PARAQUEDISTA
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Éramos pequenos, tínhamos 05 ou 06 anos. Domingo à tarde. Eu e meu amiguinho Alex viajávamos no banco traseiro do belo carro de seus pais, Dr. Milton e sua esposa Fátima. Casal romântico. Conversavam durante toda a viagem, entre um beijo e outro, falavam de seus projetos de montar uma rede de clínicas odontológicas, e das coisas que pretendiam realizar, também comentavam das pessoas que certamente seriam favorecidas. Eu ouvia esses comentários, e apesar de muito pequeno interrompia a conversa para dar sugestões. Eles as recebiam com certo carinho, às vezes até as acatavam, e eu ficava todo orgulhoso. Dr. Milton tinha o respeito de toda vizinhança, era considerado o melhor dentista da região, para os mais carentes oferecia tratamento mais barato, aproveitava a mão de obra dos alunos de odontologia como estagiários, era um estímulo para eles praticarem e adquirirem experiência.
Fátima vibrava com as atitudes do marido, apoiava todas suas idéias, participava e dava sugestões. Era conhecida no bairro como a mulher mais apaixonada que se tinha visto. As vizinhas diziam que um homem como Dr. Milton, bonito, sensível e inteligente, é de deixar qualquer mulher apaixonada.
O carro dele era novo, veloz, macio. Gostávamos de passear nos finais de semana. Eles tinham uma chácara na região de Boituva. D. Fátima sempre me convidava para os passeios para fazer companhia a Alex. Conheci a família através de minha mãe. Contava-me que quando nasci, ela não tinha leite para me amamentar, mas uma senhora que tinha dado a luz naqueles dias, por intermédio de uma assistente social da paróquia, começou mandar todos os dias duas mamadeiras de leite materno. Era Dona Fátima, ela pedia que não comentasse com ninguém, nem mesmo ao Dr. Milton, que com certeza não iria se importar, mas não queria publicidade, uma vez que toda a comunidade sabia que o casal tinha feito tratamento para que ela engravidasse, tratamento esse que durou aproximadamente dois anos. Dr. Milton tinha uma verdadeira obsessão por ter um filho, casado a mais de doze anos, já tinha perdido as esperanças. Neste período, o casamento passava por uma crise e uma certa desconfiança, porém tudo passou, a paz e o amor se restabeleceram. Nasceu Alexandre, o Alex para os amiguinhos. Menino inteligente e inquieto. Na escola era chamado de formiguinha, estava sempre aprontando alguma arte. A professora não conseguia segurá-lo e sempre chamava seus pais. Meu nome é Christian, conhecido e chamado por Chris. Fui registrado somente com o nome da minha mãe, ela sempre dizia que meu pai foi embora, mas um dia iria voltar.
Certa tarde eu e Alex fomos brincar.Ele tinha de tudo. Mostrava-me o consultório de seu pai que tinha na sala da frente para atendimento para casos de emergência. Dr. Milton tinha outro mais moderno no bairro da Penha. Eu ficava encantado com aqueles objetos esquisitos, motores, agulhas, máquinas com fios que se entrelaçaram e giravam numas rondainas e faziam um barulho enlouquecedor. Eu amava tudo aquilo, mas Alex odiava e dizia que o sonho de seu pai era vê-lo como um dentista, assim como ele, e que tomasse conta no futuro de suas clínicas. A viagem de final de semana para chácara continuava. Para Alex era um tédio, para mim era a glória. Passeava de carro, brincava, nadava, jogava bola entre outras brincadeiras. E na volta vínhamos comendo guloseimas e sujando todo o carro, Dona Fátima percebia tudo, mas fingia não ver, e ainda nos oferecia outros petiscos. O comportamento de Alex mudava quando passávamos em frente ao Centro de Pára-quedismo de Boituva, era a única oportunidade de vê-lo em silëncio. Olhava o céu e ficava encantado com aqueles homens que dominavam o ar, voando e flutuando. Alex ficava deslumbrado com as cores daqueles pára-quedas e não cansava de admirar tanta beleza, com os olhos brilhando dizia que um dia faria como eles. Quando Dr. Milton ouvia este comentário ficava bravo. E dizia que aquilo era coisa de quem não têm juízo, eram filhos desajustados que não pensavam em seus pais. Queria que Alex fosse doutor e comandaria uma rede de clínicas, seria um homem bem sucedido.
