PINGO DE GENTE
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Na região de Ribeirão Preto vivíamos o sucesso na plantação da cana-de-açúcar. Vinham trabalhadores de todo país, principalmente do Nordeste para o corte da cana. Existia uma disputa para selecioná-los e transportá-los até as fazendas.Tudo o que envolvia essa cultura gerava riqueza. Os caminhoneiros que transportavam os trabalhadores chamados de bóia-frias ganhavam por viagem e pela quantidade de pessoas que conseguiam levar de uma só vez. Os bóia-frias levavam suas marmitas e alimentavam-se de comida fria, pois não tinham onde esquentá-las na hora do almoço. Às 4:00 horas da manhã começavam as disputas, era comum ver os caminhões lotados atravessando as estradas sem nenhum conforto, comparava-se a um transporte de gado. Caminhões velhos quebravam a todo o momento envolvendo-se em acidentes. A fiscalização era precária, muitos desrespeitavam as leis. Os fazendeiros não se preocupavam com esse detalhe, só queriam vê-los trabalhando e dando lucro. A mecanização nesta época era muito pequena, ficando sobre a responsabilidade do corte manual para os bóia-frias. Entre eles estava Sr Francisco e sua esposa, que há anos vinham trabalhando para sustentar seus cinco filhos. Era uma luta diária, trabalhavam de sol a sol, para conseguir manter a família e pagar os impostos de sua casa, esta herdada de seu pai, que no passado havia adquirido um bom terreno, onde construiu uma casinha humilde, e plantava quase tudo para seu sustento. Filho único, imigrante italiano, casou-se anos mais tarde e tiveram somente um filho, Francisco, que se casou aos 42 anos com Dona Josefa que tinha aproximadamente 35 anos, uma retirante que tinha vindo trabalhar no cultivo e corte da cana.
As dificuldades agravaram-se quando a elite resolveu comprar as casas da rua, onde morava a família de Sr Francisco. Um lugar antes abandonado que em pouco tempo recebeu investimento por parte da prefeitura. A valorização foi imediata, e levou as pessoas mais influentes da região a comprarem as casas velhas e construírem verdadeiras mansões. Em questão de pouco tempo o bairro tornou-se o mais nobre da cidade. Ali morava o prefeito, médicos, artistas, fazendeiros, entre outros Sr. Francisco. Estas pessoas tentaram de todas as formas comprar o seu terreno que era um dos maiores do bairro; possuía uma área de três mil metros quadrados, cobiçado até pela prefeitura. A esposa do prefeito, Dona Dolores vizinha do lado direito, mulher de características marcantes, descendente de espanhóis, tentou por vários anos comprar o terreno com propostas ridículas e mesquinhas, não conseguindo êxito passou a ameaçá-los de desapropriação para a construção de uma praça particular, somente para atender exclusivamente aos moradores daquele bairro, mas na verdade todos estavam de olho na propriedade. Sr.Francisco estava preocupado com a sua situação financeira precária e imposto atrasado, apesar de ter um ótimo pomar com uma variedade enorme de frutos, vinha conseguindo uma renda extra com a plantação de vários tipos de hortaliças, as quais vendia durante os finais de semana com sua carrocinha de mão. Certa noite, ao chegar do trabalho, percebeu que sua plantação estava se estragando, não entendia o que estava acontecendo, mas a verdade é que havia perdido tudo o que plantara. Ficou desesperado e muito preocupado, pois tinha compromissos assumidos para as próximas semanas e contava com a colheita para pagar o que devia. Naquela noite, entristecido, num desabafo com sua esposa deixou que as lágrimas rolassem pelo seu rosto, comentava entre soluços:
- “Eu acho que Deus nos esqueceu! Como é que numa terra dessa, nossa plantação pôde estragar desse modo, se até então sempre foram hortaliças invejadas pelos compradores por sua qualidade”.
Triste, D.Josefa pedia que ele tivesse fé, embora tivesse certeza de que D.Dolores estava envolvida naquela desgraça. Carina ouvia tudo o que a mãe falava, acreditava também que D.Dolores fosse capaz de tamanha malvadeza, mas nada dizia. Ajoelhada de mãos postas, Carina pedia a Deus que desse uma luz e ajudasse seus pais. D.Josefa segurou Sr.Francisco pelas mãos e foram até o quintal. Percorrendo-o observaram um buraco no muro da casa de D.Dolores, o qual vinha despejando a água da chuva, da lavanderia, do quintal e da piscina, isto vinha encharcando o terreno e danificando sua plantação. Questionaram D.Dolores que culpou os meninos pelo buraco. D.Josefa incrédula no que ouvia, dizia para a velha espanhola que seus filhos seriam incapazes de fazer aquele buraco, nem tão pouco, teriam força para cavá-lo, mas D.Dolores continuava responsabilizando as crianças, o que deixou D.Josefa ainda mais nervosa. Carina tentava distrair os menores para não ouvirem a discussão entre as duas. Sr.Francisco depois de escutar tudo o que a velha argumentava, teve a certeza de ser ela a responsável, mas temia por suas crianças que ficavam diariamente sozinhas, então colocou panos quentes no assunto e ele mesmo providenciou o fechamento do buraco. Com o clima favorável e uma terra produtiva o solo recuperou-se e sua plantação em poucas semanas revigorou-se, então voltou a vender suas hortaliças.
Sr. Francisco e D. Josefa caminhavam com toda a família batendo de porta em porta por toda a cidade. Seus cinco filhos seguiam brincando e correndo de um lado para outro. Andavam quilômetros. Aos sábados deixavam Carina por volta das 4:00 horas da manhã no entreposto da prefeitura conhecido como Ceagesp. Caminhões vinham de várias cidades da redondeza trazendo mercadorias para que ali fossem vendidas.
Carina apesar de ter onze anos parecia uma menina de oito, mas com uma desenvoltura de treze. A vida difícil que levava, obrigou-a a amadurecer mais rápido. Cuidava de seus irmãos desde que nasceram. Além dela, outras crianças trabalhavam no Ceagesp. De vez em quando eram obrigadas a saírem correndo, largando todas as mercadorias, pois não tinham licença para trabalhar. Os fiscais os ameaçavam que um dia o “homem da perua” iria pegá-los. Não sabiam do que eles falavam, mas em sua infinita inocência morria de medo. Ao percebê-los, Carina corria largando tudo pelo caminho, chegava em casa chorando pelo prejuízo e por não poder ajudar seus pais.
Para distrair as crianças, Sr. Francisco e Dona Josefa saiam aos domingos á tarde para dar uma volta no bairro e mostrar-lhes a beleza dos casarões. As crianças entre uma mansão e outra, brincavam escolhendo qual a casa mais bonita, pois assim que conseguissem guardar dinheiro, construiriam uma igual a essa ou aquela. Apesar das dificuldades, eles eram muito felizes e as crianças alegravam-se com aqueles momentos de paz e sonho, onde aquela família mantinha-se unida.
Sr Francisco sentia-se envergonhado com tamanho desprezo por parte de seus vizinhos. Morava há anos no bairro. Viu todos construírem suas casas, até trabalhou em algumas das construções, inclusive na casa de D. Dolores, mas por ser pobre e não fazer parte da alta sociedade era discriminado. Sua casa construída há mais de 60 anos no meio do terreno precisava de uma reforma. O telhado estava furado, a parede esburacada e sem pintura. Era um quadro que enojava os vizinhos que tinham como prática de vida não saírem ás ruas, vivendo somente dentro de suas casas. Circulavam apenas de automóveis, deixando as ruas arborizadas totalmente desertas. A única vizinha que se manifestava era D.Dolores, que com segundas intenções induzia as crianças a situações perigosas. Certa vez, Carina ao chegar no quintal, deparou com uma fogueira ao lado da casa, assustada questionou as crianças, que informaram inocentemente que D.Dolores disse-lhes para juntar o lixo e as folhas secas das árvores para fazer uma fogueira e como estava ventando muito, orientou-os a aproximar-se o máximo da parede da casa. Mostrou-lhes uma plantinha que jogadas ao fogo estralavam formando várias estrelinhas, encantados com a brincadeira fizeram a fogueira. Carina de tanto ouvir seus pais citarem as malvadezas de D.Dolores, ficava sempre desconfiada, lembrou-se quando eles comentaram, sobre os arames farpados que D.Dolores mandou colocar no muro de divisa e nas árvores frutíferas que estavam nele encostadas, e como eram altas, as crianças de vez em quando subiam para colher frutos. Guilherme o mais ágil normalmente era quem subia, aproveitava o arame farpado enrolado na árvore e usava-o como degrau, às vezes sofria pequenos arranhões, e lá de cima jogava para os irmãos as mais deliciosas frutas. Daquela altura podia ver D.Dolores olhando para ele, torcendo para que se espatifasse ao chão, mas o pequeno menino num ato de bondade e ingenuidade arriscava-se torcendo seu corpinho para alcançar os melhores frutos e ainda oferecia para ela os melhores que colhia, jogava-os no jardim. D.Dolores ficava irada ao vê-lo são e salvo. Considerava um deboche quando ele lhe oferecia os frutos. D. Josefa ficou furiosa e pediu que ela tirasse o arame, pois seus filhos poderiam machucar-se, além do que as árvores eram deles e estavam em seu quintal.
Também era comum ver entre as frestas das grandes janelas olhares recriminatórios, quando Sr Francisco e Dona Josefa chegavam todas as noites do serviço, sempre trazendo um saquinho de pão. As crianças ficavam em frente de sua casa brincando e esperando por eles. Quando á distância os avistavam, saiam correndo em direção a eles, passavam pelas mansões numa verdadeira algazarra, gritarias, e muita alegria. Várias reclamações do barulho que eles faziam chegavam até Sr Francisco, que não dava muita importância ao fato, revoltando ainda mais os ricos moradores. As crianças com expressão de fome no rosto queriam apenas um pedacinho do pão que eles traziam da padaria onde compravam fiado. O caminhão que os trazia das fazendas parava a quilômetros de sua casa, como não tinham dinheiro para viajar de ônibus, vinham a pé. Apesar do cansaço aguardavam ansiosamente para ver a cena das crianças correndo alegres em busca de atenção e do pãozinho. Sr.Francisco e D.Josefa apostavam qual das crianças chegaria primeiro. Sr.Francisco sempre ganhava. Primeiro chegava Ronaldo, seguido de Emerson e Guilherme logo após a pequena Aline, porém todos protegidos por Carina que também vinha, mas ficava observando os passos dos seus irmãos á frente para que não se machucassem. Era sempre a última a chegar, ficando muitas vezes sem o seu pedacinho de pão tão esperado.
