PRECONCEITO
(PSEUDÔNIMO: NECO)
Èramos todos crianças. Meus primos e eu brincávamos e corríamos no casarão de vovô, fazendo algazarras e estripulias. Entrávamos pelo hall que dava acesso aos corredores com a sala de jantar, de visitas, e a sala de estar onde sempre o encontrávamos sentado repousando, apesar do barulho ele sempre nos recebia com uma palavra de carinho. Parecia que nada o abalava, sua atenção era absorvida pela imagem de uma bela mulher vista num grande quadro pintado à mão, vestida elegantemente e usando, chapéu, sombrinha e luvas. Posava ao lado de um automóvel, um Ford 1934. Perguntávamos quem era aquela mulher. E ele com sua interminável paciência, pedia que fossemos brincar, e que um dia nos contaria toda a história daquela bela jovem.
O tempo passou, crescemos, cada um de nós tomou seu rumo. Eu já cursava a faculdade, quando um dia recebi a notícia do falecimento de vovô. Fiquei triste e naquele momento lembrei-me que ele não havia contado a estória daquele quadro. Algum tempo depois, fomos convidados para uma reunião de família, onde seria feita a partilha dos bens. Vovô era muito rico, proprietário de indústrias, fábricas, e lojas. A família era grande, entretanto a divisão deixou a todos muito bem financeiramente.
Entre os bens que recebi, herdei um Ford 1934 em perfeito estado de conservação. Era todo original, como se tivesse saído da fábrica naqueles dias. Ao fazer a vistoria do automóvel, fiquei indignado, pois naquela máquina perfeita havia um amassado do lado direito. Até então eu não havia notado. Chamei a governanta e outros empregados, queria saber quem tinha amassado ou provocado aquele acidente, com certeza, com o cuidado que vovô tinha com o automóvel, não teria deixado danificá-lo. Os empregados informaram-me que a única pessoa que ligava o carro, lustrava e cuidava, era ele. Não permitia que nenhum funcionário se aproximasse da garagem. Para garantir a conservação do automóvel, providenciei a transferência do mesmo para a minha casa em Nova Jersey, onde o deixei em uma garagem fechada, pois, havia uma ordem por escrito de vovô, que eu deveria mantê-lo na família pelas próximas gerações. Recebi também o quadro que vovô tanto admirava. Levei-o para a sala de estar, coloquei-o em cima da lareira, assim como estava na sala de vovô. Ao colocá-lo no suporte, verifiquei que a tela estava solta e ao virá-lo para fixá-lo, um envelope caiu, e para a minha surpresa, ao abri-lo percebi que era uma carta de meu avô, ajeitei o quadro na lareira, simplesmente, sentei-me à cadeira de repouso, abri cuidadosamente o envelope, seu aspecto era de uma carta escrita há algum tempo. Esta tinha como objetivo relatar a vida de um homem que lutou para unir toda família, e iniciava de forma muito íntima e carinhosa:
“ Para você, meu querido neto Tony. Que em breve ao concluir o seu período acadêmico, assumirá a administração de nossas empresas, e após conhecer a nossa história, estará preparado para não cometer os mesmos equívocos que cometi”.
Curioso e muito ansioso iniciei a leitura, onde vovô narrava sua história, que começou por volta de 1920.
“ Eu era muito jovem, conclui a Faculdade de Administração de Empresas, assumi um grande posto no conglomerado, era um gerenciador da organização e supervisionava a área de compras. Minha família era muito rica. Por minha formação acadêmica pude perceber rapidamente um vasto campo a ser explorado nos negócios, uma vez que as indústrias de mineração e têxtil necessitavam de investimentos para a modernização. Consegui demonstrar essa necessidade, onde foram destinadas vultuosas quantias para que atingíssemos essa meta, que em pouco tempo obrigou-nos a atuar em outros segmentos como: os da borracha, celulose, diversão e mais algumas participações como cotistas de nossos principais fornecedores.