O carro ganhava velocidade, fomos para a janela do lado e continuávamos olhando para o céu, pelo pára-brisa traseiro. Muitos pára-quedistas, de todas as cores, desciam em direção ao chão suavemente.
O tempo passou, fui estudar em escola pública de excelente conceito, tive a oportunidade de conhecer vários amigos. Alex, apesar de nossa diferença social agora mais acentuada, não me abandonava. Dr Milton já possuía mais de cinco clínicas espalhadas por toda a cidade. Descobrimos a vida juntos. As primeiras namoradas, os primeiros beijos, Alex mais esperto, sempre vinha com histórias mais picantes e efervescentes. Ficávamos excitados, porém tudo era ingenuidade de dois adolescentes. Aos 15 anos de idade fui surpreendido por um convite de Alex para irmos até Santos passar nossas férias. Ficaríamos em sua casa de praia. Porém o convite era diferente dos outros. Íamos conhecer uma escola de pára-quedistas. Meus olhos encheram de lágrimas, era como se pressentisse algo, não sabia o que responder, em poucos segundos, a minha vida e a dele passaram em minha mente. Ele tinha o pai mais amoroso que eu já tinha visto, uma mãe dedicada à família, tendo como regra de vida a união a todo preço. Eles tinham um conceito muito elevado sobre minha conduta, consideravam que eu era uma boa companhia para Alex, pois participávamos juntos de todas atividades escolares e sociais, estávamos sempre a disposição, passando uma imagem de companheirismo. Preocupava-me com minha mãe, o que iria pensar? Sempre que saia de casa para me encontrar com Alex recebia uma centena de recomendações. Ouvi tantas vezes ela conversando com D. Fátima sobre o quanto éramos unidos, mas ficavam tranqüilos quando estávamos juntos, acreditavam que teríamos um belo futuro. Minha mãe, nunca teve oportunidade de estar com Dr. Milton, porém sabia que ele tinha traçado um futuro brilhante para seu filho e sabia que se continuássemos amigos com certeza seria gratificado, pois logo que formados teríamos emprego garantido nas clínicas.
Senti naquele momento tudo ruir, era a primeira vez que estaríamos fazendo algo de errado, e contrariando tudo aquilo que eles acreditavam, mas eu não podia abandonar Alex, o brilho nos seus olhos não me permitiu negar o pedido, e viajamos. Passamos as férias de julho. Na escola de paraquesdismo várias aulas foram ministradas por instrutores pouco simpáticos e pouco pacientes, não nos exigiram nada. Documentos nem pensar. Somente o dinheiro, prometendo que em 30 dias Alex já estaria saltando, bastava que freqüentasse as aulas todos os dias e foi o que aconteceu. Alex estava radiante, daria seu primeiro salto.
O ronco dos motores anunciava a realização de um sonho. Eu a beira da pista fiquei imóvel, tive um calafrio quando ele decolou do aeroporto de Santos. Podia ver Alex acenando, senti muito orgulho dele naquele momento, pois ele corria atrás dos seus objetivos, era muito corajoso. O avião atingiu a altura determinada, aproximadamente três mil e seiscentos metros. Com um binóculo pude ver o momento exato que realizou o salto, instrutor e aluno num só pára-quedas chamado de salto duplo. Foi lindo, um pouso suave e flutuante. Alex quase desmaiou de emoção. Eu estava eufórico, por alguns segundos pude entender sua satisfação, parecia que podiam realmente controlar o vento, a queda era tão suave que por segundos pairava no ar, como se fosse um pássaro. Porém, tudo podia ter terminado ali, mas não, com sua irreverência e certo que estava preparado, resolveu subir no avião e saltar sozinho, o instrutor questionou achava que ele não estava preparado, mas aceitou uma boa gorjeta que Alex trazia no bolso e concordou, meu coração disparou.