Por ser um bairro nobre, havia várias guaritas com segurança armados que ficavam estrategicamente colocados em pontos previamente definidos, impedindo que pessoas estranhas circulassem pelo local, num projeto ambicioso as ruas, anteriormente largas, foram totalmente fechadas, não permitindo que carros tivessem acesso para atravessar o bairro, formando pequenas ilhas, limitando a passagem somente dos moradores da rua, mas Sr. Francisco e seus filhos tinham passagem livre, fato que aborrecia os moradores, que apesar de criarem dificuldades, não conseguiram evitar que os mesmos pudessem transitar pelo local. Para sua maior segurança pessoal e até para inibir as crianças D.Dolores adquiriu dois grandes cães, para irritar Sr.Francisco e D. Josefa chamava os cães de Ronaldo e Guilherme. Os cães eram a maior preocupação de Carina, pois eram ferozes e ficavam pulando no muro de D. Dolores quando as crianças subiam nas árvores para colher frutos, se caíssem os cães certamente os devorariam.
A situação da família complicou-se com a mudança na economia. O presidente Collor assumiu o governo, tomando medidas extremamente duras com um plano duvidoso. Bloqueou todo o dinheiro disponível em circulação, deixou a população somente com CR$50,00(cruzeiros). O povo aflito começou a enfrentar novas dificuldades.Desemprego em massa, empresas falindo, os fazendeiros sem dinheiro atrasavam os pagamentos. A mão-de-obra para o corte da cana ficou mais seletiva. Os velhos transportadores de bóia-frias apesar da precariedade foram dispensados, ficando em seus lugares aproveitadores sem experiências em condições ainda piores para esse serviço, colocando seus caminhões em péssimo estado de conservação á serviço dos fazendeiros que os contratavam a preços muito baixos. Sr Francisco e D. Josefa, que há semanas vinham tentando arranjar trabalho, sujeitaram-se a contratação de um serviço em outra localidade, aceitando as condições impostas pelo caminhoneiro que lotou a carroceria de homens e mulheres, e saiu pela madrugada em alta velocidade. Cortava caminho, passava em buracos, jogando-os de um lado para outro. Ao entrar na estrada, o motorista divertia-se ao ver pelo retrovisor o sofrimento daqueles trabalhadores. Quando numa curva, ouviu-se os gritos que vinham da carroceria. O caminhão estava sem freios, desceu uma ribanceira, virou por várias vezes. Entre outros, vinte trabalhadores morreram. As enxadas e as pás, que se encontravam na parte inferior da carroceria contribuíram para esta fatalidade tornando-se verdadeiras armas contra os eles. Chegaram os primeiros socorros, muitos feridos foram levados para os hospitais de Ribeirão Preto. O acidente chocou toda a região. Ao amanhecer todos os noticiários de televisão e rádio informavam sobre o desastre. Comentava-se sobre o desrespeito ás leis de transporte. Os corpos foram levados para o necrotério da cidade. O prefeito colocou o saguão da prefeitura á disposição para o velório dos trabalhadores envolvidos no acidente. Logo os nomes foram reconhecidos, entre eles estavam Sr Francisco e D. Josefa.
Carina acordou cedo, preparou o café para as crianças. Durante todo o dia brincaram no quintal. Não souberam do ocorrido, pois não possuíam televisão nem rádio. Apesar de sua pouca idade, Carina observou que no bairro circulava naquele dia um grande volume de automóveis mais do que o normal e que havia muitas pessoas na casa do prefeito e do juiz, que por coincidência eram cunhados. Notou que D. Dolores ao passar de carro deu-lhe um sorriso, abaixou o vidro da janela traseira do automóvel e colocando a cabeça para fora comentou:
- Vocês vão ter que se mudar agora. E continuou a sorrir. Sem entender nada continuou a cuidar de seus irmãos. A noite chegou, brincavam como sempre esperando por seus pais que estavam atrasados, já eram 23:00 horas e nem sinal deles. As crianças já queriam dormir. Aline e Emerson deitaram no colo de Carina e pediram para que ela guardasse um pedacinho do pão, senão Ronaldo e Guilherme comeriam tudo. Após a promessa de Carina que guardaria, eles dormiram ao relento. Carina sentou-se na calçada olhava a distância, na esperança de ver seus pais voltando do trabalho. Mais de meia-noite, as crianças que continuavam fora de casa, viram quando os carros dos moradores que estavam no velório retornavam para suas casas. Todos que passavam por ali olhavam para aquelas crianças, que esperavam o retorno de seus pais, mas ninguém teve a coragem de confortá-los ou mesmo saber se precisavam de alguma coisa. Uma hora da madrugada. Um vigilante da rua avisou a polícia que as crianças continuavam na calçada, e não sabiam ainda do acidente. Logo depois uma viatura parou em frente da casa. Uma policial chamada Josy saiu do carro e pediu para Carina que levasse as crianças para dentro. Todos já estavam dormindo, os policiais ajudaram a levar as crianças e a colocá-los em suas camas. Josy sentou-se, chamou Carina colocando-a em seu colo, perguntou se tinha recebido por parte de algum vizinho à informação sobre um acidente na estrada. A menina não demonstrou nenhuma reação e perguntou sobre seus pais. Apenas comentou sobre as atitudes dos vizinhos que a olharam o dia todo de modo diferente, mas não lhe disseram nada. Josy começou a chorar ao ver que a pequena Carina não sabia do acidente. Enxugou as lágrimas e com voz tremula pediu para que ela a escutasse.
- Seus pais sofreram um acidente e infelizmente faleceram.
Carina ficou muda. Levantou-se lentamente do colo da policial e foi até o quarto das crianças, com ternura acariciou um a um, beijou-os e olhou para Josy que estava na porta, disse-lhe que cuidaria dos irmãozinhos, que ninguém iria separá-los. Apesar de não ter conhecimentos de familiares ela criaria condições para assegurar o futuro dos irmãos. A policial chorava e pedia para que ela aguardasse os funerais, pois o juizado de menores tomaria conta do caso. Carina foi até a porta e despediu-se. Ajoelhou-se e num ato de desespero começou a chorar e pedir a Deus que a ajudasse. O que faria sem seus pais? Como dizer para seus irmãozinhos sobre a morte deles? E num momento de dor e saudade gritou, comprometeu-se naquele momento com seus pais, dizia que eles ficassem tranqüilos, pois ela iria trabalhar para manter a família unida, como eles sempre quiseram.
A imprensa de todo país cobriu o acidente desde o necrotério até o velório. As pessoas influentes vendo tamanha repercussão não perderam a oportunidade de darem entrevistas, ficavam á frente das câmeras de televisão. O prefeito jurava aos quatro cantos que tomaria providências, para que fatos como esses nunca mais ocorressem. As senhoras da sociedade mantinham-se alienadas ao problema, mas ao perceber a aproximação dos repórteres, choravam penalizadas demonstrando uma falsidade notada até pelos telespectadores.
Carina não conseguiu dormir, chorou a noite toda. Quando as crianças acordaram ela informou a todos o que havia acontecido. Ronaldo e Emerson conseguiram compreender, os irmãozinhos mais novos ficaram sem uma definição clara do ocorrido. Carina deu banho em todos, vestiu-os com as melhores roupas e começaram a caminhada até o saguão da prefeitura, onde se velavam os corpos. Vários moradores que saíram com seus automóveis para irem ao mesmo local passaram por eles, mas fingiram não vê-los. O sol já estava muito quente. Aline a mais nova, chamava pela mãe, queria colo. Carina conseguia levá-la por alguns minutos, mas franzina também, não tinha forças para carregá-la. Carina á frente apressava os irmãos, pois precisavam chegar antes do enterro que estava marcado para ás 13:00 horas. Pediram carona, mas ninguém olhava para eles. Conseguiram parar um ônibus, todos entraram e passaram por baixo da roleta, mas o cobrador exigiu que ela pagasse a passagem, como não tinha dinheiro desceram e recomeçaram a caminhada. A cada passo caia uma lágrima, sabia que nunca mais teria o carinho da mãe, a atenção do pai, muito menos aquele saboroso pãozinho que todos os dias traziam com tanto carinho e não poderiam mais andar pelo bairro com eles.
Carina não sabia ler nem escrever, não poderia comercializar o que plantavam sem as instruções de seu pai. Quem iria contar-lhes historinhas para embalar o sono? Com o peito apertado, percebia agora quanta falta eles fariam.
13:00 horas os caixões começaram a serem fechados. O padre rezava as últimas orações acompanhadas de centenas de familiares dos mortos. O local estava lotado. Tudo estava sendo televisionado. Nesse momento o país estava consternado com o fato. Josy havia sido escalada para a segurança no velório, estava aflita. Até aquele momento não tinha visto a pequena Carina e seus irmãos. Passava os olhos por cima da multidão, quando viu a certa distância algumas crianças enfileiradas, esboçando cansaço, que caminhavam lentamente em direção ao velório, reconheceu que eram eles. Josy quebrou o protocolo e saiu. Pediu licença a todos e ordenou para que não fechassem o caixão do Sr. Francisco e Dona Josefa até a chegada das crianças. Eles já estavam próximos e precisavam ver seus pais pela última vez. Apesar do pedido emocionado, houve um pequeno tumulto. As madames cheias de compromissos sociais queriam que terminasse logo e solicitaram que se apressassem, mas Josy tomou frente e não permitiu que tocassem no caixão dos dois. Neste momento, as pessoas que estavam no velório começaram a se afastar, abrindo um corredor. Carina à frente de mãos dadas com seus irmãos caminhava pelo salão. A imprensa filmava as crianças que andavam pelo enorme corredor humano. Carina chorava copiosamente. Josy os guiou em direção ao caixão dos seus pais. Dona Dolores ao perceber tamanha repercussão, com tantas câmeras focalizando as crianças, num ato oportunista, fingiu que chorava, com um lenço próximo ao rosto para esconder sua falsidade. Aproximou-se das crianças tentando demonstrar carinho, esticou o braço para acariciar a pequena Aline. Foi quando Carina percebeu que aquela mulher que tanto criou problemas, que sempre quis vê-los pelas costas e que estava por traz de todas as malvadezas contra eles, estava pela primeira vez em frente a tantas pessoas tentando demonstrar algo, que sabia ser falso. E antes que Dona Dolores pudesse tocar em Aline, Carina virou-se para trás, olhou-a com firmeza e desprezo.
