O TREM DAS ILUSÕES
(PSEUDÔNIMO: NECO)
No palácio dos bandeirantes, sede do governo paulista, cercado por autoridades, personalidades e a imprensa, com o auditório lotado de funcionários das antigas companhias de estradas de ferro, entre elas a Sorocabana, Fepasa, Mogiana, Araraquara e São Paulo - Minas, todos presentes para acompanhar a divulgação da criação de uma nova empresa ferroviária. Era possível ver a alegria que reinava entre amigos que não se encontravam há muito tempo. Um burburinho era presenciado em todos os cantos da sala. Um ex-funcionário corria de um lado para o outro, chamando a atenção de todos e querendo agradá-los.
Durante alguns minutos o cerimonial do palácio aguardou o final das manifestações e solicitou que todos assumissem seus lugares. O governador do estado com um discurso eloqüente, mostrou a importância da criação de uma nova empresa ferroviária para São Paulo, a CPTM- Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, com a missão de explorar o transporte sobre trilhos nas zonas regionais do Estado de São Paulo que abrangera as regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, de acordo com o artigo constitucional. O governador ressaltava que a empresa deveria investir em programas sociais como: o projeto “Qualidade de Vida”, “Comunidade Participativa”,
“ Família Empresa”, e, deu ênfase ao programa criado em 1987 “Usuários do Amanhã”. Este programa preocupava-se com a segurança de pessoas que residiam ao longo das linhas. Esta proposta tocou-me profundamente. Além de informar sobre os investimentos para modernizar a atual malha ferroviária da cidade de São Paulo.
Após expor suas propostas, em meio de aplausos, passou-me a palavra. Estava tão emocionada que mal pude ouvir quando me chamou para subir ao palanque, porém com firmeza olhei a platéia que em silêncio aguardava a minha apresentação.
Agradeci ao governador, as autoridades, a imprensa e principalmente aos colegas ferroviários que ali estavam prestigiando-me por assumir tão honroso cargo. Iniciei meu discurso dizendo:
- Este é o dia mais feliz da minha vida. Não poderia realizar minhas funções, sem antes homenagear e agradecer as pessoas responsáveis por minha ascensão ao cargo de Diretora Presidente da CPTM, que muito em breve será a maior companhia de trens metropolitanos do país.
Minha indicação, somente, foi possível porque existiu um maravilhoso homem chamado Ernesto de Almeida Alencar que em 1918, aos vinte anos de idade, após ter recusado diversas propostas de emprego, aceitou o convite para trabalhar na antiga companhia de estrada de ferro Sorocabana. Era apaixonado por trens, desde criança colecionava miniaturas de locomotivas, dizia a todos que um dia iria trabalhar com elas, e o seu maior sonho era comprar uma casinha a margem da linha do trem para poder vê-lo passar diariamente. A companhia passava por uma reformulação após o cancelamento do contrato com a empresa The Sorocaba Railway. Casou-se em 1920. Com o novo emprego e a nova situação financeira alugaram uma casinha bem longe da estação, mas eram felizes. Desta união nasceu José de Almeida Alencar que era "excepcional", e, a complicação no parto levou sua mãe à morte prematura. Sr. Ernesto dedicou-se ainda mais ao trabalho e a cuidar da criança. Aos trinta anos assumiu o cargo de condutor dos trens de carga da companhia. Cuidava do menino com muita dificuldade. O retardo mental de José era de poucos anos, no entanto, o suficiente para não acompanhar seus amiguinhos, por isso era descriminado, fato que entristecia seu pai que procurava lhe dar muita atenção e todo carinho possível.
O menino crescia forte e fisicamente saudável. Não havia mágoa em seu coração, fazia de tudo para agradar a todos, sempre tinha tempo e disposição para ouvir e ajudar aos amigos. Também era apaixonado por trens, dizia a todos que seu pai iria comprar uma casinha à beira da linha, para que ele pudesse ver o trem passar da janela do seu quarto. Cuidava com muito carinho de suas miniaturas, dando continuidade a coleção dos pequenos trenzinhos que eram de seu pai. O menino tinha uma verdadeira admiração e respeito por ele, amava-o mais que tudo.
Naquela época, as companhias ofereciam poucos benefícios aos funcionários, mas mesmo assim, Sr. Ernesto, constantemente, levava o menino consigo ao trabalho, para uma consulta no ambulatório, no qual o médico que atendia somente os executivos examinava o garoto escondido dos patrões. Ele era muito amigo do Sr. Ernesto e um devia favores ao outro.
