a freqüentar o coreto sempre acompanhado de seu avô e fazer parte do conjunto. Sua façanha logo se espalhou por toda parte. A notícia que um “autista” estava cantando como astro principal de uma banda, trouxe multidões curiosas para assistir ao espetáculo do menino, levando o público ao delírio, lembrando sua mãe nos bons tempos de Serra Negra. O sucesso revitalizou. O maestro e sua banda que com apoio do novo prefeito, recuperou o coreto e iniciou atividades semanais com apresentação da nova banda, que tinha em seu repertório todas as músicas que Ellen cantava. Era visível a saudade que Tavinho sentia e o amor que nutria por sua querida mãe ao oferecer –lhe as músicas que cantava.
Ellen ainda estava internada numa clínica de recuperação. Recebeu de uma enfermeira um encarte contendo todas as cidades turísticas do estado de São Paulo que tinham banhos com águas medicinais, para ajudar nas curas da várias doenças. Ao folhear interessou-se a ler sobre sua cidade, Serra Negra. O Folheto trazia informações sobre o balneário e dava destaque as apresentações de final de semana da banda do Maestro Daniel que tocava no coreto da praça.
Ellen não acreditava no que lia. Viu a fotografia da banda. Trazia a sua frente um cantor, Tavinho. Ellen gritava de emoção. A enfermeira correu até ela para atendê-la, emocionada Ellen chorava dizendo ser seu filho.
- Vejam, é Tavinho, ele está curado. É o cantor da banda.
Todos os internos da clínica que sabiam de seu drama ficaram emocionados. Após uma imediata melhora em seu estado teve alta e partiu para Serra Negra. Pegou o primeiro ônibus e adentrou a cidade por volta das 21:00 horas do sábado. A multidão cercava o coreto. Uma grande platéia acompanhava a interpretação do jovem cantor conduzido pelo velho maestro orgulhoso de seu neto. Daniel sabia que Elizete teve grande participação na cura de Tavinho, pediu-a em casamento e reservava para ela o melhor lugar do coreto para assistir ao espetáculo.
Ellen ao passar em frente à praça viu o coreto iluminado, pediu para o motorista que a deixasse ali mesmo. Desceu com duas malas, foi pedindo licença e abrindo caminho em direção ao centro do coreto. Várias pessoas ali presentes a reconheceram e começaram a aplaudi-la. Tavinho cantava neste momento a sua música preferida. Ao olhar para baixo, á viu. Ela não conseguiu andar, ficou estática. Daniel emocionado ao vê-la, gesticulou para que ela subisse ao palco.
Ao recebê-la passou a reger a banda com mais eloqüência. Todos emocionados escutavam uma bela música pelas vozes mais bonitas e afinadas que já ouviram. E com certeza jamais se esquecerão, ao presenciarem aquele cenário de reencontro dos três talentos numa única e inseparável família.
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