A atitude de Carina praticamente congelou Dona Dolores, que rapidamente retirou seu braço numa atitude de susto. Todos perceberam a hipocrisia. As crianças menores, cansadas, deitaram-se embaixo dos caixões de seus pais. Carina, Ronaldo e Emerson conseguiram olhar e entendiam o que havia acontecido. Carina beijou-os pela última vez e renovou sua promessa á cada um deles, que ficassem tranqüilos, que fossem em paz, pois ela cuidaria de todos e ninguém iriam separá-los.
Aos poucos as vinte urnas funerárias foram levadas em cortejo fúnebre pelas ruas da cidade. Centenas de pessoas iam em direção ao cemitério local que ficava do outro lado da cidade. Carina encostada numa parede segurava seus irmãos esperando que todos saíssem para que eles pudessem acompanhar o cortejo. Quase todos estavam de automóvel e rapidamente esvaziaram o local. Assim como Carina, muitos familiares dos bóia-frias mortos no acidente choravam e não conseguiram transporte para acompanhar o enterro. Carina obstinada começou a sua caminhada. Vários automóveis passaram por eles, mas ninguém teve a sensibilidade de oferecer uma carona até o cemitério, inclusive Dona Dolores que acenou e foi embora. Durante uma hora e meia eles caminharam e finalmente chegaram ao cemitério.Todos já haviam sido enterrados. Carina estava cansada com Aline no colo que chorava de fome e chamava pela mãe. Ronaldo trazia outro, enquanto Emerson andava cambaleando de cansaço. Foram recebidos por Josy, que tinha certeza que a pequena menina chegaria a qualquer momento. Josy pegou Aline no colo e levou-os até a sepultura de seus pais. As crianças ao verem a sepultura começaram a chorar e remexiam a terra na esperança que poder tocá-los, mas foram impedidos por Josy que juntou a todos e rezaram em memória. Depois da despedida, Josy colocou todos no carro da polícia e levou-os para casa.
Uma semana passou sem que as crianças recebessem visitas ou mesmo a atenção dos vizinhos. Alimentaram-se das frutas e verduras que colhiam no quintal, porém já não havia mais nada para comer. O juiz da cidade, irmão de D.Dolores mandou um oficial, com uma citação informando que todos iriam para um orfanato. Carina ficou desesperada, não podia deixar aquilo acontecer, não podiam separá-los. Afinal prometeu a seus pais na hora mais triste de sua vida em cima do caixão, que não permitiria que isso acontecesse. Esbravejou e rasgou o documento, colocando-os para fora de sua casa, dizia que ninguém iria colocar as mãos em seus irmãos. Os vizinhos pela primeira vez, saíram nas calçadas de suas casas, na esperança de vê-los partir, mas foram surpreendidos por aquela atitude da menina que foi recriminada por todos. Carina saiu na calçada de sua casa, olhou para todos e perguntou se eles não tinham nada para fazer. De repente todos entraram para suas casas deixando a rua vazia.
Josy que acompanhava o oficial chamou Carina e informou que cada um iria para um lugar, em virtude da situação de cada orfanato que vivia de doações. A medida tomada pelo governo deixou muita gente sem dinheiro.Os que estavam acostumados a doar deixaram de fazê-los, assim muitas casas que cuidavam de crianças estavam fechando. O juiz da cidade conseguiu uma vaga para cada um e iria distribuí-los, até que um dia pudessem reuni-los em só um orfanato. Carina relutou muito, chorava nos braços de Josy, não podia quebrar a promessa que tinha feito a seus pais. Josy emocionada conseguiu convencer a pequena menina que somente assim eles poderiam sobreviver. Tinham que estudar, ser alimentados, cuidar da saúde, precisavam de roupas e calçados. Seu pai não havia deixado nenhuma pensão. Carina não queria ir, dizia que iria trabalhar, arrumar dinheiro e reunir todos novamente como havia prometido.O juizado de menores havia determinado que cada orfanato iria retirar as crianças, uma de cada vez, porém todas no mesmo dia. Carina não enxergando outra saída, aceitou, abraçou seus irmãos e juntos choraram ao saber que iriam se separar.
No sábado pela manhã, Carina deu banho nas crianças. Vestiu-os com a melhor roupa e nos meninos colocou um boné. Deu o último café com banana frita. Foram para a calçada, sentaram-se e aguardavam que alguém viesse buscá-los. Os vizinhos espiavam para ver as crianças, mas ninguém quis despedir-se deles. Carina, firme, acariciava a pequena Aline que chorava, não queria ir embora. Um carro branco encostou, saiu uma mulher com um documento em mãos e chamou por Emerson. Neste momento ouviram-se gritarias e muito desespero. E ele agarrou as pernas de Carina implorou para não deixar que eles o levassem. Chorando ainda com Aline nos braços, ajoelhou-se, passou as mãos em seu rosto e carinhosamente disse-lhe:
- Psiu, psiu! Você não pode fazer isso, você vai assustar os outros. Preciso que você seja forte, fique tranqüilo, eu vou trabalhar e vou buscá-lo. Um dia vamos nos reunir outra vez. Carina pegou o documento que a mulher trazia e guardou. O pequeno Emerson encheu os pulmões, abraçou seus irmãos, beijou Carina, entrou no carro e abanando o seu boné foi embora. Ronaldo foi o segundo tentou gritar, chorar, mas não conseguiu, a sua voz não saiu, abraçou seus irmãos, entrou no carro e pôs sua cabeça para fora, disse que só estava indo porque Carina prometeu que iria buscá-los e acreditava nisso. Carina não agüentou, correu em sua direção e beijou seu rosto, dizendo a ele que ficasse tranqüilo.
Guilherme ainda muito pequeno queria passear de carro e logo que chegou a sua vez entrou e sorrindo despediu-se de Carina e Aline, tirou também o boné imitando seu irmão e acenou até se perder de vista. Um belo carro preto parou, desceu um homem, chamou por Aline. Ela de tanto chorar nos braços de Carina estava dormindo. Carina ainda tentou acordá-la para despedir-se, mas não conseguiu, colocou-a no banco traseiro, arrumou a sua cabecinha, beijou seu rostinho e no seu ouvido sussurrou:
- Lembre-se da mamãe do papai, do Ronaldo, do Emerson, do Guilherme e de mim. Lembre-se das nossas brincadeiras, dos nossos passeios pelas ruas, quando papai e mamãe trazia o pãozinho e nós corríamos para encontrá-los, nunca se esqueça disso, pois vamos repetir tudo isso outra vez. Aline eu amo todos vocês e novamente vamos correr e brincar todos juntos. Eu prometo.
Uma lágrima caiu do rosto de Aline. Carina fecha a porta do carro e chorando recebe o documento. O carro dá partida, o motorista percebendo a emoção da menina sai lentamente. Carina corre ao seu lado passando suas mãozinhas no vidro olhando Aline dormindo como um anjinho. O carro pega velocidade, Carina cai no chão, fica chorando e acenando, os vizinhos pelas frestas dos portões de suas casas observam, pela primeira vez foi possível ouvir alguns soluços. Carina levantou-se rapidamente, antes que o carro do orfanato viesse buscá-la pegou sua sacolinha e correu em direção a saída do bairro, virou a esquina e desapareceu.
O carro do orfanato parou em frente à casa desceu uma mulher com um documento nas mãos, chamou por Carina, várias vezes. A rua rapidamente ficou repleta de gente, todos saíram de suas casas e aglomeraram-se perto do carro do orfanato. Dona Dolores tomou frente dizendo que Carina havia fugido, desceu pela rua e foi embora, não quis ser internada num orfanato.
Carina conhecia o entreposto da prefeitura, como precisava trabalhar resolveu visitar os boxes, mas não teve sucesso, era muito pequena e ninguém, mesmo sabendo do seu drama quis dar-lhe uma oportunidade, o serviço era pesado, e ela muito franzina poderia machucar-se e complicar a vida de algum comerciante. No entreposto passou por vários dias andando de um lado para outro. Dormia entre caixas de verduras e frutas, outros garotos de rua ficavam ali também e logo passou a fazer parte da turma. Apesar de tudo, lá tinha comida, sanitários e conseguia algum dinheiro pedindo esmolas. Seu único receio era com o “homem da perua” que era temido por todos. Contavam que eles seqüestravam os garotos e nunca mais eram vistos. Carina rezava todas as noites, pedia que seus pais a protegessem, pois precisava ficar ali e arrumar um trabalho, juntar dinheiro e conseguir reunir seus irmãos.
Certa madrugada foi acordada com gritarias e muito choro. Seu coraçãozinho disparou. Um homem forte agarrou-a pelo braço e jogou-a para dentro do carro, onde já se encontravam várias crianças desesperadas e amedrontadas. Logo a perua ficou lotada com quinze crianças de rua, todas amontoadas. Dois homens armados ficaram junto deles, mandaram que ficassem quietos e que ficassem abaixados para que ninguém pudesse vê-los. A perua deu a volta e saiu em disparada aproveitando a escuridão da noite. Carina era a menor de todos, chorava baixinho num canto, pensou que sua vida estava terminando. A viagem durou algumas horas.
O carro entrou numa grande cidade, Carina podia ver mesmo abaixada, muitos prédios, viadutos, ônibus. A perua parou num lugar horrível, eles pegaram três meninos jogaram para fora e seguiram á diante. Num outro lugar perto da linha do trem mais duas crianças foram abandonadas. Debaixo de um grande viaduto deixaram mais três e assim foram deixando-os em lugares distantes um dos outros, separavam amigos e irmãos. Aqueles homens frios e insensíveis sempre que abandonavam as crianças pelas ruas, ameaçava-os que se voltassem seriam severamente castigados. Carina ficou sozinha na perua, tremia de medo, nem imaginava onde iria parar. Assim que os primeiros raios de sol surgiram, a perua estacionou numa grande praça. Carina saiu do carro, foi intimidada e ameaçada a não retornar e nem dizer como havia chegado ali, caso fossem descobertos muita coisa ruim iria acontecer com ela.