E assim passaram-se alguns anos. Em 1939 quando José completou 18 anos de idade. Sr. Ernesto usando de sua influência conseguiu empregá-lo na companhia como ajudante para o carregamento de cargas dos trens, onde a equipe que era comandada por ele há anos acolheram-no e ajudaram-no para que ele se adaptasse. O desenvolvimento mental de José foi impressionante. O rapaz estava lidando com o que mais gostava, sentia-se feliz por poder ficar perto do trem durante o dia, além de estar em companhia do pai e de vários amigos. Alguns abusavam de sua bondade e inocência, deixavam o serviço pesado para ele, que fazia praticamente sozinho, mas sentia-se alegre, queria retribuir o carinho e a atenção que tinham com ele, conquistando a todos por sua gentileza e simpatia.
Durante as viagens, José subia nos vagões e corria pulando de um para o outro. Tinha o cuidado de desviar dos fios, das árvores, túneis, gritava de alegria com braços abertos ao sentir o vento cortar seu rosto e esvoaçar seus cabelos. Sua paixão por trem era tanta, que muitas vezes sentia-se o próprio em movimento. Corria aventurosamente pelos vagões, tudo era uma brincadeira, nunca teve noção do perigo.Os colegas de trabalho logo o apelidaram de “Zé Doido”, que aceitou esta denominação com muito carinho. Com o passar dos dias, ele piorava em suas aventuras. Aproveitava os momentos de baixa velocidade do trem, descia do primeiro vagão e corria o máximo que podia ao seu lado, aos poucos o trem ia ganhando velocidade deixando-o para traz. A ventania novamente tomava-lhe a face e soprava-lhe os cabelos, mas o cansaço do rapaz era inevitável, ao passar por ele o último vagão, agarrava-se e pulava para dentro e após um breve descanso iniciava uma nova corrida.Os colegas tentavam preveni-lo do perigo que corria, podia tropeçar ou cair entre os dormentes, chamavam sua atenção carinhosamente por diversas vezes.
“Zé Dôoooido, Zé Dôoooido! Você pode se machucar”! Mas ele nem ligava, então todos faziam vistas grossas e encobriam suas peripécias para mantê-lo empregado. As companhias não tinham nenhuma campanha ou programas de treinamento para funcionários e moradores, quanto à conscientização dos perigos que envolviam os transportes sobre trilhos.
Zé Doido tinha muita consideração pelos companheiros de serviço, respeitava a todos, principalmente, porque seu pai sempre estava observando seu comportamento e quando ele cometia algum deslize era advertido.Tinha verdadeira admiração por ele e obedecia-o imediatamente. Sr. Ernesto pedia a seus amigos que o ajudassem, pois era muito prestativo no trabalho e precisava mantê-lo por perto, afinal ele era inocente, uma verdadeira criança e encarava o trabalho como uma brincadeira.
Zé Doido era muito bonito, alto e robusto, chamava a atenção de muitas moças nas estações por onde passava. Os amigos vendo que ele era assediado pelas mulheres, apesar de dar pouca importância á elas, decidiram apresentá-lo a Milene, moça de “vida fácil”, que para sobreviver há muito tempo fazia ponto numa estação e estava sempre disposta a atender os ferroviários que a procuravam. Seu maior sonho era encontrar um homem que quisesse casar-se com ela e lhe oferecer um lar para sair dessa vida. Numa tarde de sábado, logo após um churrasco, onde Zé Doido acompanhando os amigos experimentou alguns goles de cerveja, o suficiente para deixá-lo ainda mais alegre, sem que Sr. Ernesto soubesse, reuniram-se e o levaram para conhecer Milene, que mesmo conhecendo o problema do rapaz procurou ser atenciosa. Mostrou-lhe um mundo novo. Zé Doido que nunca tinha sentido nada igual apaixonou-se perdidamente por ela.
Estava radiante. Milene vendo a alegria do rapaz envolveu-o ainda mais. Ele aprendeu rapidamente os encantos da vida a dois e induzido por ela que percebendo ser sua oportunidade de mudar de vida, fez com que ele a pedisse em casamento. Os colegas de trabalho nunca puderam imaginar tais conseqüências. Tentaram de todo jeito afastá-lo de Milene. Sr.Ernesto usou de sua autoridade para impedir aquela união. Mas desta vez foi em vão. Zé Doido tinha Milene como seu único e maior amor.Envolvido por este romance, começou a ausentar-se do trabalho para se encontrar com a moça ás escondidas, temendo que ele pudesse perder o emprego na companhia, Sr. Ernesto resolveu aceitar o casamento e mantê-los morando sobre seu teto. Em dez anos tiveram três filhos.Uma menina e dois meninos.