O país era rico e passava por um desenvolvimento econômico pós-guerra. A economia crescia, todos os meus amigos viviam muito bem. Com 23 anos, já participava do clube dos bens sucedidos, com empresários que se tornaram a nova classe rica dos Estados Unidos. Tão poderosos que influenciavam na escolha dos governantes do país. Nessa época, fui forçado por meu pai a namorar Cíndy, uma mulher um pouco mais velha do que eu.
Experiente de alguns amores, senhora de pequenos escândalos, porém, herdeira de uma das maiores indústrias da Costa Leste na área da construção civil. Os jovens dessa época mesmo contrariando seus sentimentos atendiam aos pedidos de seus pais, e apesar de não me interessar por ela, casei-me, pois esta união aumentaria o patrimônio da família.
O tempo passou, após o casamento, nasceram dois filhos homens. Já estávamos em 1925. A riqueza do país era tanta que as fortunas das famílias investidoras necessitavam diversificar, o governo iniciou um movimento para a criação de títulos lastreados ao patrimônio das empresas, onde passariam a serem negociados na Bolsa de Valores. Eu não entendia muito bem do que se tratava, quem cuidava disso era meu pai, que criou com outros empresários uma consultoria, e tinham o controle na área de investimentos, ficando sobre a responsabilidade deles o destino de nossos lucros. Como eu não podia participar, ainda, deste grupo, aproveitava meu tempo livre de outras maneiras. Encontrava-me com outros jovens no clube as sextas-feiras, para nos distrairmos e conversarmos sobre diversos assuntos; comentavam sobre suas amantes, apesar de quase todos serem casados. Eu ficava indignado com tamanho desrespeito as suas esposas. Mas logo, eu estava na mesma condição. Um dia, visitando uma de nossas fábricas conheci Anne, uma bela e envolvente jovem de 21 anos. Nos apaixonamos, e passamos a nos encontrar e rapidamente passei a cuidar de seu futuro.
Vivíamos numa época muito machista, os direitos das mulheres eram muito restritos semelhantes a dos imigrantes ilegais no país e a dos negros, não podiam votar, nem terem contas bancárias, muito menos dirigirem automóveis. Eu, até por ter muitas posses, comecei a agir como meus amigos. Passei a subsidiá-la em dinheiro vivo, jóias, luxo, e uma bela casa de campo com todo conforto.
Os negócios prosperavam, mantinha meu casamento com Cíndy e meu romance com Anne. No final de 1928, escutávamos alguns rumores sobre a economia, mas as fábricas de nossa família continuavam a pleno vapor. Minha família vivia bem, meus filhos cresciam. Anne aos 24 anos era deslumbrante e corajosa, já tinha até organizado reuniões semanais com outras mulheres, onde os homens não entravam. Nos meus passeios de férias pude ouvir novos boatos sobre a economia. Perguntava ao papai do que se tratava, e ele sempre respondia com firmeza e segurança que tudo estava sob controle. Queria que eu cuidasse de administrar as empresas e zelasse pelas minhas duas famílias.
No reveillon de 1928, os milionários da época, junto ao meu pai e família, reuniram-se em um transatlântico para comemorar a passagem do ano. Apesar de ter levado Cíndy e as crianças, passei horas maravilhosas com Anne em outra parte do navio. Contando com a ajuda de amigos e até mesmo de meu pai, nenhuma das duas percebeu a presença da outra. Ao iniciar a contagem regressiva para a entrada do ano novo, os Barões da época reuniram-se no convés principal, onde ouviram do cantor da orquestra que animava a festa o seguinte comentário:
- Apesar de iniciarmos um ano bastante sombrio na economia, desejamos a todos um feliz 1929.
Meu pai, com sua arrogância, fumando um charuto de sua fabricação, virou-se para seus amigos e fez uma observação:
- Como é que um homem, que ganha a vida cantando, pode fazer um comentário, ruim, sobre a nossa economia!
A festa continuou por toda à noite. Desembarcamos e após alguns dias de férias, iniciamos o trabalho de planejamento para um novo ano.