Abandonada percebeu que tinha esquecido a bolsinha com os documentos dos registros e dos locais onde seus irmãos estavam internados, começou a gritar e correr atrás da perua. Chorava e pedia para que eles parassem. O motorista olhou pelo retrovisor e viu aquela menina desesperada correndo em sua direção, observou que acenava, como se estivesse pedindo alguma coisa, olhou nos bancos traseiros e viu a bolsa pequena. Orientou aos homens que jogassem para ela. A bolsinha espatifou-se na calçada, espalhando os documentos ao chão. Chorando Carina recolheu um a um, aqueles papéis eram a única ligação que ainda tinha com sua família, juntou tudo, não sabia mais o que fazer, estava no centro de uma grande cidade, sozinha.
Fazia frio, era muito cedo ainda, poucas pessoas andavam pelas ruas, mas percebeu que era observada por uma senhora que se encolhia ao relento, debaixo de panos e folhas de jornal, com certeza teria visto quando a perua a deixou. Dirigiu-se ao seu encontro. Enquanto caminhava a velha senhora virou-se para o outro lado e cobriu-se com um papelão, para não ser importunada. Carina sem malícia aproximou-se, agachou-se, levantou a folha de papelão e olhou para aquela mulher, perguntou se tinha visto o que aconteceu, queria saber onde estava e se ela podia ajudá-la. A mulher com um olhar assustador, falou com uma voz rouca:
- Aqui não se vê e não se fala nada.
Carina começou a chorar. Pedia ajuda, precisava muito falar com alguém, estava morrendo de medo. A mulher por alguns instantes ficou em silêncio olhando para aquele corpinho franzino agachado ao seu lado, tremendo de frio e de medo. Naquele momento sua vontade era de expulsá-la, mas foi acometida por um sentimento de amor, e pediu que esperasse, queria dormir mais um pouco, depois até poderia ouvir o que ela tinha a dizer. Novamente virou-se para o lado, cobriu a cabeça com os jornais e papelão e voltou a dormir. Carina apesar da pouca atenção recebida sentiu uma pequena esperança, mesmo sendo estranha, era alguém com quem iria falar. Afinal era a única pessoa que iria lhe ouvir depois da morte de seus pais. Sentia frio e não tinha dormido a noite toda, deitou-se e sentiu o calor que vinha do corpo da mulher, aproximou-se lentamente, cobriu-se com os restos dos jornais e adormeceu. A velha senhora levantou a cabeça e observou que a menina dormia profundamente, a cobriu com mais folhas, fez um pequeno travesseiro com panos, ajeitou a cabecinha da menina, acariciou seu rosto dizendo:
- Pobre menina! Durma. Você precisa descansar.
Carina acordou por volta de meio-dia, estava sozinha, porém, muitas pessoas passavam por ela, vinham de todos os lados, uma verdadeira confusão, alguns até pulavam por cima dela. Carina levantou, dobrou os jornais e os retalhos cuidadosamente. O papelão serviu de caixa para guardar tudo, formando um grande pacote, quase não conseguia segurá-lo. Saiu procurando a velha senhora, esbarrava em todo mundo e pedia desculpas, caminhava com dificuldade. Alguns meninos de rua percebendo aquela cena, começaram a provocá-la, tentaram roubar aquele pacote, jogaram no chão e espalharam tudo. Carina ficou brava correu atrás dos meninos e novamente recolheu tudo, atrapalhava os pedestres que passavam rapidamente, ouvia alguns palavrões, mas não se intimidou, mesmo não conseguindo arrumar o pacote como da primeira vez, fez um grande embrulho de jornal, papelão e retalhos e novamente começou a procurar pela senhora que a tinha recebido pela manhã. Olhou para um bar próximo, a viu bebendo e sendo importunada por outros mendigos, aproximou-se e a chamou, mas não foi atendida, puxou-a pela saia e dizia que havia guardado seus pertences de dormir para que não estragasse. A velha senhora cercada por outros homens, fingiu não reconhecê-la, demonstrando certa raiva ou revolta pediu para que a menina fosse embora.
Carina insistiu dizendo que guardaria tudo e que traria ao anoitecer. A velha senhora numa atitude inesperada tirou o pacote das mãos de Carina e aos gritos o espalhou pela praça, jogando tudo fora, dizendo que não precisava daquilo para dormir. Carina assustada começou a chorar, novamente recolheu o que pôde e levou para um canto, encolheu-se e ali ficou por várias horas. Ao anoitecer, a velha senhora sentou-se á sua frente a uma pequena distância, nada falou, ficou olhando a menina durante alguns minutos, perguntou seu nome e o que estava fazendo ali, de onde tinha vindo e porque aqueles homens da perua tinham a abandonado. Carina olhou fixamente para ela e começou a contar sua história. A cada passagem a mendiga enxugava os olhos. Ficou emocionada com tanto sofrimento.
Enquanto ouvia Carina, abriu um saco de plástico e tirou um pedaço de pão seco, ofereceu a menina, pois até então não havia comido nada. Carina agradeceu, comeu com gosto, como se fosse uma refeição preparada por sua mãe. Mesmo com a boca cheia continuou a relatar a sua história, disse-lhe que precisava trabalhar, arrumar dinheiro para ter condições de sustentar seus irmãos e reunir novamente sua família. Era uma promessa que tinha feito á seus irmãos que estavam esperando por ela. Abriu a bolsinha e tirou as guias de internações, mostrou de cada um. Falou do Ronaldo, do Guilherme, do Emerson e da pequena Aline, chorando disse que tinha muita saudade deles. Ângela, a mendiga, após ouvir em silêncio o resto do drama narrado por Carina, abraçou-a e apertando-a em seu colo, beijou-a, pediu desculpas diversas vezes por não lhe ter dado atenção e ter jogado as cobertas fora. Carina entre lágrimas e sorrisos mostrou para ela que tinha guardado tudo e que não iriam passar frio durante a noite.
Preocupada com a segurança da menina, arrumou um espaço entre a marquise e um banco junto a parede do jardim da praça, na verdade um buraco, um lugar perfeito para dormir, era pequeno, mas servia para o tamanho de Carina, ali ficaria protegida. Poucas pessoas poderiam vê-la, entraria e sairia sem ser notada, até que pudesse arrumar um local mais confortável.
Ângela sentindo que Carina podia apegar-se a ela, deixou claro que não poderia acompanhar a sua luta, pois estava muito doente e não tinha condições de ajudá-la, que a partir de então teria que lutar pelo seu espaço, e pela sua sobrevivência. Iria apresentar-lhe o líder dos meninos de rua que moravam ali na praça, ele com certeza poderia ajudá-la.
Este líder que Ângela se referia era Ditão, garoto de treze anos forte, mulato, camisa aberta e calça surrada, pés no chão, abandonado desde os seis anos. Enfrentava a vida pedindo esmolas, e furtando pequenas coisas. Sempre acompanhado por mais quatro meninos que faziam parte da turma, era respeitado, e até temido pelos freqüentadores da praça. Apesar dessa fama, não tinha nenhuma ocorrência grave, porém procurava manter uma imagem forte, onde mantinha afastados outros grupos de crianças de rua, entre as regras cada grupo teria seu espaço, e um não invade os pontos do outro. Outra regra é que cada elemento novo teria que ser aceito por seu líder e obedecer a suas ordens, em caso de ser preso, o novo elemento teria que protegê-lo sempre assumindo a culpa no lugar dele.
Carina dormia no buraco arranjado por Ângela, apesar de tudo agora se sentia melhor. Pela manhã antes do nascer do sol, Ditão chutou uma lata fazendo um barulho que assustou a pequena Carina, pois acordou com o som e com a lata caindo sobre seu corpo. Saiu do esconderijo com muito cuidado, questionou-o sobre aquela maneira de acordá-la. Ditão aproximou-se e apresentou-se, foi logo perguntando o que queria, pois não podia perder tempo com meninas. Carina olhou em seus olhos, pediu permissão para ficar naquele lugar que D. Ângela tinha arrumado, pediu-lhe ajuda, pois precisava trabalhar para juntar dinheiro e voltar para casa a fim de reunir sua família outra vez. Ditão, garoto frio, sem esperanças e sem família, a única lei que conhecia era a sua e a da sobrevivência, deixou claro que aquele lugar era de um dos seus companheiros, que havia sido levado para uma clínica de granfinos onde cuidavam de crianças e que nunca mais voltou, porém se ele voltasse Carina precisaria achar outro lugar. Disse-lhe que dentro do esconderijo tinha uma pequena abertura encoberta por uma pedra, que serviria de cofre feita por esse amigo, que poderia usar para guardar as esmolas que ganhasse, e não deveria esquecer-se que metade de tudo que arrecadasse seria dele, somente assim faria parte da turma e seria protegida pelos meninos.
Carina percebeu que não conseguiria nada melhor, sem outra alternativa sujeitou-se aquela humilhação. Estava cercada pelos meninos que a tocavam e até pediam para ela mostrar as partes íntimas de seu corpo para eles. Carina olhou para aqueles pivetes colocou-se em posição de comando e ditou a primeira regra. Queria fazer parte da turma, mas teria que ser tratada com respeito pelo grupo. Ditão, mais experiente, chamou os meninos em uma roda separadamente e baixinho, ordenou que ninguém colocasse a mão na menina, e teriam que protegê-la dos outros. Ângela assistiu a tudo, observou as atitudes firmes da pequena menina, sorriu e piscou para ela, em seguida fez um sinal de positivo com os dedos, deixando claro que estaria por perto se acaso precisasse.