Zé Doido continuava entusiasmado com o casamento, pois tinha três crianças para brincar com ele, sentavam-se no chão e sua filha fazia o som do trem em movimento “Biii...biii...biiii...”, por isso apelidou-a carinhosamente de Bibi.
Ficavam horas espalhando os trenzinhos pela casa em plena harmonia. Zé Doido e seus filhos falavam e pensavam as mesmas coisas, não tinham preocupações, nem tão pouco responsabilidades, apenas queriam brincar e se divertir.As crianças envolvidas pela atenção do pai pediam para que ele voltasse mais cedo para brincarem mais um pouquinho. Com o tempo, Milene passou a ser apenas uma amiga para José que não tinha mais interesse na convivência conjugal. Ela por sua vez, já estava chateada com o seu comportamento, pois levava a vida brincando e não tinha perspectivas de crescimento, além do que, casou-se por simples conveniência. Acabou envolvendo-se com outro homem e abandonou-o, deixando a casa e as crianças sob a responsabilidade do velho maquinista.
No final daquele ano, o temido psicólogo e médico da companhia, Dr. Caruzzo conhecido como “exterminador de funcionários”, questionando quanto à produtividade dos empregados daquela estação, convocou-os para exames periódicos. Deixou bem claro que exigiria deles perfeito estado de saúde, pois se considerasse que o funcionário não estava capacitado para ocupar aos atuais cargos, com certeza o diagnóstico seria a demissão. Este fato preocupou toda a equipe de Sr. Ernesto, pois sabiam que nenhum diretor teria coragem de reverter uma decisão do Dr.Caruzzo. Os companheiros de trabalho de Zé Doido resolveram orientá-lo quanto ao seu comportamento. Diziam a ele que não deveria dizer nada que aborrecesse o médico, que falasse o mínimo possível, não comentasse sobre sua escolaridade, nem sobre o fim de seu casamento e não falasse nada sobre seus amigos de serviço. Receavam que ele fosse demitido. Zé Doido olhava para seu pai que observava todas as instruções e com a cabeça baixa comentava com os amigos. “Dessa vez ele não escapa.”.
Sr.Ernesto preocupava-se com a situação do filho, com três crianças para cuidar.Tinha certa idade e temia pela sobrevivência da família quando ele faltasse.Todos tinham consciência da preocupação do Sr. Ernesto. Na sala de exames, o médico chamava um a um dos funcionários. Pela vidraça era possível ver e ouvir como ele era rigoroso. Examinava garganta, olhos, ouvidos, coração. Fazia perguntas sobre a vida profissional e pessoal, aplicava-lhes teste psicotécnico, ordenava que andassem de um lado para outro, mantinha sua postura sempre reservada e firme, observando o desempenho dos funcionários. Após examinar alguns deles, Dr. Caruzzo abriu a porta, chamou por José de Almeida Alencar, o Zé Doido. Ansiosos, todos colocaram as mãos na cabeça. Os amigos aproximaram-se de Sr.Ernesto e juntaram-se às paredes de vidro do consultório para observar e ouvir o que Zé Doido falaria. Ele não se sentou, andava de um lado para outro forçando Dr. Caruzzo a correr atrás dele para poder examiná-lo, pegou o estetoscópio das mãos do médico e colocava-o nas divisórias que separavam as salas. Os colegas ficaram abismados ao ver aquela cena, pois o médico corria de um lado para outro. Fazia perguntas e Zé Doido respondia a todas sem hesitar. Aos olhos de todos, Zé Doido estava cada vez mais complicado. Sr.Ernesto aflito deixava as lágrimas rolarem pelo rosto, sabia que Zé Doido precisava continuar trabalhando, se fosse demitido com certeza sofreria uma regressão e poderia até sofrer uma depressão por afastar-se do trem. E angustiado dizia: “Deus! O que será de meu filho?”. Senhor João, seu velho companheiro de luta tentava consolá-lo.