Nos primeiros meses ocorreu uma alta sem precedentes no valor das ações negociadas na bolsa. Os rumores eram enormes, os nossos principais credores atrasavam seus pagamentos e nossos clientes paravam de fazer pedidos e comprar nossas mercadorias. Investiam tudo que era possível em ações, meu pai entusiasmado e envolvido com outros empresários, participava deste momento histórico na economia. Era freqüentador assíduo no pregão diário da bolsa. Não acreditava nas notícias divulgadas por especialistas do assunto. Eu ficava apreensivo, no entanto todas as noites antes de voltar para casa encontrava-me com Anne para consolar-me e refazer minhas forças.
Os preços das ações começaram a cair, a partir de setembro iniciaram as vendas. Meu pai reunido com seus sócios da consultoria ficava debruçado em cima de papéis discutindo e apontando possíveis soluções. Eu ficava atrás das portas observando, e ouvindo todos os comentários, mas não podia intervir, uma vez que eles sempre me deixavam alheios a esse assunto.
Em menos de um mês houve uma queda de 80% nas cotações, apesar de tudo que estava acontecendo na economia, após alguns dias, para minha surpresa ao abrir o jornal, estava estampado em letras garrafais uma grande manchete, “Ocorreu um craque na bolsa de valores”. A bolsa quebrou, eu não pude avaliar a extensão do fato, fui ao encontro de meu pai, e o mesmo não se encontrava. Informaram-me que ele estava hospitalizado e tudo levava a crer que tivera um infarto. Momentos depois, viera a falecer. Não bastando essa desgraça, recebi a notícia que alguns empresários haviam cometido suicídio, outros estavam internados, só então pude compreender a crise, bem como, a atitude de vários empresários da época. No decorrer dos dias, foram tomadas medidas para minimizar os prejuízos e, com isso, informaram-me que a justiça determinou o fechamento de nossas fábricas. Os bens foram interditados, e o dinheiro confiscado. De um dia para outro ficamos em situação de penúria, nossos funcionários entraram em greve cobrando seus direitos. Os credores batiam as nossas portas desesperados na esperança de receberem; nossos fornecedores tentavam retirar suas matérias primas. Era um verdadeiro caos, ficamos arruinados financeiramente, todos os lastros de nossas empresas estavam investidos em ações na bolsa de valores, a qual meu pai depositava a maior confiança.
Perdemos tudo. Cíndy, minha esposa, ao perceber o drama que vivíamos, abandonou-me, levando as crianças, pois, para ela ainda sobravam algumas reservas. Após andar de casa em casa dos amigos, percebi que a situação deles era ainda pior que a minha. O nosso país fora ao caos, era uma crise sem precedentes, levando os Estados Unidos a miséria.
Após meses de convulsão social e informações desencontradas; um seguimento que iniciou a recuperação foi a indústria automobilística, e um fato que começou a mudar esta situação, praticamente ditando uma nova ordem econômica, foram às mulheres, principalmente as amantes dos antigos milionários, que possuíam dinheiro depositado em paraísos fiscais, além de jóias e bens; que começaram a adquirir seus automóveis. Nesta condição estava Anne, que me recebeu de braços abertos, já que eu não tinha onde morar. Tive que me sujeitar às regras estabelecidas por ela, apesar de minha arrogância, não pude contrariá-la e a vida reiniciou-se. A lei não havia mudado, as mulheres não podiam dirigir, não podiam freqüentar cursos de formação de condutores, mas estavam passando por uma fase muito importante, e com dinheiro em casa, adquiriam seus automóveis e saiam dirigindo, provocando acidentes a todo o momento, porque não tinham orientação básica para enfrentar o trânsito. Ocorreram fatos inusitados como, comprar um carro e ao sair da loja destruí-lo antes mesmo de chegar à rua, acidentes históricos foram relatados , como cair numa piscina, atropelar transeuntes em estacionamentos, cair da balsa, deixar o carro andando sozinho. Então frases eternizaram-se como, “Mulher no volante, perigo constante”. “Bateu? com certeza é mulher”. “Não obedeceu ao sinal, também veja quem está dirigindo!”.