Os dias passaram rapidamente, Carina aprendeu os macetes de viver na rua, pedia esmolas, com seu choro conseguia sempre um bom dinheiro. Tinha um rostinho triste, era muito pequena, passava uma imagem de fragilidade e inocência. Ditão percebeu que a menina saia-se bem. Conseguia arrecadar um volume superior aos outros, fez questão de colocá-la como seu braço direito nas caminhadas diárias. Tinha conseguido passes de metrô com passagem permanente, então a levou para conhecer a cidade de São Paulo de ponta a ponta. Desceram em todas as estações, bairro por bairro, mostrou-lhe os pontos que poderiam trabalhar sem serem importunados. Carina apesar de não saber ler e nem escrever observava tudo, tinha facilidade de gravar lugares e aprendia muito rápido.
Ao voltarem, Ditão convocou á todos para uma reunião nas escadarias da catedral, onde informou que teriam trabalhos para o mês inteiro, haveria passeatas e comício de trabalhadores reivindicando empregos e aumento de salário, era uma ótima oportunidade para conseguirem dinheiro, pois aquela massa humana que se aglomera não prestava muita atenção em seus pertences, o que facilitaria o serviço deles. Carina entendendo que se tratava de roubo, levanta-se e de imediato, coloca-se contrária á aquela ordem. Ditão não querendo encrenca, olhou para os meninos fez um sinal característico, e disse que ela não tinha entendido, iriam apenas pedir e o que arrecadassem seria dividido como sempre. Carina aliviada sentou-se e continuou a ouvir os detalhes do plano. Os meninos adormeceram nas escadarias ao redor de Ditão, que após tanto falar quis saber sobre a vida de Carina. Ela tentou evitar o assunto, mas olhou para Ângela que estava próxima e escutava a conversa, esta fez um sinal para que ela abrisse seu coração e contasse tudo para ele, então, novamente relatou a sua vida. Ditão pela primeira vez deixou algumas lágrimas rolarem pelo seu rosto, emocionado, pegou nas mãos de Carina e disse-lhe que a ajudaria a cumprir a promessa feita aos seus irmãos.
Durante o mês ocorreram assembléias dos bancários, eletricistas, dos metalúrgicos, entre outras categorias, que passavam por situações críticas sem precedentes na história sindical do país. Após os primeiros meses do plano Collor, um arrocho salarial levou para as ruas centenas de trabalhadores que estavam inconformados com o plano. Apesar dessa situação o grupo dos garotos de rua da praça da Sé levou vantagem. Nunca arrecadaram tanto dinheiro, pois apesar da situação caótica da população, sensibilizavam-se com a condição sub-humana que aqueles meninos viviam, e os ajudavam como podiam. Carina continuava repartindo tudo com Ditão, e guardava sua parte no seu cofre improvisado e em pouco tempo já tinha algumas reservas.
Certo dia enquanto conferia seu dinheiro, viu um corre, corre. A polícia havia prendido alguns garotos que circulavam em volta da Caixa Econômica Federal, acusados de roubarem objetos valiosos de pessoas que estavam na fila desde manhã para penhorarem seus pertences com objetivo de levantar algum dinheiro. Carina saiu de seu esconderijo e viu quando Ditão e os outros meninos tentavam fugir da polícia, porém quando viram os cães policiais pararam, e Ditão resolveu se entregar, ela tentou interferir, no entanto, ele olhou sério para ela e balançou a cabeça negativamente, como que pedindo que não fizesse nada. Ela entendeu sua mensagem, olhou para Ângela que vinha em sua direção e a abraçou dizendo que ele logo voltaria. Carina nos braços de Ângela chorava assustada, ao ver aqueles cães iguais aos de D.Dolores, lembrou-se de seus pais, de seus irmãos e a saudade apertou novamente seu coração. Aproveitou o momento de aconchego e disse-lhe que não vinha passando bem ultimamente. Ângela concluiu que talvez fosse a má alimentação, e convidou-a para procurar algo para comer até que os meninos voltassem.
Na manhã seguinte Carina acordou novamente com um barulho de uma lata, seu coração disparou, porém desta vez não conseguiu ficar com raiva, pôs a cabeça para fora e só enxergava as barras da calça de um menino. Deu um grito de alegria saiu rapidamente e deu-lhe um abraço, era Ditão. Ele envergonhado afastou-se um pouco e pediu para que os outros meninos não falassem nada, Carina quis saber o que tinha acontecido no dia anterior, mas ele não quis comentar e disse-lhe que fora um engano, aquelas pessoas que traziam jóias para serem dadas como garantia num empréstimo foram roubadas e os acusaram, mas tudo ficou esclarecido e foram soltos, mas o que importava é que aquele dia seria muito importante, precisavam ficar atentos, pois haveria muita repercussão. O rádio e a televisão estariam presentes, seria a grande chance de conseguir muito dinheiro. Carina ficou curiosa queria saber detalhes sobre a manifestação. Ditão disse ser um assunto desagradável, tratava-se de crianças desaparecidas, e várias vezes por ano as mães reúnem-se aqui nas escadarias da catedral, rezam e chamam atenção das autoridades para este assunto. As mães trazem as fotografias de seus filhos e ficam mostrando para as pessoas na esperança que alguém os reconheça e possa dar notícias deles.
Carina ficou horrorizada, crianças desaparecidas? Mas onde elas estariam? O que estariam fazendo? Será que alguém teria coragem de machucá-los? Enquanto ela mergulhava em seus pensamentos, Ditão assumiu o comando e pediu que se preparassem para à tarde. Seria muito fácil tirar dinheiro daquelas mães carentes e penalizadas com sofrimentos de crianças. Ditão preparou teatralmente cada um de seu grupo, ficavam parecendo ainda mais tristes e famintos, causando aflição até mesmo nas pessoas mais insensíveis. Carina aguardava ansiosamente, aos poucos as mães iam chegando e se aglomerando nas escadarias. A imprensa transmitia discursos, choros, e desmaios. O padre começava a rezar, pedindo ajuda as pessoas. Ditão aproveitou o descuido das mães que deixaram suas bolsas nas escadarias e ficavam de pé erguendo os braços segurando cartazes com as fotos de seus filhos desaparecidos, e então dá a ordem. Os meninos orientados saíam um de cada lado, esticavam as mãos pediam e imploravam. Eles eram olhados com repulsa. As mães estavam muito emocionadas, envolvidas em seus sentimentos de perda e de saudade para enxergar aquelas crianças abandonadas. Eles estavam ali, mas desaparecidos aos olhares da multidão. Carina saiu de seu esconderijo e foi em direção a catedral. Andava devagar, escutava pelo alto falante uma mãe que pedia ajuda para reencontrar o seu filho. Carina aproximou-se delas, não pediu nada, ficou parada olhando fixamente uma a uma das fotos das crianças desaparecidas expostas pelas mães, gravou aqueles rostos como se fosse de seus irmãos e lembrou-se de seus pais que tanto lutou para que eles tivessem uma vida digna, no entanto foram eles que os deixaram. Recordou seus irmãos indo embora, sendo obrigada a separá-los, de repente viu-se no meio daquelas mães com cartazes em mãos, com fotos de seus irmãos e aos gritos acompanhava o coro pedindo que alguém ajudasse a reuni-los, pois para ela também eles estavam desaparecidos.
Naquele momento vivia uma ilusão. Enquanto viajava em seus pensamentos, Ditão reuniu os meninos, que preocupados por não terem conseguido mais dinheiro, preparou um plano para roubar as bolsas deixadas no chão pelas mães enquanto faziam a manifestação nas escadarias. Procuraram por Carina e não a viram, mas tinham que ser rápidos, pois ela poderia tentar impedir o trabalho deles. Iniciou-se uma correria no aglomerado, pegavam quantas bolsas fossem possíveis. As mães logo perceberam a ação dos meninos e começaram uma verdadeira confusão, gritavam pega-ladrão, e um corre- corre. A polícia que estava no local montou rapidamente um esquema para prendê-los. Ditão saiu do meio da confusão com algumas bolsas nas mãos, e viu Carina parada como se estivesse sonhando, olhando o vazio, estava imóvel. Ditão tentou fingir que não a conhecia para não envolvê-la, mas o espírito de união do grupo fez com que ele voltasse e a arrastasse pelo braço. A polícia não teve dificuldades para prendê-los, as mães indignadas quase lincharam os meninos. Angela correu em direção ao policial, seu estado era doentio, começou a tossir, pegou no braço dele e tentou falar que a menina não estava envolvida, mas foi violentamente empurrada e caiu ao chão. Carina vendo aquela cena ficou abalada, mesmo no meio daquela aflição que estava passando conseguiu dar um sorriso para Ângela como se estivesse agradecendo por sua intervenção. Foram levados para uma casa de recuperação. Carina separada dos meninos passou a tarde sendo espancada por outras meninas mais velhas, fora humilhada e impedida de alimentar-se. Agachada num canto de uma cela não podia mover-se, estava machucada.
Durante a noite foi retirada e conduzida para a praça novamente, e outra vez abandonada sem os mínimos cuidados médicos necessários. Ditão e os meninos não tinham sido libertados ainda. Chovia muito, seu esconderijo estava alagado, e provavelmente seu dinheiro estaria perdido, não poderia dormir ali. Ângela vendo o sofrimento de Carina, mesmo sem muita proteção repartiu um pouco do que tinha dividindo suas cobertas, jornal e papelão e pediu para que ela dormisse debaixo da árvore, pois a chuva estava muito forte e chovera durante a noite toda. Lá estaria mais protegida. Carina após passar pelo sofrimento e ser presa pela primeira vez, ser espancada e pegar toda aquela chuva, cobriu-se como pode, rezou e pediu a seus pais que não se esquecessem dela, pediu que lhe dessem forças, estava triste e desanimada, pois tudo que fazia não dava certo, estava cada vez mais longe de seu objetivo. Seus irmãos estavam cada vez mais distantes e ela cada vez mais perdida. Debaixo dos jornais, olhou para o céu nublado, a noite estava muito escura a praça vazia e alagada. Ângela estava toda enrolada, porém distante também, foi ai que Carina percebeu que estava sozinha, não tinha ninguém para protegê-la, chorando adormeceu.