O médico, após o exaustivo exame, dispensou-o da sala e chamou o próximo. Zé Doido saiu sorridente. Olhava para os amigos dizendo que tinha feito tudo como eles mandaram. Os amigos entreolharem-se. Zé Doido aproximou-se de seu pai e perguntou porque chorava. O velho maquinista o abraçou e chorou copiosamente. Zé Doido enxugava-lhe as lágrimas sem entender nada. Aguardaram até o último a ser examinado. Todos esperavam o veredicto do médico. Podiam ver através do vidro que Dr.Caruzzo analisava os exames e selecionara cinco fichas. Um silêncio tomou conta da sala, quando Dr. Caruzzo abriu a porta e saiu fazendo comentários terríveis sobre os exames. Chamou Sr. Orlando e Sr. Carlos, solicitou que fizessem exames oftalmológicos, pois necessitavam de óculos, caso não os providenciassem em tempo determinado estariam sujeitos a demissão. Os demais respiraram aliviados. Zé Doido estava fora dessa, mas com certeza não escaparia dos outros três á serem chamados. Ele era o único que permanecia em pé, porém Sr. Ernesto segurava-o pelas mãos e mantinha a cabeça baixa. Ouviu quando Dr. Caruzzo informou que, os outros três teriam que fazer uma reciclagem de uma semana, e após uma avaliação, talvez continuassem a trabalhar.
O primeiro foi o Sr.Silva que precisava, urgentemente, de acompanhamento de um ortopedista. O segundo Sr. Paulo necessitava de um neurologista. Neste momento, todos estavam cabisbaixos. Alguns dos amigos de José até choravam e consolavam o velho maquinista, que neste momento já não escondia o seu pavor pelo que poderia acontecer, pois conseguia avaliar a extensão de uma decisão como aquela para a sua vida. Dr.Caruzzo puxou a última ficha, olhou para todos pausadamente. Novamente um breve silêncio. Com voz firme começou dizendo que este precisava de acompanhamento de um profissional especializado em comportamento humano, para poder se enquadrar nas novas diretrizes da companhia ferroviária. Respirou fundo e chamou Sr.Luiz Carlos Cunha. Um grande silêncio tomou conta da sala, todos se entreolharam surpresos e eufóricos, iniciaram uma verdadeira farra, abraçaram-se e dirigiram-se até Zé Doido e Sr. Ernesto.
Mesmo os que foram convocados para exames gritavam e pulavam de alegria, “ Zé Doido você passou! Você passou”. Zé Doido vendo tamanha euforia e sem entender o que estava acontecendo começou a pular também. Dr. Caruzzo saiu como chegou, sisudo, e a distância antes de entrar no carro olhou para a janela e viu quando o velho maquinista olhava-o como quem agradecia. Dr.Caruzzo deu-lhe uma piscada e um pequeno sorriso, entrou no carro e partiu.
Zé Doido continuou trabalhando. Logo os companheiros que tinham feito os exames e após as reciclagens também estavam de volta e tudo transcorria como antes. Sr. Ernesto era responsável por levar aquela composição, às vezes, até com cinqüenta vagões, uns com alimentos, outros com minérios, e até mesmo com combustível. Sua equipe o acompanhava em todos os carregamentos.
Em maio enquanto o comboio ferroviário levava soja para o Porto de Santos, Zé Doido andava sobre a carga, correndo de um lado para outro. Parou com os braços abertos sentindo o vento espalhar seu cabelo, fechou os olhos para sentir aquela sensação que ele tanto apreciava. Ao abri-los, viu que uma locomotiva vinha em direção contrária no mesmo trilho, apesar de pequena, vinha em alta velocidade. Começou a gritar para parar o trem. O forte vento impedia que sua voz fosse ouvida e percebendo a gravidade do fato começou a correr gritando e pedindo para que seu pai parasse o trem. Logo á frente uma curva impedia que o velho maquinista pudesse ter a mesma visão que Zé Doido estava presenciando. O rapaz corria, já tinha pulado vários vagões, mas ainda faltavam muitos, ofegante, quase sem voz pedia para que seu pai pulasse do trem. Sofria por perceber o que estava para acontecer. Gritava e corria desesperadamente. No entanto, a colisão foi inevitável. Com o impacto Zé Doido foi arremessado para longe no meio da mata. O trem descarrilou e os vagões se amontoaram, a carga foi toda jogada para fora. Sr. Ernesto não suportou os ferimentos e faleceu no meio das ferragens.