-Você é louco, não vai sozinho! Aqui na pista ouvi dizer que este centro de treinamento é um dos mais perigosos, ele é muito central, prédios por todos os lados, mar à frente, fios de alta tensão cortando toda orla, Alex. Pense em seus pais.
- Não seja bobo. Chris. Isso é seguro você não viu.Tive treinamento o mês todo para esse salto e não vou perder essa oportunidade e meus pais nem precisam saber.
O avião decolou novamente. A imagem era esplendorosa, Alex saltou. O sol dificultava a visão, ele parecia estar sendo acompanhado por uma luz divina, flutuava, porém, estava caindo a duzentos quilômetros por hora, a suavidade e o domínio anteriormente visto deu lugar à apreensão, algo estava saindo errado, os instrutores na pista corriam de um lado para outro, com o rádio de comunicação nas mãos e pareciam desesperados.
Fiquei desorientado, comecei a rezar. Alex não tinha experiência para controlar suas emoções, o pára-quedas desgovernado tirava-o do centro de treinamento, e com uma manobra arriscada conseguiu livrar-se dos prédios, mas ficou preso nos fios de alta tensão todo enrolado e pendurado a mais de cinqüenta metros de altura. Meu coração gelou.
Achei que ele morreria eletrocutado, pedia pelo amor de Deus, que salvassem meu amigo, ele não podia morrer.
O tumulto foi grande, muita correria, até que chegou o corpo de bombeiros e após um árduo trabalho, conseguiram retirá-lo com pequenos arranhões. Assustado Alex dizia que não iria mais saltar, era muito perigoso. Apesar da violência do acidente, só houve cobertura da imprensa local, e seus pais não ficaram sabendo. Mas serviu para as autoridades locais fecharem a escola de pára-quedismo, pois funcionava há anos sem autorização e sem pessoas qualificadas.
Tínhamos interesse no serviço militar, quando chegou a época, Alex me convenceu a nos alistarmos na aeronáutica, fiquei desconfiado, perguntei se tivera alguma recaída.
- Claro que não, porém posso ficar perto dos aviões e vê-los decolar, essa é minha paixão Chris, e sem dúvida será muito interessante observar aqueles homens corajosos saltar de pára-quedas. Fiquei apreensivo com aquele comentário, mas logo passou.Éramos agora homens, 18 anos, l.80 de altura, fortes, éramos muito semelhantes e muitas coisas em comum. Alex usava bigode e cavanhaque desde a adolescência, dizia que era para ser respeitado pelo outros rapazes que nos chamavam de “carinhas bonitas” e isso o incomodava, mas eu não me importava, tentei deixar o cavanhaque, mas era impossível manter aqueles pelos no rosto e definitivamente não insisti mais.
Aguardamos ansiosos pela chamada, e quando recebemos a informação que não serviríamos por excesso de contingente, Alex chorou, não entendi. Saímos e fomos dançar com nossas novas namoradas, não me lembro bem os nomes delas, pois estávamos nos apaixonando sempre e por pouco tempo.
Após o vestibular conseguimos com facilidade uma vaga na universidade de odontologia como o pai de Alex queria. Fiquei muito contente, pois sabia que ao término do curso teria emprego garantido. Alex muito esforçado também se tornou um aluno exemplar. O primeiro ano foi básico, o segundo e terceiro muito puxado, porém as amizades da faculdade começaram a influir no rendimento de Alex. Tentei de todas as formas alertá-lo, mas como era genioso, impulsivo e desafiador não me deu ouvidos. Começou a participar de caminhadas e logo estava envolvido com outros estudantes, era respeitado por sua coragem. Enfrentava todos os tipos de prova, logo estava disputando todas as modalidades de esportes radicais competindo com equipes de outras universidades. Teve vários amores. Ficou cada vez mais conhecido e assediado. Tornou-se quase impossível à convivência com ele, e com passar do tempo começou a ficar sozinho. Era muito audacioso, por ser destemido não gostava de seguir regras de segurança que o esporte exigia, colocando seus amigos em constantes perigos, e após muitos desentendimentos foi excluído da equipe E quando precisou de um amigo, lembrou-se de mim. Procurou-me. Nunca me desrespeitou e sempre que podíamos saíamos juntos. No íntimo eu sabia, que ele tinha chegado num estágio que não tinha mais volta, precisava de emoções fortes e não aceitava mais aquela vida pacata que vivia. D. Fátima me visitou várias vezes Sempre me encontrava estudando, queria saber do paradeiro de Alex, e dizia, que ele estava diferente. Saia de casa e ficava fora por vários dias, não dava retorno às ligações.