Amanheceu, era cedo e chovia muito ainda, Carina sentia fortes dores, cólicas. Nunca sentira nada igual, pensou ser conseqüência da violência sofrida durante o dia anterior, viu suas roupas manchadas de sangue, parecia uma hemorragia, começou a gritar. Logo as pessoas que passavam para ir ao trabalho perceberam aquela cena, Carina desesperada pedia ajuda, alguns rapazes entendiam o que estava acontecendo e reuniram-se em volta dela com brincadeiras irritantes que chamou a atenção de outros transeuntes que ficaram comovidos com o drama da menina, mas nada fizeram para amenizar o sofrimento. Ângela quando percebeu o que estava acontecendo levantou-se devagar e com dificuldades, caminhou em direção de Carina abrindo caminho, debaixo de chuva, afastando os curiosos, quando chegou perto a abraçou e olhou sobre os ombros de Carina, perguntou aos curiosos se nunca tinham visto uma menina ficar mocinha, se nunca tiveram mãe e irmãs, mandou que fossem embora e a deixassem em paz.
Aos poucos as pessoas dispersaram-se e elas ficaram ali abraçadas no meio da praça em baixo de uma forte chuva, tempo necessário para que Ângela fizesse o papel daquela que o destino não deixou e não deu a oportunidade de informar sobre os segredos da vida, sua mãe. Após ter tomado conhecimento dos fatos, deu um sorriso, e disse para Ângela, que tinha certeza que alguém lá em cima gostava dela, pois colocaram-na para ajudá-la, e agora não era mais uma menininha, e sim uma mocinha, e sua vida a partir de então mudaria, precisaria trabalhar para ter condições de fazer jus a essas mudanças. Ângela contente por ter ajudado também sorriu. Ditão após ser libertado e muito machucado veio ao seu encontro, sentou-se ao seu lado e relatou as noites de torturas que passou, mas logo começaram planejar os próximos trabalhos a serem efetuados. Ao anoitecer reuniram-se em volta do teatro municipal, ali estava sendo apresentada uma ópera, onde toda a arrecadação tinha como objetivo angariar fundos para os orfanatos e hospitais que cuidavam de crianças. Muitos milionários com seus automóveis e motoristas arrogantes, não permitiam que ninguém se aproximasse, desfilavam suas fortunas com jóias e roupas elegantes. Carina desolada perguntava como eles podiam participar de algo tão nobre, e não percebiam o desprezo de tantas crianças passando fome ali fora, querendo apenas uma moedinha para poder comer. Ditão ainda sob os reflexos dos holofotes que anunciava a chegada de mais um ricaço, olhou para Carina e com gestos obscenos disse que eles faziam qualquer coisa para aparecer, mas se tratando de suas famílias, ou da saúde de seus filhos, eram capazes de qualquer brutalidade. Eles não se aproximavam daquelas crianças, era como se sofressem de doenças contagiosas. Revoltados com o destrato resolveram sair dali, pois não conseguiriam nada naquela noite. Carina ficou triste ao ver tanta riqueza em prol de uma causa e seus irmãos em orfanatos tão pobres. Começou a chorar, e comentou que estava morrendo de saudades de seus irmãos que desde que haviam se separado não conseguiu mais falar com eles. Ditão perguntou se ela tinha os telefones de onde eles estavam, Carina que não largava sua bolsinha procurou os papeis da internação, entregou um a um, todos tinham telefones. Ditão prometeu a Carina que ao amanhecer a levaria numa telefônica, para que ela falasse com seus irmãos. Carina não entendia como poderia falar com eles, afinal ela não sabia como funcionava o telefone. Ditão explicou a ela como era, que não se continha de tanta ansiedade.
Na telefônica Ditão discou os números, ao ser atendido pediu para chamar por Ronaldo, disse ser um parente. Conseguiu. Ronaldo estava na linha, Carina ao ouvir sua voz começou a chorar dizia estar com muita saudade, Ronaldo também chorava queria que ela fosse buscá-lo, além da saudade, queria ir embora. Novamente ela pediu que ele tivesse paciência, disse-lhe que estava trabalhando e logo iria buscá-lo. Carina não conseguia descrever a Ditão o que sentia, era uma alegria muito grande em poder falar com eles, mas também uma grande tristeza apertava seu coração. Ditão ligou para o orfanato onde Emerson estava. Ao ouvir a voz de Carina, ele gritou seu nome, perguntou onde estava, como estavam seus irmãos, quase não conseguiam conversar de tanta emoção, choravam muito. Carina aos prantos pediu paciência, disse-lhe que ligaria novamente, despediram-se com a promessa de Carina que em breve estariam juntos. Guilherme nem conseguiu reconhecer a sua voz, perguntou pela mamãe, queria vê-la, estava saudade, estava com fome e iria dormir um pouquinho, aquilo destroçou o coração de Carina que começou a chorar e não conseguiu mais conversar com ele, sentou-se ao chão, não conseguia parar de chorar, Guilherme estava triste, com certeza estava sendo maltratado. Ditão pegou o telefone de sua mão e discou para a casa onde Aline estava internada, mas ninguém se lembrava de uma menina chamada de Aline. Carina ao ouvir aquele comentário levantou-se depressa e retirou fone das mãos de Ditão, começou a perguntar sobre Aline, outras crianças vinham ao telefone cada uma com uma informação diferente. De repente uma voz de uma pessoa mais velha, relatou que tinha uma menina que chegou lá há meses, mas não conseguiu adaptar-se, ficou doente e piorou nos últimos dias. Estava internada num hospital infantil que ficava a uns 150 quilômetros dali. Aquela pessoa dizia que Aline estava muito mal, chamava sempre por sua mãe e seu pai, queria ver a sua Carina. Naquele momento Carina desmaiou. Ditão apressadamente pegou o endereço da cidade e socorreu a menina. Mostrava ser um garoto sensível após as atitudes tomadas e a iniciativa em ajuda-la a reencontrar seus irmãos.
Após a recuperação de Carina, fizeram uma reunião na praça, onde Ditão, Angela e os meninos juntaram todas as economias num sacolinha, e decidiram que Carina iria viajar a até a cidade para visitar sua irmã. Carina não podia acreditar que viria Aline, mas estava super preocupada com ela, não sabia como iria encontrá-la. Quando chegaram na rodoviária numa situação precária não conseguiram comprar a passagem para Carina, além de ser menor de idade, ninguém queria que uma menina suja, mal vestida e até cheirando mal, viajasse num ônibus interestadual. Ela ficou desesperada, foi quando Ditão viu o enorme espaço reservado para bagagem, teve uma idéia. Iriam criar uma situação para distrair a atenção dos responsáveis pela colocação da bagagem para que Carina entrasse no meio delas, e pudesse viajar até a cidade. Armou uma simulação de um pequeno furto e a correria começou em frente ao ônibus. Carina aproveitou e escondeu-se embaixo das malas dentro do bagageiro. Após a confusão o condutor do ônibus fechou a porta. Carina estava assustada, tinha pouca ventilação, era muito apertado e muito quente, estava próxima do motor, rezava para que a viagem não demorasse muito, mas sabia que durariam algumas horas. Ditão nos braços da polícia foi carregado num camburão junto com os outros meninos de seu grupo, viu quando o ônibus parou no farol. O carro da polícia parou ao seu lado, conseguiu ver a porta do bagageiro do ônibus, sabia que ali estava a sua pequena Carina, corajosa e muito determinada. Apesar de presos estavam alegres pois, Carina iria ver a sua irmã, mesmo que fosse pela última vez.
Carina presa em meio a pesadas malas e bolsas, quase não podia respirar, o calor era intenso, à medida que o ônibus se distanciava aumentando sua velocidade o calor ia ficando insuportável, sua situação era desesperadora. Carina agüentou o quanto pôde, mas durante a viagem ficou desequilibrada emocionalmente, e começou a bater nas laterais do ônibus, gritava e pedia ajuda, mas a viagem estava apenas começando, as suas forças estavam sendo consumidas pela falta de oxigênio, calor e desidratação. Além de tudo sentia fome, e desmaiou. O ônibus chegou ao seu itinerário cinco horas depois. Parou várias vezes nos postos espalhados pela estrada, mas não abriram o compartimento de bagagem. Ao retirarem as malas dos passageiros, depararam com uma menina franzina em estado grave, quase sem respiração, parecia estar morta. O motorista desesperado chamou a polícia que rapidamente levaram a pequena Carina para um hospital especializado em crianças da cidade. Os médicos diagnosticaram insuficiência respiratória e desidratação. Foi levada para o centro de terapia intensiva, um lugar que ficavam as crianças em estado grave. O hospital tinha uma estrutura avançada, com um ambiente colorido e agradável com divisórias de plástico transparente, para cada leito. Carina recebeu durante dois dias todos os cuidados necessários, no terceiro dia recuperou a consciência. Eram aproximadamente 02:00 horas da manhã. Havia uma enfermeira sentada do lado de fora do quarto quase cochilando. Carina, consciente estava assustada, lembrou-se do que tinha acontecido, percebeu que estava limpa e com uma roupa branca, além de que cheirava bem, tinha uma agulha em seu braço, com um saquinho pendurado a um poste, ela conseguiu retirar e ao olhar ao seu lado viu uma menina com um tubo no nariz, também agulha no braço, fixou seus olhos naquela pele branquinha, mãos e dedinhos tão perfeitos, ao olhar para o rostinho da menina, seu coração disparou, era a sua pequena Aline. Carina emocionada levantou-se sem chamar atenção da enfermeira e dos outros pacientes que dormiam, dirigiu-se a cama de Aline, acariciou o seu rosto. Arrumou os seus cabelos, pegou sua mãozinha e beijou, encostou sua boca nos ouvidos da pequena Aline, e enquanto falava, suas lágrimas caiam sobre a menina.