No dia seguinte a colisão, Zé Doido foi encontrado desacordado, e permaneceu internado em estado de coma por várias semanas. Os amigos auxiliavam as crianças que ficaram sozinhas até que a situação se definisse. Quando Zé Doido se restabeleceu ficou sabendo que seu pai havia morrido. Não entendia bem o que era a morte, mas sentia a falta de seu amado pai. As crianças choravam muito e chamavam por ele, principalmente Bibi. A companhia deu-lhe uma licença para ficar em casa com seus filhos. Após alguns dias recebeu a visita do proprietário do imóvel, que pediu que entregassem a casa, pois sabia que Zé Doido não conseguiria manter o contrato, até por falta de condições e experiência. Zé Doido não entendia o porquê sair da casa, mas sabia que teria de mudar-se dali com as crianças. Bibi, a filha mais velha com dez anos de idade estudava e cuidava dos irmãos mais novos, foi bem orientada pelo avô para cuidar de seu irmãozinho caçula que também nascera com uma deficiência mental, além de sofrer de renite e bronquite alérgica. A menina apesar de muito nova, tomou para si a responsabilidade de cuidar de todos, inclusive de seu pai criança. Tinha por ele um imenso amor e dedicava-se com muito carinho. Percebia as dificuldades do pai e da situação em que viviam, mas sempre tinha uma palavra de conforto, abraçava-o e beijava-o, dizendo para ficar tranqüilo que tudo se revolveria.
Zé Doido foi chamado para comparecer na companhia e quando lá chegou todos os companheiros estavam a sua espera. O chefe da estação o aguardava. Sem muitas recomendações entregou-lhe um cheque de uma importância bem razoável, que se tratava de um ressarcimento pela morte de seu pai. Zé Doido recebeu o cheque e pediu maiores explicações. Os amigos esclareceram sobre a indenização, mas Zé Doido não entendia como seu pai, mesmo depois de morto, conseguia lhe mandar dinheiro. Apesar da triste situação, todos riram com a ingenuidade e inocência daquele homem. O chefe da estação percebendo que Zé Doido não saberia administrar o valor recebido, perguntou o que ele iria fazer com o dinheiro. Zé Doido sem pestanejar respondeu:
“Vou comprar uma casa ás margens do trilho do trem, como meu pai sonhava, para ver o trem passar todos os dias em minha porta, e quando eu não estiver aqui vou ficar na janela esperando o trem passar, e vou acenar para vocês. Assim vou realizar meu maior sonho”.Todos ficaram apreensivos. O chefe da estação, aproveitando-se da situação ofereceu a José em troca do cheque recebido, uma casinha em terreno acidentado num vilarejo próximo, aproximadamente a 150 metros da linha do trem, que havia adquirido há muito tempo, na verdade estava abandonada e o mato já tinha invadido o terreno. Os amigos tentaram impedir aquela negociação, acharam a proposta indecorosa. Entretanto o chefe da estação convenceu-lhes que Zé Doido não saberia o que fazer com aquele dinheiro e com certeza seria ludibriado por alguém, de forma que poderia perder a oportunidade de ter uma casa mesmo danificada, mas com escola bem próxima onde as crianças poderiam estudar, além de ficar sem a indenização. Os amigos contrariados acabaram concordando e apoiaram a compra da casa. Zé Doido recusou a proposta, queria adquirir uma casa ás margens da linha do trem. Queria ver o trem passar em sua porta, e não abria mão disso. O Chefe percebendo que não seria fácil convencê-lo, aproximou-se, apoiou suas mãos nos ombros de Zé Doido e garantiu que a companhia tinha um projeto de mudança dos trilhos. Era questão de pouco tempo, logo o trem passaria em frente à casa e seu desejo seria brevemente realizado.
Zé Doido animado com a notícia olhou para os amigos, que estavam indignados, porém preocupados com o futuro do rapaz e das crianças. Acreditando que o trem fosse realmente passar em sua porta, comprou a casa em troca do polpudo cheque que recebeu. O valor da indenização era muito maior do que valia o imóvel, mas realizaria seu sonho de ter o trem muito próximo de si e de seus filhos. Bibi de certa forma tranqüilizou-se. Sabia que poderiam estudar e teriam onde morar sem que ninguém os tomasse a casa, além de realizar um grande sonho de seu querido avô.