Na medida do possível, mesmo não tendo informações sobre seu paradeiro, tentava acalmá-la. Por volta do mês de agosto recebi um telefonema estranho de Alex. Tinha sofrido um acidente e precisava de ajuda, anotei o endereço, mas o recado era claro, eu não poderia avisar seus pais. Chegando no hospital encontrei Alex com as pernas engessadas, tinha voltado a praticar pára-quedismo, contou-me que descia de um pouso suave e flutuante, mas não conseguiu avaliar a velocidade e colocando as pernas de forma imprudente para parar, acompanhado de seus noventa quilos, criando uma forca contrária, chocou-se com o solo causando um forte atrito quebrando-lhe as pernas em várias partes. Procurei o responsável por aquele acidente, mas foi em vão, foram acobertados pelas autoridades locais. A estrutura era precária, comparando com centros mais avançados como Campinas e Boituva, os pára-quedas eram muito antigos, lembravam aqueles dos filmes de guerra do passado, eram redondos parecendo um disco, não tinham freios como os de hoje, e constantemente provocavam acidentes como esse que vitimou Alex.
Tudo veio à tona. Seus pais descobriram, foi uma verdadeira decepção. Eu observava que Dr. Milton andava de um lado para outro, indignado com todo investimento na educação de Alex, teria sido em vão.
D. Fátima rapidamente tomou frente do tratamento. Passou a contar com minha ajuda para quase tudo. Durante o semestre na faculdade, eu levava a matéria para estudarmos juntos e ele só iria comparecer para as provas bimestrais.
O final do ano chegou, conseguimos superar com êxito mais um semestre, estudamos muito para mostrar aos pais de Alex que ele estava recuperado, ele começava a andar. Fazia fisioterapias e todo tratamento indicado para recuperação mais rápida possível.
Aos 23 anos concluímos o ciclo obrigatório para exercemos a nossa profissão e fui convidado junto com outros alunos a fazer estágio nas clínicas de Dr. Milton que estava realizado por ver seu filho formado. Promoveu uma grande festa para Alex, e me convidou para participar, pediu que eu levasse minha mãe, sempre quis que eles se conhecessem, pois com D. Fátima encontrava-se constantemente. Porém ainda não foi dessa vez. Ela trabalhava longe e dependia de várias conduções. Apesar de exercer um cargo importante, ainda não tinha conseguido comprar seu automóvel, pois investia tudo que ganhava no meu estudo e em meu futuro.
As coisas logo começaram a mudar. As clínicas eram um sucesso em toda parte. As comunidades se organizavam e criavam planos de saúde odontológica que atendiam as necessidades dos mais carentes. Dr. Milton e Dona Fátima à frente da empresa se orgulhavam dos resultados. Alex completamente recuperado namorava uma bela jovem, prima de minha namorada. Fazíamos uma parceria que elevava cada vez mais o nome da clínica respeitada por toda sociedade.
Os passeios aos finais de semana para chácara dos pais de Alex agora eram mais difíceis, enquanto eu passeava conhecendo o Brasil quase sempre acompanhado de minha mãe e minha namorada, Alex viajava pelo mundo. E resolveu com o consentimento de seu pai fazer um curso na Inglaterra de pós-graduação de dois anos, e passou-me a responsabilidade de suas tarefas, onde em pouco tempo juntamente com Dona Fátima e seu marido fizemos uma revolução aproveitando todo o conhecimento adquirido na universidade. Passamos a atender empresas, escolas e todos os convênios que se interessassem. Minha mãe agora aposentada resolveu mudar-se para sua cidade no interior de São Paulo, em Águas de Santa Bárbara. E quando veio se despedir dos pais de Alex, novamente não teve a oportunidade de encontrar-se com Dr. Milton, pois estavam viajando para Inglaterra visitando Alex. Mas deixou uma carta agradecendo a confiança que eles estávamos me oferecendo, pois eu tomava conta de toda a empresa.