- Estou aqui irmãzinha, não me deixe também, volte, preciso de você, eu prometi que iria reunir todos, e você é minha única irmã.Volte eu te amo, lembre-se de quando nós passeávamos com nossos pais pelas ruas de nosso bairro, quando esperávamos a noite chegar para comer o pãozinho que eles traziam do serviço, quando íamos tomar banho e jantar logo para deitar e ouvir as historinhas que papai contava. Lembre-se de quando nossos irmãos queriam ser os super-heróis para nos defender. Não Aline, não me deixe agora. Aline estou aqui, vim para te ver, sei que está me ouvindo. Ainda muito fraca Carina senta-se no chão embaixo da cama de Aline, que numa reação inesperada deixa uma lágrima rolar em seu rosto, começa a se mexer, e sussurra chamando por Carina, e ela chorava e pedia que Deus a ajudasse, ao ouvir a voz da irmã levantou-se e conseguiu ver que Aline tentava abrir os olhos e dar-lhe um sorriso, dizia com a voz bem fraquinha:
- É você, eu estava com tanta saudade, queria tanto te ver, onde vocês foram, cadê mamãe, papai, os meninos, eu fiquei doente, sabe Carina eu estava falando com papai e com mamãe agora, corria em sua direção, mas mamãe pegou-me no colo e pediu que eu voltasse, pois tinha que cuidar de você. Disse que você ainda iria precisar muito de mim, para ajudar nossos irmãos. A enfermeira ouviu vozes e entrou no quarto, viu Carina em pé ao lado de Aline, levou-a para sua cama e em seguida chamou o médico, dizendo que era milagre, a pequena menina havia se recuperado e saia do coma, com certeza iria sobreviver. Carina deitada ao lado sorri para Aline que também dá um longo sorriso e adormece. Na manhã seguinte a recuperação das duas foi notável, ambas estavam em estado normal, retiraram os aparelhos e foram levadas para um quarto, estavam felizes e riam o tempo todo. Quando os médicos descobriram que eram irmãs entenderam o porquê da recuperação quase imediata. Após alguns dias de internação, a responsável pelo orfanato chegou ao hospital para levá-las. Informou a Carina que não poderia ficar, não havia espaço para ela, o orfanato era muito pobre e passava por dificuldades, e estaria providenciando sua remoção para outro local. Aline não desgrudava mais de Carina, que depois da notícia que seria removida, tentou sair escondida a noite levando Aline, mas foram descobertas. Aline foi levada de volta. O portão foi rapidamente fechado deixando Carina do lado de fora, Aline era levada e olhava para traz chorando, pedia por Carina que no meio das grades, chamava por Aline, ela então se solta e corre até Carina que se ajoelha para poder ficar na mesma altura de Aline. A pequenina vendo a irmã ajoelhada imita-a ajoelhando-se também, Carina pegou os bracinhos de Aline, e pediu para ela acreditar, que um dia iria voltar e novamente reuniria a todos. E que ela iria realmente ajudá-la a cuidar deles. Aline desesperada começou a chorar, pedia que Carina não fosse embora, precisava que ela ficasse, dizia que iria sentir muita saudade outra vez, e se fosse iria ficar doente novamente.
- Não chore, Aline alimente-se direito, e prometa que não vai ficar doente, preciso ir para que seu possa trabalhar e juntar dinheiro para podermos viver juntas.
Carina saiu chorando e mesmo ao longe ouviu os gritos de Aline pedindo para ela voltar, para não ir embora. Mesmo sendo tarde, Carina conseguiu comprar a passagem de volta á S.Paulo, como estava bem vestida e tinha dinheiro para comprar a passagem, o condutor fez vistas grossas deixou-a ir. Ao chegar na praça da Sé percebeu algumas mudanças, Ângela não estava e seu esconderijo estava ocupado por um menino, chamou Ditão que correu e a abraçou, dizendo que estava com saudade. Carina com gesto meio grosseiro afastou Ditão e perguntou porque ele tinha colocado outro em seu esconderijo, Ditão sorrindo, pegou-a pela mão, e foi até o lugar, solicitou que o menino acordasse e saísse, pois a dona do lugar tinha retornado. O menino esticou o braço como se estivesse espreguiçando, colocou sua cabeça para fora e com dificuldade saiu. Carina revoltada estava de costas quando o menino pediu desculpas por ter ocupado o seu lugar, na verdade estava cuidando para que ninguém invadisse o lugar que era de sua irmã. Carina ouvindo aquela voz ficou toda arrepiada, virou-se e não podia acreditar que era Ronaldo, seu irmão, abraçaram-se e choraram, sentaram-se e conversaram por muito tempo. Ronaldo disse que Ditão ligou e informou sobre Aline e onde você estava morando, ele fugiu do orfanato, viajou durante dias, chegou na praça da Sé. Foi recebido por Ditão que lhe pediu para cuidar do quarto de Carina, e informou sobre o estado de saúde de Aline e dos seus irmãos. Ângela estava internada num hospital público com pneumonia, desidratação entre outras complicações, e que queria ter informações de sua menina. Logo Carina conseguiu visitá-la e ficou muito preocupada com seu estado de saúde. Ângela precisava de remédios para se recuperar, então reuniu todos os meninos de rua da praça da Sé para trabalhar e arrecadar dinheiro para a compra dos remédios que Ângela iria precisar. Começaram a pedir esmolas no Vale do Anhangabaú com a permissão dos meninos de lá que também entraram na campanha, participaram também os meninos do Viaduto do Chá, da Praça Princesa Isabel entre outros. Conseguiram comprar um saco de dormir impermeável e confortável, e deram de presente para ela, arranjaram um lugar melhor para que pudesse se tratar e não pegar tanta friagem, e teria seus remédios na hora certa. Ângela voltou e se recuperava lentamente.
Certo dia apareceu na praça um automóvel último tipo, com pessoas finíssimas, dois homens e uma mulher que mais parecia um modelo, vestida como se fosse para uma festa, aproveitando um momento de reunião do grupo que decidiram que a partir daquele momento Carina moraria com Ditão, pois o lugar que ele morava era maior e dava para duas pessoas, e deixariam o espaço de Carina para Ronaldo. Os estranhos pediram para falar, mostraram várias fotos de casas com piscinas, playground, salão de jogos, entre outros, disseram que faziam parte de uma organização internacional preocupada com os menores carentes, financiados por homens milionários, de todo o mundo, e que ali eles teriam condições para viver melhor. Ditão não quis ouvir, e disse para Carina e Ronaldo, que foram eles que levaram seu colega a mais de um ano. Questionaram onde ele estava. A moça informou-os que ele estava passando férias em outro estado com todas as mordomias, vivia bem alimentado, assistia televisão, jogava bola, estudava, e tinha outros colegas para se divertir. Carina ficou contente, pois achou que era uma ótima oportunidade para tentar reunir seus irmãos todos numa só casa. Ditão não quis saber, chamou seu grupo e foram embora deixando os três parados no centro da praça de mãos abanando, Carina ainda tentou convencer Ditão que achava aquilo muito esquisito, porque pessoas tão finas se preocupariam com meninos de rua e abandonados.
Os meses se passaram à vida continuava difícil, muita correria, frio, chuva, falta de alimentação, disputa pelos pontos da praça. Ângela ainda muito doente necessitava de atenção, Carina em suas horas de folga ficava ao seu lado, mas precisava trabalhar. Os políticos promoveram uma festa no centro de São Paulo, retiraram todos os mendigos da região central e os levaram para outros bairros, separando momentaneamente o grupo de Ângela. Naquela noite foram novamente abordados pelos três ocupantes do automóvel luxuoso, que vieram com novas informações sobre uma clínica de tratamento para crianças, e que poderia ser estendida para seus parentes. Carina preocupada com Ângela convenceu Ditão e seu irmão a conhecer o local e se fosse bom levariam também os outros meninos. Viajaram até o começo da serra, Ditão conhecia bem o lugar, era num bairro afastado na grande São Paulo. O local realmente era maravilhoso, ficaram ali vários dias, apesar das mordomias eram tratados friamente, ninguém falava com eles. Faziam o que queriam em nenhum momento foram recriminados ou questionados. Era como se não estivessem ali. Essa atitude chamou atenção de Carina que começou a observar melhor o lugar. Ditão a fim de roubar algo, entrava nas salas e revirava as gavetas, abria armários trancados, e como era exper no assunto nada para ele tornava-se difícil. Numa tarde Carina e Ditão entraram numa sala, e numa das procuras Carina encontrou alguns arquivos, percebeu que realmente era um lugar que cuidava de crianças, tinha livros e muitas reportagens sobre elas. Num dos armários tinha um álbum de fotos de crianças de todos os tipos, para Carina alguns rostos pareciam-lhe familiar, tinha a impressão que já vira aquelas crianças, mas não sabia de onde. Achavam estranho o fato de um lugar tão grande como aquele estarem somente os três, sempre que questionavam não obtinham respostas convincentes.
Foram chamados para fazer alguns exames médicos. A intenção era escolher os mais saudáveis. Fizeram um check-up após saírem os resultados foram informados que Carina não poderia continuar ali, somente os meninos. Ditão revoltado não quis ficar, e resolveram que iriam embora. Ronaldo encantado com tanta beleza e mordomia, insistiu para que permanecessem ali. Carina entendendo que era uma ótima oportunidade para ele resolveu deixá-lo. Os que ficassem seriam removidos para outra clínica. Assim Carina e Ditão retornariam para a praça da Sé, que já estava liberada, mas antes acompanharam Ronaldo á uma clínica em uma importante rua dos jardins, era uma bela casa com todos os detalhes para agradar crianças. Lá havia outras crianças brincando e divertindo-se. Ronaldo ficou encantado, Carina não pôde conhecer o local, despediu-se de Ronaldo e ficou no carro junto com Ditão. Após deixá-lo foram levados ao centro e deixados na praça.
Alguns meses se passaram, Carina tinha notícias que Ronaldo estava bem apesar de sentir-se solitário. Percebeu que começou a engordar, não conseguia entender como poderia, com a alimentação precária que tinha. Ângela já muito experiente logo percebeu que Carina estava grávida e numa conversa aberta informou mais uma vez a Carina os segredos da vida, e que em poucos meses seria mãe. Carina ficou revoltada com Ditão, não sabia o que estava fazendo apesar de ter recebido algumas informações de Ângela não tinha medido as conseqüências de uma relação, nem tão pouco entendera bem o que Ângela dissera. Só então entendeu porque tinha sido preterida, após ter feito os exames na clínica, com certeza eles já sabiam que Carina estava grávida e não lhe falaram nada. A cada mês que passava ficava mais difícil andar a sua barriga crescia rapidamente. Tinha o apoio de Ditão e dos meninos, mas não queria que seus irmãos soubessem, então não foi visitá-los. Sua gravidez estava chegando ao final, não tinha mais disposição para nada, queria apenas ficar deitada, sentia-se fatigada, não conseguia andar muito.