O imóvel estava em situação assombrosa, totalmente abandonado e úmido. Com ajuda de alguns amigos da companhia, Bibi arrumou tudo o que pôde para deixar o imóvel com aspecto de casa. Matriculou-se numa escola próxima juntamente com Nelson seu irmão mais velho, e conseguiram uma vaga para Alex numa sala para crianças especiais. Alex além de ser excepcional, também tinha problemas pulmonares que agravou muito com a nova casa por ser extremamente úmida. O pequeno garoto encantado com idéia de ver o trem de perto ficava na janela esperando dia após dia, o momento em que a companhia mudasse os trilhos do trem como seu pai lhe falara. E enquanto esse dia não chegava, brincava com suas miniaturas de trens, que eram a paixão das três gerações, Sr. Ernesto, Zé Doido e Alex. Bibi e Nelson sabiam que o trem jamais passaria na porta da casa, mas percebendo a alegria do pai e de Alex que contavam os dias para ver a mudança, não os contrariavam. Alex era motivo de chacota na escolinha e no bairro, quando dizia que o trem iria passar em frente a sua casa, pois seu pai havia lhe prometido.
Os moradores debochavam de Zé Doido, quando dizia sobre a mudança que a companhia iria fazer, pois estavam preparando o desvio dos trilhos do trem.
Diariamente as crianças corriam até a cerca de bambu para ver o trem passar a longa distância, onde viam Zé Doido em pé sobre as cargas pulando de um vagão para o outro e acenava mandando-lhes beijos, até que o trem desaparecesse no meio da serra. Apesar de não ter noção do perigo que corria, este gesto mostrava-lhes o grande amor que sentia por eles.
O tempo das chuvas chegou e a condição física de Alex piorou muito com a umidade da casa. Os tratamentos caseiros já não mais surtiam resultados. Bibi ligava constantemente para a companhia, pedindo para que seu pai viesse socorrer o filho. Dr. Caruzzo deu-lhe uma licença remunerada para que ele tratasse do pequeno Alex. Os hospitais da cidade sem equipamentos específicos e sem profissionais gabaritados, diagnosticavam verdadeiras barbaridades sobre a doença do menino. A professora da escolinha após semanas de ausência do garoto sugeriu que se reunissem para visitá-lo. Ao chegarem na humilde casa, os amiguinhos de Alex ficaram encantados com a coleção de miniaturas de trens e pediram para que ele os desse. Sem nenhuma malícia, envolvido pela alegria de receber seus amiguinhos da escola e não medindo as conseqüências que ficaria sem os brinquedinhos, deu um trenzinho para cada criança.
Quando foram embora, Alex não conseguia dormir. Estava inconformado. Como ficaria sem suas miniaturas? Sentia falta dos trens, chorava o tempo todo e queria que os coleginhas lhe devolvessem os trenzinhos.
Zé Doido chegou com os remédios que Bibi pediu que comprasse. Ele que também estava inconformado por ter perdido seus trenzinhos, ao ver Alex deprimido, saiu de casa já tarde da noite para recuperar as miniaturas. A chuva era torrencial. Vários alagamentos tomaram conta dos bairros e vilas da cidadezinha. Zé Doido batia de porta em porta, dizendo que seu filho estava doente, e que precisava dos trenzinhos. Era recebido com deboche e menosprezo. Zé Doido, inocentemente, implorava que os devolvessem. Não davam importância ao que ele falava e batiam-lhe a porta na cara, afinal era considerado doido. Ninguém queria devolver as miniaturas, as crianças estavam fascinadas pelos trenzinhos. Zé Doido ficava parado em frente às casas, coçava a cabeça, andava de um lado para outro, voltava e batia na porta, insistindo para que os entregassem. Novamente era recebido com repúdio e diziam que não tinha cabimento devolvê-los, uma vez que as crianças já tinham se apegado aos brinquedos. Zé Doido chorava cada vez que negavam a devolução.
A chuva caia sobre seu corpo e misturava-se com as lágrimas que rolavam pelo seu rosto, estava desesperado, pois para ele estes brinquedos também eram sua vida e tentava de todas as formas recuperá-los. Sem saber o que fazer decidiu voltar para casa. O alagamento atingiu muitos pontos da cidade, forçando Zé Doido a dar uma volta muito grande para chegar em casa. Este caminho levou-o ao pé da serra e observou que houvera um desmoronamento derrubando pedras, árvores e muita terra, obstruindo toda a linha do trem. Por alguns segundos ficou sem saber o que fazer. Sabia que o trem estava por passar, com certeza bateria naquelas pedras e provocaria um grande acidente. Ele precisava avisar seus amigos. Não podia deixá-los se arriscar e em sua inocência corria e pensava:
“ Meus amigos vem vindo e logo chegarão aqui. O trem vai bater nas pedras e eles vão morrer como meu pai. Tenho que avisá-los.”