O tempo passou, Alex voltou, mais forte, mesmo assim com aquele bigode e cavanhaque, falando inglês só para me impressionar, mas enquanto ele estava fora não perdi a oportunidade de fazer um curso e conversamos sem nenhuma dificuldade. Estivemos em lugares que freqüentávamos quando mais jovens. Após algumas horas de revelações fui surpreendido novamente por Alex, ao me informar de tinha realizado mais um sonho, tinha concluído um curso na França e obteve licença para saltar de pára-quedas Fiquei gelado e imóvel. Tentava convencê-lo para deixar essa idéia de lado, Dr. Milton construiu um império para que ele tomasse conta e vivesse a vida toda sem precisar se arriscar.
Alex, dizia que agora tinha todas as informações para um salto com segurança. Teve a oportunidade de conhecer todas as técnicas. Não iria cometer os erros do passado, obteve orientação suficiente para poder executar essas manobras. Dizia que esse esporte tinha um dos menores índices de acidentes, a tecnologia chegou para ajudar a confecção do pára-quedas. Portanto estava falando de segurança, também dizia que os brasileiros eram muito respeitados lá fora quando se falava de salto ao ar livre. E que iria me provar tudo que estava falando na festa BOOGIE DO CARNAVAL, em Boituva , pedia que me tranqüilizasse, pois já havia realizado alguns saltos todos bem sucedidos, mas mesmo assim estaria treinando todos os dias até a chegada do evento.
Dr Milton estava programando uma festa na chácara para este dia e convidaria vários pára-quedistas, me preocupava que ele viesse, a saber, mas Alex dizia que já estava tudo combinado, ninguém falaria nada, eram todos seus amigos seria uma surpresa para eles.
Neste momento revelei á Alex que gostaria de ter a sua coragem, podia ver em seu olhar a alegria de realizar um sonho. O que me preocupava é que quando ele tinha a oportunidade de se mostrar, se deixava levar pela emoção, pelos aplausos, e não obedecia as regras. Pedi a ele que no dia da festa, ficasse muito atento às normas de segurança.Combinamos de nos encontrar às duas horas no centro de pára-quedismo.Eu também faria uma surpresa para Alex. O evento tão esperado em Boituva chegou. Uma multidão estava presente, era domingo de sol forte, pequenas rajadas de vento, porém os instrutores preocupados informavam sempre os cuidados que deveriam tomar quando saltassem, pois uma corrente de vento desde sábado estava presente naquela região. Na chácara de Dr. Milton os convidados saboreavam um bom churrasco. De lá tinham uma visão privilegiada acompanhavam todos os saltos. Foi quando Alex avisou á todos que iria ao centro de treinamento para ver de perto. Seu pai largou tudo e pediu para que ele não fosse. Sua mãe de outro lado não perdeu a oportunidade de pedir para ficar, dizendo para esperar por mim, que estava chegando com minha mãe de Águas de Santa Bárbara, onde passei a semana. Mas Alex, como sempre, não ouviu e disse que nos encontraríamos lá. Pedindo cuidado, D. Fátima beijou-lhe o rosto.
Quando Alex chegou na pista eu já o esperava, deu um grande sorriso.
Ele me disse que eu estava ótimo com bigode e cavanhaque achou interessante, pois ficamos muito parecidos.