Ditão corria pela cidade arrecadando roupas velhas e alguns brinquedos para o menino que iria nascer. Seu primeiro filho. Carina dormia com muita dificuldade, não tinha posição confortável, nem tão pouco uma boa cama, quando despertada por um alto falante, era a segunda reunião daquele ano das mães da praça da Sé. Centenas de mulheres com seus cartazes novamente reivindicando das autoridades medidas para acabar com o sumiço de crianças. Carina mal conseguia levantar a cabeça e ficou somente escutando a cada manifestação, gritos e choros. A televisão dava cobertura a tudo. Os cartazes com as fotos dos garotos eram exibidos como sempre, Carina não conseguiu descansar e com grande esforço levantou-se e caminhou em direção a multidão que assistia as manifestações das mães sofridas pelas perdas de seus filhos. Aproximava-se, quando as mães levantaram as fotos das crianças e rezavam acompanhadas pelo padre da catedral, mas alguma coisa chamou a atenção de Carina, aquelas fotos pareciam-lhe conhecidas, observou com cuidado, reconheceu algumas daquelas crianças, esforçou-se para lembrar de onde. De repente veio-lhe a mente os arquivos, as fotos das crianças na clínica que passaram. Achou que pudesse estar delirando, mas tinha certeza, eram eles. Aquele menino de óculos, a menina de rabinho, o loirinho de olhos claros, o moreninho. Teve a mais absoluta certeza que eram as crianças daquelas fotografias que vira na clínica lá no pé da serra. Carina, na ânsia de dizer que sabia onde eles estavam começou a gritar, pedia que parassem para ouvi-la, pois sabia onde eles estavam.
As mães que nesse momento estavam rezando olharam e a reconheceram, apesar de grávida lembraram que era a menina que fez parte do roubo das bolsas. Todas se abaixaram, recolheram suas bolsas e seguraram com muito cuidado. Carina entra no meio delas e tenta chamar a atenção de todas. As câmeras de televisão dão destaque a ação da menina, isso chamou a atenção dos policiais que começaram a dirigir-se a ela para retirá-la da manifestação. Carina percebeu que não estava sendo ouvida, retirou das mãos de uma mãe o microfone e aos gritos dizia saber onde as crianças estavam. Mas retiraram o microfone dela e a afastaram. De repente, ela dá um grito que soa por todos os cantos da praça. Um grande silêncio toma conta do lugar, todos pararam para ouvi-la, ela dizia que seu irmão estava lá também. Aqueles homens que levaram essas crianças levaram seu irmão. Ela precisava ajudá-lo, havia prometido aos seus pais, que não deixaria que nada acontecesse a ele.
A polícia começou a se interessar pelo caso, a televisão deu maior cobertura. A imprensa rapidamente baseada nas informações de Carina dirigiu-se até o local para averiguações. Carina e Ditão entraram no carro da polícia e foram em direção ao local onde ela dizia ter visto as fotos.
Uma grande correria pelas ruas de São Paulo, os programas sensacionalistas perseguiam o carro da polícia, fazendo fleches diretos, com cobertura para todo país. As mães largaram suas fotos e também numa verdadeira carreata foram em direção ao lugar apontado pela menina. Ao chegarem, a polícia invadiu a casa, e surpreendeu algumas pessoas queimando arquivos e fotos. Porém não conseguiram eliminar todas as provas, e então algumas crianças desaparecidas começaram a serem reconhecidas. Carina sentia fortes dores, contrações de minutos em minutos. Convenceu os policiais a levarem para a clínica onde seu irmão Ronaldo estava. Carina na frente junto com o policial colocou os pés no painel da frente e gritava de dor, mas não queria ir para o hospital ainda, dizia agüentar, pois precisava ver seu irmão. A polícia abriu caminho com as sirenes, solicitou uma ambulância que a acompanhou porque a bolsa havia estourado e logo seu filho iria nascer. Chegou ao local, uma clínica sofisticada conhecida por tratamentos cirúrgicos, com infra-estrutura e com uma tecnologia de ponta, aparelhos de última geração.
Na portaria tentaram impedir a entrada dos policiais, mas foram obrigados a deixarem, Carina à frente empurrava as enfermeiras de plantão, e na sala de cirurgia um segurança tentava impedi-la de prosseguir. Ela foi barrada, mas os policiais com armas em punho deram voz de prisão e prosseguiram. Os médicos que estavam extraindo órgãos de um corpo para transplante pedem cautela para os policiais, para evitarem contaminação, mas são autuados em flagrante. O corpo estava coberto por uma toalha verde, com fitas brancas a sua borda. Carina andava devagar e levantou a toalha, deu um grito e desmaiou. Era Ronaldo que estava ali. Tivera sido vítima da venda de órgãos.
Ao acordar no hospital, havia uma enfermeira ao seu lado, Carina deu-lhe um sorriso, e perguntou se tudo que aconteceu tivera sido um sonho. A enfermeira balança a cabeça e diz que não, mas que ficasse tranqüila, pois tivera uma linda criança forte e saudável. Carina ajudou a desvendar um dos maiores crimes deste país. Vários homens envolvidos em tráfico de crianças, adoção fraudulentas, seqüestros, e principalmente a venda de órgãos humanos, foram presos. Crimes que para atender a interesses de famílias ricas que não pensavam na dor de outros, encomendavam órgãos para tentar salvar a vida dos seus. A imprensa deu como destaque por vários dias a terrível descoberta feita em São Paulo. Várias crianças foram encontradas em países europeus. Outras que foram vendidas para famílias no Brasil e América Latina, numa rede que movia milhões de dólares, principalmente com a venda de órgãos. Carina ao sair do hospital foi recebida na casa de mães solteiras, com a repercussão do caso logo participou de vários programas de televisão onde contava sua história e sofrimento. Todos puderam reviver as cenas do trágico acidente, puderam reconhecer as crianças inocentes cercadas por pessoas estranhas no velório, relembraram os descasos que vitimaram mais vinte bóia-frias.
Carina em rede nacional com seu filho no colo se mostra, abalada pela morte de seu irmão em condições desumanas, inconformada com a separação dos seus irmãos, de forma arbitraria e interesseira, penalizada com os sofrimentos das mães que vêem seus filhos desaparecerem sem explicações, e com pouco interesse das autoridades, mais ainda pela penúria que vivia as crianças que moravam na rua, sem proteção, educação e assistência médica. Cidadãos esses vulneráveis a qualquer tipo de injustiças praticadas aos seres humanos. Suplicou ao governo, e aos organismos que cuidam das crianças, que estudassem um estatuto que viesse proteger a criança e o adolescente. A imprensa comovida com os apelos iniciou uma campanha chamada de “Pingo de Gente” em homenagem a aquela lutadora que venceu os preconceitos e lutou por aquilo que acreditava. Foram até a cidade onde ela morava, procuravam pela casa de Carina, encontraram somente um grande jardim, todo arborizado, cercado, guarita com segurança, impedindo que pessoas estranhas o freqüentassem, como se fosse uma área particular.
Os repórteres entrevistaram o prefeito que informou que era uma área abandonada e que a secretária do meio ambiente, que por uma coincidência do destino era sua esposa, D.Dolores, tinha solicitado a desapropriação e a prefeitura tinha investido milhões para construção da praça, valorizando ainda mais as casas ali construídas. O atual Juiz da cidade após ter sido notificado do ocorrido, determinou á prefeitura a imediata construção de uma casa no local, devido a perdas e danos impostas as crianças. A prefeitura foi condenada também a pagar uma indenização e uma pensão até que o filho menor atingisse a maioridade. O escândalo gerou uma pressão popular levando a demissão da secretária, esposa do prefeito, e seu irmão o antigo juiz que após uma sindicância realizada por ordem do juizado de menores da cidade, apuraram que ela tinha participado da internação das crianças, que após uma manobra ardilosa separou a família, com objetivo de apoderar-se mais facilmente do imóvel e manter afastados dali aquela família pobre que destoava o meio em que viviam. Após da comprovação dos fatos, D. Dolores foi alvo de uma ação condenatória na justiça. O prefeito sofreu uma ação de cassação na câmara por ter desviado verbas para construção de uma praça em lugar reconhecidamente particular. E sobre a guarda da justiça em São Paulo, reuniram-se numa casa de recuperação mantida pelo governo, os irmãos Emerson, Guilherme e a pequena Aline, com Ângela, Ditão e os meninos do grupo.
A partir daquele momento viveriam todos juntos. Ângela abraçou Carina e contou-lhe que Ditão era seu sobrinho, filho de sua irmã que havia desaparecido há muito tempo e que cuidava dele como se fosse seu filho. Confessou que tinha tido uma especial atenção por ela, pois sempre quisera ter uma filha, e Carina por sua vez confessou que via nela a mãe que lhe faltara. Por determinação do Juiz, Ângela passou a ser a responsável pelas crianças. Ângela estava grata pela confiança a ela depositada. Após noventa dias prazo determinado pelo juiz para a entrega da casa, todos se dirigiram para Ribeirão Preto. O ônibus entrou na cidade, e a viatura de Josy foi quem os recepcionou. No bairro, centenas de pessoas aguardavam a chegada deles. Repórteres de todo país os focalizavam em suas poderosas lentes, não queriam perder nenhum ângulo. O ônibus parou, Carina desceu, Ângela sabia que aquele seria um momento muito especial para ela. Segurou todas as crianças no interior do ônibus, que correram para janela para observar a imensa emoção que Carina sentia, com os olhos cheios de lágrimas lembrou-se da última vez que esteve naquela calçada, da tristeza da separação e do desprezo da vizinhança. Olhou para todos os lados da rua levantou os olhos para o céu, e no meio dos clik das máquinas fotográficas e câmeras de televisão, agradeceu a Deus por estar ali e pediu a Ele que avisasse a seus pais que tinha conseguido cumprir a sua promessa. Sua família estava reunida outra vez, um pouco maior agora, e pedia perdão pela perda do querido Ronaldo que com certeza naquele momento estava ao lado deles, e que eles ficassem tranqüilos porque ela iria cuidar de todos com ajuda de Ângela, como certamente eles o fariam.
»Envie um comentário sobre o conto« |