A chuva aumentava, Zé Doido corria pelos trilhos. Após alguns quilômetros corridos, ele avistou o trem. Parou de braços abertos e acenava para que eles parassem. Já era madrugada, chovia muito, o maquinista não conseguia enxergar Zé Doido no meio dos trilhos. Ao perceber que o trem não ia parar, segundos antes de ser atropelado, jogou-se no mato lateral. Caiu numa possa no meio do barro, e desesperado começou a correr ao lado do trem, gritando e pedindo para que o ouvissem. O trem estava carregado de produtos químicos inflamáveis e tóxicos. Zé Doido não tinha noção do que eram aqueles produtos, mas sabia que quando a carga era essa, os cuidados eram redobrados, isso o deixou mais apavorado. Lembrava-se da morte de seu pai, e corria ainda mais, gritava para que parassem.
Zé Doido corria, tropeçava e caia, mas logo já estava correndo e gritando novamente. Foi quando um dos companheiros saiu na janela do trem e o viu correndo como sempre fazia quando queria brincar e dizia:
- Zé Doido, vá para casa. Seu filho está doente Zé Doido! Está chovendo. Vai para casa cuidar do menino.!
Mas ele gritava para que parassem, pois o trem iria bater nas pedras que tinham caído nos trilhos. Outros colegas que viram Zé Doido riram e gozavam do que ele falava.
- Pare o trem! Vai bater, vai descarrilar, vocês vão morrer!
Sr. João, um dos amigos mais velhos saiu na janela, e viu o desespero de Zé Doido que continuava correndo e gritando. Zé Doido caiu noutra poça d’água, levantou-se todo molhado e sujo de lama, em seu rosto pingavam as gotas de chuva, misturadas ao suor. Seu semblante expressava cansaço entre os cabelos molhados e escorridos no rosto, pequenas gramas grudaram em sua pele, mas não desistia e corria velozmente tentando avisá-los do perigo que corriam. Sr. João colocando a cabeça para dentro do trem chamou a atenção dos outros que jogavam cartas e disse com firmeza:
- Gente!, o Zé Doido pode ser Doido, mas mentiroso, ele não é!. Nesse momento todos puderam avaliar a gravidade do assunto. A carga tóxica e inflamável além de matá-los poderia exterminar toda a população de quilômetros dali. Começou o corre-corre no trem, pediam para o maquinista puxar os freios. Zé Doido estava ofegante e muito cansado. Caiu novamente e quase não tinha forças para levantar-se. Viu quando o trem deslizava sem controle sobre os trilhos molhados, pois a carga que carregava era muito pesada e a inércia empurrava os vagões criando dificuldades ao frear.
Zé Doido percebeu as faíscas provocadas pelos freios e deitado no chão em baixo daquela forte chuva, percebeu que ouviram o que ele dissera. O maquinista logo avistou a montanha de pedra e terra sobre os trilhos, fechou os olhos e começou a rezar para que o trem conseguisse parar antes do choque. Não adiantaria pular do trem, pois o acidente seria fatal de qualquer jeito. A locomotiva deslizando foi perdendo a velocidade e começou a parar. Neste momento todos rezavam, pedindo a Deus que os salvassem. O maquinista abriu os olhos ao perceber que o trem havia parado de frente a grande pedra, causando uma pequena colisão. Uma pessoa em sã consciência não se arriscaria nem teria coragem para tanto. Zé Doido conseguira salvar muitas vidas por ser inocente.
Sua luta virou notícia. De Doido passou a ser Herói. A imprensa correu para o lugar e pela manhã ele era uma celebridade nacional, onde todos tiveram conhecimento de sua história. Zé Doido não tinha noção das vidas que salvou. Comentava com os jornalistas sobre o seu sonho e de sua família, dizia que estava esperando que o trem passasse em frente a sua casa, por isso a tinha comprado. Ninguém estava entendendo nada. Aquele dia fora muito agitado, até um médico da cidade prontificou-se em medicar o pequeno Alex.
A noite chegou e todos estavam exaustos. Após várias comemorações e muita festa, Zé Doido voltou para casa e de tão cansaço dormiu feito pedra.