Estas frases mostravam o despreparo das mulheres. Neste momento a economia demonstrava uma pequena recuperação, graças à aquisição de automóveis. As mulheres passaram a serem mais exigentes nas cores dos veículos, para cores claras, vibrantes e modernas, fato que veio a embelezar as ruas, contrapondo a cores anteriormente escuras, fortes e opacas. Em 1933, podia ser notado que o índice de acidentes com mulheres no volante era muito grande, mas elas ainda não tinham o direito de dirigir.
Outro segmento a reagir foi a confecção feminina, onde dinheiro de Anne foi empregado, e colocou-me como diretor para gerir seu patrimônio. Os negócios de Anne iam a todo vapor, montamos outra fábrica de tintas para tingir roupas, e outra de confecção de peças íntimas, com uma loja no centro da cidade com distribuição por todo país da marca “ANNE”.
Adquirimos o primeiro caminhão para entrega, e as coisas começavam a melhorar. No início do ano seguinte uma grande festa foi realizada para apresentação do Ford 1934. Anne adquiriu um dos primeiros modelos que apresentavam uma série de inovações tecnológicas, exigindo de seus condutores conhecimentos específicos para poder conduzi-los. Anne confiante de sua experiência em dirigir outros veículos mesmo sem habilitação mandou que o entregasse em nossa residência no dia de seu aniversário. Levantou-se cedo, vestiu-se elegantemente, colocou um lindo chapéu, e após dizer palavras de amor em tamanha intensidade onde demonstrava um enorme carinho, e do quanto gostava de mim, aproximou-se do automóvel. Era lindo, de cor vermelha, com pára-choques de aço inoxidável, fez questão de ser fotografada ao lado do veículo. Entrou no carro, sentou-se ao volante e desceu contornando o grande jardim da casa pela lateral até chegar á rua. Da janela acenei despedindo-me, e ela mandou-me um beijo. O carro já havia ganhado velocidade, Anne com certeza não conseguiu dominar a nova máquina. Escutei um forte estrondo, os empregados da casa correram e chamaram por mim. Fiquei paralisado, tive medo de olhar, não podia acreditar que o bem mais precioso que eu tinha, poderia ter se envolvido num acidente. Ao chegar no local, encontrei Anne deitada ao chão, olhei o carro, ele estava apenas com um amassado na lateral direita. Aquele acidente que nem parecia ter sido tão grave, foi o bastante para que uma pancada na cabeça fosse fatal, quebrando-lhe o pescoço levando minha querida Anne á morte.
A minha vida perdeu o sentido, já tinha perdido meu pai, meus amigos, minha esposa, meus filhos, e agora Anne, o meu grande amor. Mas pela força desta mulher que na hora mais triste de minha vida, recebeu-me, apoiou-me, fez com que eu levantasse minha cabeça, deu-me forças, acreditou em mim, e pôs-me á frente de seus negócios, por ela, eu não podia desistir. E com o passar dos anos, transformei os negócios de Anne num verdadeiro império, com várias fábricas, onde colaboramos com a recuperação da economia do país. Meus filhos voltaram, e ajudaram-me a administrar este patrimônio com o qual dividi em partes iguais, onde você Tony, recebeu seu quinhão, mas terá que saber administrar este patrimônio e manter vivo o nome de Anne, a mulher que teve a coragem de lutar por seus direitos, de ir e vir, e morrer por ele.
No final de 1934, as leis tornaram-se mais flexíveis, permitindo que as mulheres passassem a terem o direito de dirigirem em estradas”.
Tony emocionado, por conhecer a verdadeira história da família, entendeu que seu avô estava lhe dando uma grande oportunidade de administrar os bens que a ele foi confiado e assim evitar que cometesse os mesmos erros do passado.
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