Não me importei com os elogios, apressei-me em abraçá-lo e pedi que fizesse um salto tranqüilo e que não se empolgasse com tanta festa e nem com tanta gente. Abracei-o novamente. Ele entrou no avião, o mesmo taxiou na pista, o ronco do motor era muito forte decolou. Alex ficou de pé na janela e acenou despedindo-se de mim, e foi para as alturas como sempre desejou, gostava de voar como um pássaro. Com meu binóculo agora mais possante tive a oportunidade de vê-lo saltar. Devido a potência do aparelho pude perceber sua serenidade e ver seus olhos cobertos por uma máscara, mas mesmo assim podia enxergar que ele estava feliz, lá de cima talvez pudesse ver a multidão, mas com certeza não perdeu a oportunidade de procurar a chácara de seus pais. Queda livre, duzentos quilômetros por hora. Descia como uma pluma, flutuava. Parecia pairar no ar como da primeira vez de acompanhei o seu salto. O sol brilha a sua volta, tudo era perfeito, tinha-o sobre minha mira, uma rajada de vento dobrou seu pára-quedas tornando-o num formato pontiagudo, fazendo com que descesse em queda livre. Da chácara Dr. Milton pode ver, e comentar com outros, sobre o pára-quedas, que poderia estar com problemas.
Todos mesmo a distância, puderam ver o drama daquele jovem, que rapidamente se escondeu atrás das árvores.
D. Fátima preocupada, que pudesse ser algum amigo de Alex, sugeriu que fossem até o local, podiam estar precisando de ajuda.
Ao chegarem na pista a multidão estava alvoroçada, era uma comoção geral, foram recebidos por vizinhos e amigos que estavam participando da festa. Olhares tristes e todos queriam confortá-los, o coração de Dr. Milton apertou não queria pensar no pior. Começou a suar frio, olhava para D. Fátima, e perguntava á ela se Alex não teria desobedecido a eles. Porque todos olhavam para eles, daquela forma, pediu que ficasse ali, iria ver o que havia acontecido. Teve um momento de alivio, e chamou por D. Fátima, dizendo que Alex estava ali, ela correu até sua direção, e perguntou onde estava, ele dizia que estava próximo a maca de salvamento atrás do carro de bombeiros. Achavam que era um amigo de Alex. Correram desesperados. Dr. Milton com passos largos respiração ofegante, mas quase não podia acompanhar Fátima que corria a sua frente. Quando se aproximou, e faltando alguns metros ela parou, ficou muda e paralisada Dr. Milton a alcançou dizia para não desistir, olhando para ele, Fátima, com lágrimas nos olhos pediu para que ele continuasse, ela esperaria ali. Milton deu mais alguns passos aproximando-se e me abraçou, agradecendo a Deus por eu estar vivo. Eu estava em estado de choque, não acreditava no que estava vendo, meu melhor amigo, companheiro, com tanta vitalidade, que gostava de ter emoções fortes, quantas aventuras perigosas superou, agora que utilizava todos as técnicas, fora vítima de uma fatalidade. Em prantos Dr Milton me abraçava e falava coisas que eu não entendia, chamava-me de Alex, percebi neste momento que ele um homem tão experiente, porém sensível, estava me confundido com seu filho, talvez por causa do bigode e do cavanhaque, por um instante pensei, como gostaria de não decepcioná-lo, mas não poderia aumentar o sofrimento.
- Dr. Milton sou Chris.Deixei o bigode e o cavanhaque para fazer uma brincadeira com Alex infelizmente ele se envolveu neste acidente, está morto. Dr, Milton neste momento começou a passar mal, caiu no chão e logo foi atendido por paramedicos e levado a um hospital da cidade. Enquanto viajava na ambulância acompanhado por Fátima, ainda inconformada com a morte de Alex, seu querido filho. Aproveitou o estado de lucidez de Dr. Milton para revelar que sabia que Chris era seu filho também, sabia que ele tivera um romance com uma de suas pacientes, que quando descobriu-se não teve a oportunidade de te contar. Eu te amava muito e como se tornou um pai exemplar. Em todos estes anos de vida você nunca mais me decepcionou, Chris é seu filho, por isso ele e Alex são tão parecidos. Milton em silêncio chorou, e com a voz tremula pediu-lhe perdão. Fátima abraçando-o respondeu-lhe que há muito tempo o havia perdoado. As clínicas passaram a ter o nome de Alex e seu busto de bronze foi instalado no centro da sala de reunião. Dr. Milton recuperado reconheceu a paternidade de Chris e com Fátima ao seu lado continuaram comandando a empresa e Chris assumiu a condição de presidente, dando a sua mãe todo conforto e respaldo financeiro que ela nunca cobrou.
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