A companhia não tinha equipamentos suficientes para deslocar a retirada de toneladas de pedras e terra que estavam sobre os trilhos. Tinham urgência em desobstrui-los, pois outros comboios ferroviários estavam aguardando a liberação para reiniciarem as operações.Convocaram empregados em caráter de emergência para fazer um desvio da linha, para que a locomotiva continuasse sua trajetória até que a ferrovia fosse reconstruída, mas o número de funcionários não eram suficientes e foram até a cidade que ainda comovida pelo heroísmo de Zé Doido uniram-se. De mãos dadas foram para frente dos trilhos e durante toda a madrugada centenas de moradores se misturavam aos funcionários da companhia. Em silêncio, para não atrapalhar o sono do herói, providenciaram a mudança dos trilhos sobre as ordens dos especialistas ali presentes.
Ao amanhecer, o sol já batia na janela. No quarto ainda dormiam Alex, Nelson e Zé Doido que se encolhia para dormir mais um pouco, estava sendo despertado por Bibi. Alex ao perceber o movimento acordou, rapidamente pulou da cama e foi até a janela, exaltava de alegria, correndo em direção ao pai, puxou-lhe as cobertas e falava eufórico:
- Papai, chegou o dia! Bem que você disse. Eu sempre acreditei em você. Venha ver, o trem está parado em frente a nossa casa. Zé Doido levantou-se e ficou imóvel. As lágrimas rolavam em seu rosto ao ver a locomotiva estacionada em frente a sua porta. No quarto olhou para uma foto de seu pai sorrindo, e como se ele estivesse presente, radiando alegria, convidou-o para ver o trem:
-Pai, vem ver! Finalmente realizaram nosso sonho. Encheu os pulmões, enxugou as lágrimas e saiu. Todos os colegas e vizinhos começaram a aplaudi-lo.Os amiguinhos de Alex vieram devolver as miniaturas.Os colegas de trabalho estavam em cima da locomotiva com os braços abertos como ele sempre fazia. Emocionado, não perdeu a oportunidade de agradecer a todos pela manifestação. O chefe da estação num discurso rápido informou que a mudança dos trilhos desviados para frente da casa fora inevitável, uma vez que à distância que circundava o desmoronamento era muito grande e o desvio teria que passar por ali.
Zé Doido sorriu e disse que foi Deus e seu pai que atendeu ao seu pedido. E novamente a alegria tomou conta daquele lar.
O governo acompanhou o desenrolar do caso, providenciou uma casa nova no mesmo lugar com estrutura para agüentar o pesado trafego de trens em frente à moradia daquele inocente herói. Deu acompanhamento médico para toda família, que passou a ser exemplo de luta dignidade e união para todo país. Proibiu também que o chamasse de Zé Doido, pois um homem que salvou sua família, amigos e toda população daquela região, teria que ser chamado pelo seu nome, Sr. José.
Após alguns anos, foi transferido para a capital para prestar serviços na administração, e por ter se afastado do trem regrediu mentalmente. Em 1960, a companhia contratou a sua filha na nova empresa, até para acompanhar seu pai. Com sua presença, o seu desempenho melhorou muito. Bibi necessitando cuidar da família se dedicou e procurou especializar-se em suas funções, onde teve a oportunidade de galgar bons cargos. Não pode casar-se, pois tinha que cuidar de um maravilhoso pai criança. Apesar de sua condição era o maior pai do mundo.
- Senhoras e Senhores esta é a minha história. Sou a filha do Sr. José de Almeida Alencar, neta do Sr.Ernesto, a terceira geração de ferroviários da família, todos apaixonados por trens. Meu nome é Edite de Almeida Alencar. E este senhor, que não consegue parar quieto no auditório, andando de um lado para outro, até mesmo atrapalhando meu discurso; essa criança de cabelos brancos é meu pai, que um dia foi carinhosamente conhecido como Zé Doido. E se Deus tivesse me dado dez oportunidades na vida para trocar de pai, a todas elas eu recusaria, pois, além de puro, somente teve amor em seu coração. Este herói que um dia por sua infinita bondade salvou a vida de todos seus amigos e de toda cidade.
Neste momento todos os ouvintes emocionados levantaram-se e viraram-se para ele que naquele instante era o centro das atenções e começaram a aplaudi-lo. O velho menino, que sem entender o que estava acontecendo, também aplaude e abraça a todos.
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